Homilia é um diálogo de corações. Reflexão de Fernando Altemeyer Junior

Foto: Saplak/Pexels

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27 Junho 2026

"Boa homilia é a que nasce do coração e que transborda pela boca", escreve Fernando Altemeyer Junior, assistente doutor da PUC-SP.

Eis a reflexão.

Uma boa teologia nasce do ouvir Deus. E se faz sempre melhor cada vez que se põe de joelhos em atitude orante. Todo cristão pode ser teólogo se abrir seu coração para ouvir as suculentas palavras que saem da boca de Deus. Um dos mais apetitosos momentos para ouvir Deus acontece na liturgia quando se medita a Palavra viva que é o próprio Cristo que revela o Deus-Amor. Ao pensar a fé cristã, cada batizado sintoniza e compreende a vontade de Deus em sua vida, seus sofrimentos e suas esperanças.

Um momento litúrgico privilegiado para o diálogo entre o coração humano e o coração de Deus é a homilia. Homilia, do grego, conversa familiar como um dedo-de-prosa ou happy hour. É completamente diferente de sermão, exortação, discurso, e, sobretudo, distingue-se da oratória, de discursos catárticos ou de falas de comícios. Na antiguidade cristã marcada pelo pensamento grego, havia o discurso feito em praças ou tribunas, de caráter retórico e um outro modo de falar característico do ambiente doméstico ou familiar. Este segundo modo é a homilia. A tentação de muitos pregadores cristãos foi sempre a de querer imitar a retórica, sem valorizar a arte específica da homilética. Criaram uma ruptura entre a Palavra e o coração. O Concílio Vaticano II redescobriu a riqueza da arte da pregação e a homilia voltou a ser “parte da própria liturgia, na qual se expõe durante o ciclo do ano litúrgico, a partir dos textos sagrados, os mistérios da fé e as normas da vida cristã (SC 52)”.

A homilia é a parte do ministério da palavra e da ação litúrgica, quando o presidente da celebração se dirige a todos os membros da Assembleia, proclama as maravilhas de Deus presente e atuante na história concreta do povo com quem trabalha e vive, apresenta o Mistério de Cristo Ressuscitado, inspirado nos dois ou três textos bíblicos daquele dia do calendário cristão, atento às necessidades particulares dos membros daquela comunidade em conexão com o momento histórico daquele povo concreto.

Toda homilia possui três elementos básicos interligados: o texto bíblico, estudado, compreendido e interpretado de acordo com as regras hermenêuticas da Igreja; o contexto litúrgico, situado e articulado no mistério pascal da Igreja; e enfim, o âmbito social e político da comunidade celebrante e ouvinte da Palavra, que requer observação e transformação da realidade histórica concreta dos fieis. Ou seja, a homilia está à serviço da Palavra de Deus, dirigindo-se a convertidos ou catequizados, mas também a todos os seres humanos, por meio da ação evangelizadora do povo de Deus que aplica a Palavra em seu viver. Homilias verdadeiras sempre nascem e bebem da fonte sagrada que é a Palavra divina. São poucas hoje em dia estas belas pregações litúrgicas. Em grande parte o clero não apresenta homilias, mas reproduz discursos ocos, vazios e aborrecidos, pois descentrados e narcisistas. A ausência querigmática, o excesso de palavras, abuso de tempo, moralismos, curandeirismo, cantos em hora errada, glossolalia, abstrações, ausência da perspectiva bíblica, excesso de sociologismo, falta de lógica durante a homilia, erros crassos em português, comentários jocosos ou inoportunos, piadas ou projeções de imagens desconexas, tudo isso destrói e prejudica este ministério eclesial e a sua função espiritual durante a liturgia.

O coração da homilia

A homilia nasce da Palavra de Deus. Não pode haver outra fonte. O pregador é menor que a mensagem. Se o sacerdote é quem refulge e brilha, ofusca a Deus e sua mensagem. Só pode brilhar a Escritura Santa quando se fala e se prega. A homilia é como uma delicada acompanhante da Palavra. A pregação e a prece dos fiéis deve acompanhar as leituras proclamadas para que todo este momento sacramental seja lugar privilegiado de diálogo entre Deus e a comunidade humana. A função única e essencial de um homileta ou de um pregador é comunicar aos fieis celebrantes da liturgia eucarística os tesouros existentes na Palavra de Deus que acaba de ser acolhida, ouvida e digerida, contribuindo concretamente para a instrução cristã e para viver o mistério Pascal. Pregadores devem ouvir em seu coração a Palavra de Deus para que ao falar atinjam os demais corações. Quem fala é Deus pela Palavra dita e comentada. Tal como ensinava São Jerônimo em seu comentário a Isaias: “A ignorância das Escrituras, é, com efeito, a ignorância do Cristo (citado por Dei Verbum 25)”.

