Papa Leão, entre colegialidade e consistórios: uma mudança de ritmo no governo da Igreja. Artigo de Giovanni Maria Vian

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30 Junho 2026

"Homem que sempre soube ouvir, e que como Papa, segundo vários testemunhos, está fazendo da escuta um método. Prevost mantém sempre presentes as palavras de Santo Agostinho que citou ao aparecer pela primeira vez na janela da Basílica de São Pedro: 'para vós sou bispo; convosco sou cristão' ", escreve Giovanni Maria Vian, historiador e ex-diretor do L'Osservatore Romano, em artigo publicado por Domani, 28-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Sem estardalhaço e com determinação, o Papa Leão, eleito há pouco mais de um ano, está mudando o método como funciona o governo central da Igreja. Sem abrir mão da primazia que lhe cabe como Bispo de Roma, o agostiniano e canonista Prevost voltou a priorizar a colegialidade, uma práxis antiga das igrejas cristãs, valorizada pelo Concílio Vaticano II, mas deixada de lado por seu predecessor, Bergoglio.

O instrumento mais importante dessa reforma decisiva é o consistório, a tradicional reunião de todos os cardeais, que foi particularmente eficaz na Idade Média, que Leão já convocou duas vezes em menos de seis meses.

Pescador de homens

Para os dois primeiros consistórios extraordinários de seu pontificado, o Papa de Chicago escolheu duas datas bastante significativas: 7 e 8 de janeiro, logo após o encerramento do Ano Santo, e 26 e 27 de junho, na véspera da Festa dos Santos Pedro e Paulo, as "grandes e justas colunas" da Igreja Romana. Clemente de Roma havia usado essas palavras para definir os apóstolos mártires no ano 96, e a citação, à qual Paulo VI recorrera em 29 de junho de 1978, durante uma emocionante retrospectiva de seu pontificado, foi novamente proferida por Leão. Ele abriu o segundo consistório celebrando a Missa com os cardeais junto ao Túmulo de Pedro e, em seguida, iniciando a reunião propriamente dita com um discurso muito direto sobre o que espera deles.

No dia da festa dos santos padroeiros de Roma, a grande porta central da basílica vaticana é tradicionalmente coroada por uma decoração imponente de folhas verdejantes. As guirlandas representam a rede do pescador, remetendo às palavras dirigidas a Pedro, que justamente ganhava a vida pescando no grande Mar da Galileia, para simbolizar a sua missão e a dos outros apóstolos.

"De agora em diante, serás pescador de homens", diz-lhe Jesus no Evangelho de Lucas (5,10). Elemento constitutivo da Igreja desde as suas origens, a missão "tem Cristo como princípio e fim", pois "a verdadeira liberdade reside na fé", explicou Leão em uma homilia rica de significado e referências.

O convite à fé dirigido a "todos os povos" ressoa hoje em um cenário dramático brevemente delineado pelo Papa. "Tensões e conflitos internacionais ferem gravemente a família humana", e o homem, criado à imagem de Deus, é ferido, corrompido e morto, apesar de ser um "sinal da Sua glória no mundo", uma definição sugestiva do ser humano que o Pontífice extraiu de Irineu de Lyon e do Papa Montini.

Por isso, " a guerra nunca é digna da humanidade e nunca será abençoada por Deus, porque o Criador nos dotou de inteligência e vontade para resolver conflitos como seres humanos e não como animais, mesmo quando equipados com armas hipertecnológicas", declarou Prevost. Ele renovou, assim, o apelo às negociações e criticou mais uma vez a corrida armamentista, utilizando palavras cortantes que desmontam a sua retórica.

Colegialidade e sinodalidade

Ao final da homilia, o Papa Leão introduziu o tema da colegialidade, própria do episcopado, e que buscou distinguir muito claramente da sinodalidade. "A nossa colegialidade sintetiza a sinodalidade da qual participam todos os batizados, na unidade do Povo de Deus. De fato, sinodalidade e colegialidade são formas da fraternidade cristã que nos une como batizados e como bispos", esclareceu Prevost.

