Terra abriga 20 milhões de espécies de insetos: pesquisadores revelam a extensão de uma biodiversidade insuspeita

Foto: Tonmoy Iftekhar/Unsplash

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01 Julho 2026

Uma nova avaliação científica estima que pode haver 20 milhões de espécies de insetos na Terra. Esse número surpreendente e sem precedentes deve incentivar esforços renovados em pesquisa e conservação.

A reportagem é de Vincent Lucchese, publicada por Reporterre, 30-06-2026. A tradução é do Cepat.

Esse número quebra todos os recordes existentes de vida. Só o mundo dos insetos pode conter de 14 a 20 milhões de espécies diferentes. Isso pode ser comparado aos 2 milhões de espécies inventariadas hoje, em todas as formas de vida, ou às estimativas comumente aceitas do número de espécies que habitam a Terra, que geralmente variam entre 8 e 20 milhões.

Essa nova avaliação foi realizada por uma equipe internacional de cientistas, cujo trabalho foi publicado em 29 de junho na revista PNAS. Seus cálculos, que eles apresentam como conservadores e bastante conservadores, dobram ou triplicam o número que até agora obteve maior consenso na literatura científica, em torno de 6 milhões de espécies de insetos existentes.

Uma complexa história sobre vespas

Avaliar a diversidade de insetos tem sido um enigma para os entomologistas. “É uma classe de animais pouco estudada, porque a maior parte de sua diversidade consiste em pequenos organismos localizados em regiões intertropicais, que são menos acessíveis e menos estudadas”, diz Rodolphe Rougerie, pesquisador do Museu Nacional de História Natural, abrigado no Instituto de Sistemática, Evolução e Biodiversidade, e coautor do estudo.

Qualquer estimativa, portanto, envolve extrapolar a partir de dados incompletos, o que torna o exercício particularmente arriscado. Para este estudo, no entanto, os pesquisadores não pouparam esforços. Eles instalaram uma série de armadilhas chamadas Malaise, em homenagem ao seu criador – uma espécie de grande rede mosquiteira que captura insetos em voo – na área de conservação de Guanacaste, na Costa Rica.

Esta região tem a vantagem de ser uma reserva tropical, rica em biodiversidade e abrangendo uma grande variedade de habitats: florestas secas, florestas nubladas e florestas tropicais úmidas.

Os cientistas capturaram nada menos que 1,6 milhão de insetos em suas redes. Graças a uma ferramenta de identificação de DNA chamada “código de barras”, eles conseguiram identificar um total de 53.954 espécies em suas redes.

“Sem essas ferramentas genéticas, precisaríamos de um exército de taxonomistas e anos de estudos comparativos para identificar essas espécies”, observa Rodolphe Rougerie.

Seu trabalho, no entanto, estava longe de terminar. Eles então se concentraram nas 1.414 espécies de microgastrinae capturadas, uma subfamília de vespas parasitoides. Este grupo de insetos é uma das especialidades dos autores, e a partir do qual eles conseguiram realizar cálculos complexos de extrapolação. Primeiro, eles calcularam quantas vespas e, em seguida, quantos insetos estavam faltando em suas redes.

Após estimarem o número de espécies de insetos que viviam na área de estudo, ainda precisavam descobrir como extrapolar esse número para todas as outras regiões do globo. Para isso, utilizaram dados já existentes sobre espécies mais bem estudadas: árvores e mamíferos, especialmente.

A lógica era a seguinte: a proporção entre o número de espécies de árvores em Guanacaste e o número total de espécies de árvores na Terra deveria ser aproximadamente a mesma que a proporção entre o número de insetos em Guanacaste e o número total de espécies de insetos na Terra.