Como fazer uma homilia que fale aos corações?

Algumas pistas são fundamentais. Não são novas, mas remontam ao riquíssimo texto do papa Gregório Magno, conhecido como Regra Pastoral. Nesse livro se guardou a tradição do cuidado com a arte da pregação. Aqui está o Decálogo do Pregador escrito entre 591 e 592 por Gregório: “É necessário que o pregador seja: puro de pensamento; sobressalente no agir; discreto com seu silêncio; útil ao falar; próximo pela compaixão com cada um; primordialmente entregue à contemplação; companheiro por sua humildade de todos os que fazem o bem; firme por seu zelo em favor da justiça; sem que sua ocupação exterior debilite sua atenção ao interior; e sem que a solicitude pelo interior lhe faça abandonar a atenção ao exterior (José Ramos Domingo, Cómo transmitir hoy la palavra – indicaciones para la homilia, Madrid: Editorial PPC, 1998, p. 8)”.

A primeira é deixar Cristo falar e não substituí-lo por nada ou ninguém. Ensina o filósofo francês Michel Henry esta preciosa lição sobre a Palavra que desnuda e compreende o coração humano: “Assim é como o homem pertence à Verdade da vida, porque é engendrado em seu Verbo. Todo aquele que é engendrado no Verbo pertence à sua Verdade, escuta a palavra de Deus. O coração é o lugar no qual aquele que procede de Deus escuta a palavra de Deus. Neste lugar, a escuta da Palavra forma uma só coisa com a gestação do humano. Aí, na auto revelação da Vida em seu Verbo, se cumpre a auto revelação que faz ao homem naquilo que este tem de especificamente humano. Desse modo, ouvir a palavra é consubstancial à natureza humana. Essa identidade entre a revelação do homem a si mesmo em seu coração e a revelação de Deus em seu Verbo explica porque Deus vê em segredo os corações, este que é um dos grandes temas da doutrina que Cristo dirige à humanidade (Michel Henry, Palabras de Cristo, Salamanca: Ediciones Sigueme, 2004, p. 164)”. Só esta Palavra Divina pode reverberar e atingir o mais profundo de nosso corpo, nossa vida e nossa existência. A homilia deve e precisa tocar essa melodia celestial que nasce do coração de Deus pela Palavra dita por seu Filho Amado.

É necessário para que ocorra o diálogo dos corações que o pregador prepare sua pregação com esmero e docilidade ao Espírito Santo de Deus. Leia o texto, faça sua própria lectio divina durante a semana anterior. Isto obedecerá a algum método pedagógico e discursivo apreendido e celebrado pelo pregador. Diz o papa Francisco: “O desafio de uma pregação inculturada consiste em transmitir a síntese da mensagem evangélica, e não ideias ou valores soltos. Onde está a tua síntese, ali está o teu coração. A diferença entre fazer luz com sínteses e o fazê-lo com ideias soltas é a mesma que há entre o ardor do coração e o tédio. O pregador tem a belíssima e difícil missão de unir os corações que se amam: o do Senhor e os do seu povo. O diálogo entre Deus e o seu povo reforça ainda mais a aliança entre ambos e estreita o vínculo da caridade. Durante o tempo da homilia, os corações dos crentes fazem silêncio e deixam-No falar a Ele. O Senhor e o seu povo falam-se de mil e uma maneiras diretamente, sem intermediários, mas, na homilia, querem que alguém sirva de instrumento e exprima os sentimentos, de modo que, depois, cada um possa escolher como continuar a sua conversa (cf. Evangelium Gaudium 143)”.