Evidente pareceu a alusão crítica ao "caminho sinodal" alemão, mas também, provavelmente, à progressiva transformação do Sínodo dos Bispos, concebido originalmente por Montini em 1965, mas significativamente ampliado por Bergoglio nos últimos anos para incluir padres, religiosos e leigos. Na visão de muitos críticos, isso teve o efeito de desnaturar um órgão de caráter episcopal, diluindo-o e tornando-o, na prática, menos incisivo e decisivo.

Um detalhe significativo na programação do consistório é o espaço reservado para "perguntas de esclarecimento", especificamente sobre as assembleias sinodais agendadas para os próximos anos. É o único espaço desse tipo, sinal de que a sinodalidade, palavra que o Papa descreveu como "um pouco fria" - há um ano, a Elise Allen na única entrevista concedida até agora - é um tema altamente controverso e de contornos pouco definidos, mas que Leão considera acima de tudo um "estilo espiritual" para fazer a Igreja avançar realmente.

Por essa razão, concluiu sua homilia descrevendo aos cardeais como entende seu serviço como sucessor de Pedro. "Efetivamente, a autoridade do primado é própria de quem escuta e, só por causa disso, guia; de quem aprende e, só por causa disso, ensina, sempre no seguimento do único Mestre", disse ele aos cardeais.

Homem que sempre soube ouvir, e que como Papa, segundo vários testemunhos, está fazendo da escuta um método. Prevost mantém sempre presentes as palavras de Santo Agostinho que citou ao aparecer pela primeira vez na janela da Basílica de São Pedro: "para vós sou bispo; convosco sou cristão". Um batizado como os outros e ao lado dos outros, portanto, e um bispo eleito Papa que entende o primado romano como uma função dedicada ao serviço. Em suma, realmente "servo dos servos de Deus", expressão que, desde o início da Idade Média, com Gregório Magno, tornou-se o título papal mais solene e expressivo. Ainda mais explícito foi o discurso de abertura do consistório. "A sinodalidade não é, primordialmente, um conjunto de procedimentos", mas sim "uma atitude, uma abertura, uma disposição para compreender", disse o Papa. Ele certamente não a entende como uma diminuição da autoridade; pois justamente a sinodalidade - encarnada no método de escuta praticado por Prevost - "ajuda-nos a compreender mais profundamente o significado da própria autoridade, que existe para salvaguardar a comunhão, promover a participação de todos e orientar o caminho compartilhado da Igreja".

Procedimentos distintos

Nesse sentido, nem mesmo o papado "pode ser vivido sozinho", disse Leão XIV. "Conto com vocês", continuou o Pontífice, dirigindo-se aos cardeais, "para me ajudarem a discernir o que o Espírito está dizendo à Igreja hoje. Preciso do apoio de vocês, forte, explícito e público", pediu Prevost, como de costume sem grandes rodeios.

Por fim, o Papa abordou com franqueza as críticas ao procedimento dos dois últimos consistórios, durante os quais os cardeais - dessa vez dos 241 compareceram 178, representando três quartos de todo o Colégio Cardinalício, que inclui cerca de trinta membros com mais de noventa anos - reuniram-se não apenas todos juntos, mas também em grupos menores. Foram formados oito desses grupos, compostos por cardeais vindos de dioceses de todo o mundo e dez por membros com mais de oitenta anos que já não são mais eleitores juntamente, aspecto curioso, com Curiais.

"Estou bem ciente de que, para muitos de nós, não é a maneira habitual de conduzir um consistório", mas "ainda haverá espaço para intervenções pessoais e, como sempre, todos são livres para me enviar observações ou reflexões em particular", garantiu Prevost. Talvez na expectativa de intervir para modificar o desnvolvimento de futuros consistórios, que terão de levar em conta dois novos fenômenos: o crescimento numérico dos cardeais, considerado excessivo por muitos, e o aumento, agora generalizado, da expectativa de vida.

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