“O método deles tem certos vieses e é inevitavelmente imperfeito. Mas eles utilizam uma quantidade enorme de trabalho de inventário, ideias elegantes e são cautelosos, tomando cuidado para minimizar seus resultados. É um estudo bem elaborado”, diz Jean-Yves Rasplus, entomologista do Instituto Nacional de Pesquisa Agrícola, Alimentar e Ambiental da França (INRAE), que não participou da pesquisa. Ele acredita inclusive que o número real de espécies de insetos seja provavelmente superior a 20 milhões.

“Eu mesmo sou especialista em vespas calcidóides, um enorme grupo de insetos com 30 mil espécies descritas, afirma. E considerando apenas as espécies desconhecidas em nossas coleções, passamos de 30 mil para 500 mil espécies! Só para os insetos polinizadores de figueiras, que eu estudo, existem 320 espécies conhecidas, e eu mesmo sequenciei cerca de 1.200 delas. Se extrapolarmos, poderíamos ter de 40 a 50 milhões de espécies. Essa é uma estimativa aproximada; não se compara ao rigor deste estudo, mas dá uma ideia das possibilidades”.

De qualquer forma, são muitos insetos. O que é bastante lógico, já que, dado o seu pequeno tamanho, esses animais vivem em uma grande variedade de ambientes, o que contribui para a sua evolução de maneiras muito diversas.

“Em seus micro-habitats, os insetos enfrentam inúmeros parâmetros: clima, alimentação, predadores, múltiplas interações, que determinam sua sobrevivência e, portanto, são um fator determinante da seleção natural e, consequentemente, da evolução e da diversidade”, explica Rodolphe Rougerie.

Um círculo virtuoso para a biodiversidade: quanto mais espécies de insetos existirem, mais isso fomenta a diversidade de insetos: “Milhares de espécies de insetos coexistem e formam comunidades complexas dentro das quais interagem e se adaptam umas às outras; durante o processo evolutivo, essa diversidade gera ainda mais diversidade”, afirma o pesquisador.

O outro lado da moeda: a perda de biodiversidade pode levar a um ciclo vicioso na direção contrária, com extinções em cascata e desastres ecológicos dos quais só nos damos conta muito tempo depois, ou nem sequer nos damos conta, dado o quão inexplorado o mundo dos insetos ainda permanece.

Daí a importância deste trabalho minucioso e a necessidade de catalogar essas milhões de espécies que ainda não conhecemos, argumentam os entomologistas. “O mundo dos insetos compreende redes biológicas extremamente complexas. Os microgastrinae deste estudo são os tigres do mundo dos insetos: eles comem outros insetos, que por sua vez comem plantas, e assim por diante. Eles serão os primeiros a se extinguir, como grandes predadores em ecossistemas, só que ninguém vai notar”, alerta Jean-Yves Rasplus.

Dar a essa gigantesca e frequentemente negligenciada classe de animais o lugar que ela merece também significa repensar nossas políticas de conservação da biodiversidade. “As políticas de restauração às vezes usam o retorno de uma ou duas espécies emblemáticas como indicador de sucesso. Mas o retorno ao equilíbrio está ligado a toda uma gama de espécies e comunidades extremamente complexas. Enquanto não medirmos e compreendermos essa diversidade, não seremos eficazes em nossos métodos de restauração”, afirma Rodolphe Rougerie.

A necessidade de estudar insetos é ainda mais urgente devido ao seu declínio acentuado: eles estão sendo duramente atingidos por pesticidas e poluentes de todos os tipos, mudanças climáticas, destruição e fragmentação de habitats, entre outros.

“Os insetos não atraem muitas pessoas para a área, lamenta Jean-Yves Rasplus. A comunidade científica não tem falta de ecologistas, e entender o panorama geral é importante, mas não funciona se você não conhece as espécies que compõem o ecossistema. Os calcídeos – 30 mil espécies descritas – são o dobro de todas as espécies de aves da Terra, e somos apenas cerca de trinta especialistas no mundo!”

Para quem busca uma vocação, não faltam oportunidades. Nem para descrever essas milhões de espécies, nem para protegê-las antes que desapareçam.

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