Deve-se criar uma atmosfera orante, feita de uma breve, mas intensa, oração a Deus na própria sacristia antes da celebração. Esse pequeno momento de silêncio permite que a escuta de Deus possa ocorrer nele e por seus lábios a toda a Igreja reunida. Ruídos, dispersão e estridência serão sempre maus companheiros de qualquer homilia. A preocupação central não pode ser a cor da túnica ou os tipos de renda da estola. Isso é irrelevante. Central é deixar-se guiar por Deus na simplicidade e austeridade das vestes e do ambiente. Certamente alguma música poderá emoldurar e antecipar melhor a homilia que quaisquer vestes e tecidos dourados.

Boa bagagem cultural, excelente português e conjugação verbal, imagens e metáforas sempre ajudam se fizerem fulgurar e esclarecer a Palavra de Deus. Sem esquecer de uma boa dicção, excelentes microfones e caixas de som tri axiais profissionais para que não haja agudos ou graves em demasia. Para tocar os corações o segredo é falar as coisas de Deus e colocar-se no lugar dos ouvintes. Como ensinava Blaise Pascal: “não fazer grande o que é pequeno, nem apequenar o que é grande. Não basta que uma coisa seja bela, mas que seja adequada ao tema da pregação, que não haja nela nada de mais ou nada de menos. É preciso refugiar-se ao máximo no simples”. Um pregador exímio captura corações e mentes, pois apresenta Deus e seu Amor o que é irresistível.

Conhecer cada pessoa presente na liturgia é essencial e assim ensinava Santo Agostinho em seu ainda atualíssimo tratado sobre a Doutrina Cristã: “Interessa muito para o modo de falar, saber se são poucos ou muitos os que estarão presentes; se doutos, se ignorantes ou se estarão misturados uns e outros; se urbanos ou do campo, ou se estarão juntos uns e outros; ou mesmo uma multidão formada por todo tipo de pessoas... e assim segundo esta diferença de impressões assim também brota, se desenvolve e termina um discurso (Santo Agostinho, De Cathechizandis Rudibus, cap. XIII, Buenos Aires: Plantin, 1954, p. 74)”.

Nunca será demais ao bom pregador inspirar-se na tradição patrística, sobretudo Ignácio de Antioquia, Cipriano, Gregório de Nazianzo, Gregório Taumaturgo, Basílio Magno, João Crisóstomo e especialmente o bispo Ambrósio de Milão.

Uma boa homilia está centrada no Evangelho, mas certamente depende de um bom pregador ou presbítero. Este deve ser afável, sereno, místico e humilde. Um bom pregador deve evitar tudo que é áspero, duro, grosseiro e superficial. Sem perder o humor e o carisma. Não pode ser uma múmia insensível, nem um palhaço ou intérprete teatral cheio de cacoetes e futilidades. Não precisa mudar sua voz como se fosse um personagem de TV ou novela. Deve ser sempre ele mesmo. Evitar discursos moralizantes, autoritários e discriminatórios. Evitar homilias que ultrapassem sete minutos, pois como diz o ditado antigo: ‘o bom, se breve, é duas vezes bom’. Homilias longas fazem tanto mal aos ouvidos, como o excesso de comida faz mal ao corpo, disse São Gregório Nazianzeno.

Nunca colocar as mãos nos bolsos ou dentro da túnica. Nunca apontar para as pessoas, não assoar o seu nariz, coçar-se, evitar tossir ou ficar olhando para o teto com medo dos olhares do povo. Cuidar de falar aos pobres e às crianças como interlocutores privilegiados. O ritmo e a suavidade são importantes. “A serenidade e o equilíbrio do que fala são essenciais para a dinâmica natural do discurso homilético (José Ramos Domingo, Cómo transmitir hoy la palavra – indicaciones para la homilia, Madrid: Editorial PPC, 1998, p. 57)”.

