02 Julho 2026
“Não é coincidência que essa ruptura esteja acontecendo agora. A política reacionária precisa de uma religião para justificar sua superioridade.”
O professor Agostino Giovagnoli, historiador da Universidade Católica de Milão e autor de vários livros, questiona se é mera coincidência que esse cisma esteja ocorrendo agora, quando a extrema-direita está forte em todos os lugares.
“Não, não é coincidência. Agora, o país pode desfrutar de um ambiente favorável à supremacia branca ocidental, o que inspira lemas de remigração.”
Borghezio (1) também esteve na Suíça, liderando uma delegação de vannaccianos. “Parece-me significativo. Borghezio fala dos lefebvristas como soldados da tradição, isto é, de uma identidade cultural cristã identificada com a supremacia branca ocidental.”
A entrevista é de Concetto Vecchio, publicada por La Repubblica, 02-07-2026.
Eis a entrevista.
Existe o risco de uma fusão entre a extrema-direita e os lefebvristas?
Borghezio era um seguidor de Alexander Dugin, o ideólogo de Putin.
Então, há também este elemento: Rússia?
Sim. Borghezio, como documentado em um belo livro de Claudio Gatti, há muito tempo vem buscando transformar a Liga em um partido de extrema-direita. Ele não teve sucesso com Bossi, que era antifascista; já havia obtido mais sucesso com Salvini. E agora finalmente encontrou sua vocação no partido de Vannacci (2).
Roberto Fiore do Forza Nuova também esteve presente.
A exploração do catolicismo pela extrema-direita é uma constante. Isso já acontecia durante o regime fascista. O exemplo mais conhecido é o da Ação Francesa de Charles Maurras, que criou o chamado catolicismo ateu. Pio XI, que certamente não era um papa progressista, o excomungou. Isso serviu para ressaltar o perigo do fenômeno.
O que causa perigo político?
Por ter sua própria consistência histórica interna, por vir de muito longe.
Será que eles esperavam um papa mais moderado?
Sim, o cisma revela uma decepção. Leão XIV não é o conservador que eles imaginavam. Esperaram um pouco, mas agora está claro que, em uma questão crucial como a migração, o Pontífice se mantém firme nos princípios da Igreja. Sem falar da independência que demonstrou em relação a Trump.
Por que a extrema-direita busca cobertura religiosa?
Porque a política de direita precisa de sua própria religião, ou pelo menos de símbolos, para oferecer uma perspectiva metapolítica ao seu projeto. O racismo precisa ser disfarçado por mitos.
Isso não seria uma forma de proteção?
Uma espécie de fé. Na nossa superioridade sobre os outros. Um plano obviamente incompatível com o cristianismo, que é a religião da cruz e, portanto, também dos fracos.
Os lefebvristas sempre se inspiraram em ditadores.
Lefebvre era fascinado por Franco e pelos ditadores sul-americanos. Williamson, por sua vez, era um negacionista do Holocausto, assim como Lefebvre. Havia também uma fascinação pelo nazismo.
Como você explica isso?
A visão deles é intrinsecamente autoritária, dentro de uma lógica de força, e, portanto, há uma busca por aqueles que personificam essa força.
Devemos nos preocupar?
Receio que sim. O vannaccismo é um fenômeno perturbador, porque seus limites ideológicos são imprecisos. Não ouvimos nenhuma crítica real ao seu conteúdo por parte da centro-direita. E não é coincidência que seu ideólogo, Lorenzo Gasperini, seja um católico tradicionalista.
Notas do IHU
1.- Mario Borghesio é um político italiano que representou a Liga Norte na Câmara dos Deputados de 1992 a 2001 e como membro do Parlamento Europeu de 2001 a 2019.
2.- Roberto Vanacci é um político de extrema-direita e general aposentado do Exército Italiano. Desde julho de 2024, ele atua como membro do Parlamento Europeu; eleito pela Liga, em fevereiro de 2026 fundou seu próprio partido político, Futuro Nacional.
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