Como todo discurso e expressão humana coerente, deve a homilia ser preparada e possuir um bom começo (exórdio), um bom meio (pregação e reflexão sobre a Palavra e seu contexto) e uma boa finalização com a exortação à ação e ao compromisso social e político em favor da vida e dos valores do Evangelho. Saber concluir é tão ou mais importante quanto saber começar. O melhor da homilia está no fim. Apontar horizontes, favorecer esperanças e não ser um profeta da desgraça. Terminar com prudência e alegria. Sem repetir os "começos" nem os meios. Ir ao ponto. Entusiasmar o povo para que saiba fazer a hora e a história. Diz o papa Francisco sobre como deve agir o pregador litúrgico: “Não diz tanto o que não se deve fazer, como, sobretudo propõe o que podemos fazer melhor. E, se aponta algo negativo, sempre procura mostrar também um valor positivo que atraia, para não se ficar pela queixa, o lamento, a crítica ou o remorso. Além disso, uma pregação positiva oferece sempre esperança, orienta para o futuro, não nos deixa prisioneiros da negatividade. Como é bom que sacerdotes, diáconos e leigos se reúnam periodicamente para encontrarem, juntos, os recursos que tornem mais atraente a pregação (EG 159)”.

Assim comentava Monsenhor Marcelo Pinto Carvalheira, então reitor do Seminário Regional do Nordeste, em Recife-PE, pelos idos de setembro de 1966 logo após o término do Concilio Vaticano II, falando sobre o tipo de padre que a Igreja espera: “Homem da Palavra não apenas na pregação formal, mas também no testemunho, no bate-papo sobre a vida, na conversa entre amigos. ‘Opportune et importune’, no autêntico sentido paulino. O padre agora terá que ser o homem próximo, igual aos demais, embora diferente pela mensagem que traz, num exterior simples e comum. O padre de nossos tempos não deverá ceder mais à tentação de guardar o prestígio, através de atitudes esquivas ou modos artificiais que lhe granjeiem a aura de sacralidade ou misticismo. Ele terá que ouro de lei, autêntico, no meio da massa, sem artificialismo, como a luz, o sal ou o fermento de que fala o Evangelho. O padre do Concílio Vaticano II há de ser, portanto, o profeta em meio ao povo. Verá aquilo que os outros não veem e dirá, não só as palavras que consolam, mas também as que incomodam por se dirigirem contra as desordens estabelecidas de toda a sorte (Revista REB, vol. 26, fasc. 3. 1966, p. 535-536)”. As orientações da Igreja são bastante claras e lúcidas. Assim diz o documento de Puebla: “O povo de Deus com todos os seus membros, instituições e planos, existe para evangelizar. O dinamismo do Espírito de Pentecostes o anima e o envia a todos os povos. Nossas Igrejas particulares devem acolher com renovado entusiasmo o mandato do Senhor: Ide, pois, e fazei discípulos meus todos os povos (Mt 28,19). A Igreja se converte cada dia à Palavra da verdade, segue, pelos caminhos da história, o Cristo encarnado, morto e ressuscitado, e se faz servidora do Evangelho para transmiti-lo aos homens, com plena fidelidade (DP 240-241)”.

Ouvir a Deus e falar corretamente d´Ele

Um bom amigo judeu, o rabino Michel Schlesinger, do rabinato de São Paulo me ofereceu um belo livro judaico conhecido como Pirke Avot, a ética ou sabedoria dos pais, onde se lê uma importante recomendação para que todos os querem ser discípulos verdadeiros e aprendizes da Palavra do Altíssimo ofertada na Torah: “Quatro são as modalidades daqueles que se sentam diante dos sábios: esponja, funil, coador e peneira. Esponja é aquele que absorve tudo sem discriminar. Funil é aquele que recebe por um lado e perde pelo outro. O coador é aquele que deixa passar o vinho e retém a borra. Peneira é aquele que deixa passar a farinha comum e retêm os flocos da farinha (Pirke Avot 5,14)”.

Um bom amigo turco, Yusuf Elemen, me ensinou algo milenar da sabedoria otomana com o tripé essencial de uma boa pregação. Dito em idioma turco: “Akli Selim, Zevki Selim, Zikri Zelim”. Traduzindo: Pensar, de maneira benigna, correta e positiva. Desejar, de forma benigna, correta e positiva. E afinal, falar, de forma benigna, correta e positiva. Esse ensinamento turco-islâmico pode nos ajudar a proclamar, de forma correta, as nossas homilias para que sejam benignas, corretas e positivas. Homilias verdadeiras, pois nascem do diálogo com Deus e se exprimem pelo correto pensar, correto sentir e correto falar.

Boa homilia é a que nasce do coração e que transborde pela boca. Diz o papa Francisco: “A homilia é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo (EG 135)”.

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