Homilia proibida: o clericalismo não é um acidente de Leão XIV ou da Instituição, mas sim a sua própria natureza. Artigo de Ramón Fandos

Foto: Vatican Media

Mais Lidos

  • EUA versus Irã: uma guerra de forças desiguais que nenhum dos lados poderia vencer

    LER MAIS
  • A onda de calor que está reescrevendo a história climática da Europa

    LER MAIS
  • FIFA aciona protocolo climático e interrompe partida da Copa do Mundo 2026

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

25 Junho 2026

A decisão do Vaticano de que a homilia durante a Eucaristia é reservada exclusivamente a bispos, padres e diáconos não é um detalhe litúrgico: é uma confissão. Revela até que ponto o clericalismo não é um acidente do Papa ou da instituição que ele serve, mas sim a sua própria natureza.

Vamos desmantelar toda essa farsa a partir do único lugar onde ela pode ser desmantelada: o Evangelho. E a chave está numa pergunta que quase ninguém se atreve a responder honestamente: para que serve realmente a homilia?

A opinião é de Ramón Fandos, professor, em artigo publicado por Religión Digital, 25-06-2026. 

Eis o artigo. 

Doutrinar não é o mesmo que evangelizar.

Quem evangeliza inflama os corações; quem doutrina manipula as consciências. Quem evangeliza desperta; quem doutrina embala para o sono.

É por isso que a Hierarquia precisa de especialistas para explicar a doutrina de acordo com parâmetros estabelecidos séculos atrás para se proteger, e não para libertar ninguém.

Evangelizar não começa com palavras. Começa com a vida. Trata-se de tornar a Palavra visível antes de proferi-la; trata-se de deixar que a coerência fale mais alto que as palavras. O primeiro sermão de um cristão é como ele trata aqueles ao seu redor e como reage à injustiça e ao abuso.

É por isso que Jesus nunca falou de diplomas, currículos ou relações de poder assimétricas. Ele não pediu históricos acadêmicos. Ele não inaugurou uma faculdade.

“Eu te agradeço, Pai, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.” (Mt 11,25)

Os apóstolos eram pescadores, pessoas sem instrução, e mudaram o mundo. Pedro era um homem rude, sem formação rabínica, e sobre ele Jesus edificou a sua Igreja. Paulo disse claramente: “A letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3,6).

Quando uma homilia se torna doutrina manipuladora, tudo se inverte. Ela deixa de brotar de uma experiência vivida e passa a surgir de uma teoria. É uma palavra construída ao longo de séculos de filosofia e teologia, e com muita frequência é proferida por alguém cuja vida real não condiz com o que diz do púlpito. A pobreza é proclamada a partir de uma posição de conforto. A misericórdia é pregada enquanto o poder é exercido sem compaixão. A verdade é exaltada enquanto se aprende a silenciar e ocultar o que é inconveniente.

Meu amigo Francisco

Tenho um amigo, Francisco. Um homem simples, que me escreve frequentemente para me encorajar e dar a sua opinião sobre o que escrevo. E posso garantir que, em duas mensagens de WhatsApp, ele é capaz de dizer coisas mais autênticas e profundas do que qualquer coisa que eu já tenha ouvido de um púlpito em toda a minha vida.

Se um dia ele subisse ao púlpito, tocaria os corações. Porque quando ele fala não acrescenta uma única letra ou til ao Evangelho. Ele o deixa puro. O que vem depois disso não é fé: é vaidade, hipocrisia e sede de poder.

“Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’. O que passar disso vem do Maligno.” (Mateus 5,37)

Os seminários: fábricas de uniformes

Os seminários não se limitam a ensinar; eles moldam. Durante anos, eles condicionam — e por vezes distorcem — uma forma de compreender a Igreja, o mundo e o poder. E esse molde, quando sacralizado como "vontade de Deus", torna-se uma camisa de força, com um radar sempre ligado para detectar qualquer pessoa que se desvie, mesmo que minimamente, da linha oficial.

O resultado é uma forma de pensar monolítica e domesticada que não admite perguntas incômodas. Um clero que, com muita frequência, prega o que não pratica. Uma hierarquia que discute a natureza do pão eucarístico enquanto o mundo passa fome. Um clero que perdeu o dom de ser sal da terra e luz do mundo.

Clericalismo: o câncer que corrompe tudo

Isso é clericalismo, tanto o oficial quanto aquele que se manifesta em muitos leigos: transformar o conhecimento acadêmico na chave do poder, fazer de um diploma um passaporte para o sagrado. O Papa Francisco o denunciou repetidamente como uma perversão e como um dos males que mais corroem a Igreja. E ele estava certo.

A Igreja oficial não é tão diferente dos lefebvristas e dos redentoristas transalpinos: compartilha com eles os elementos essenciais — o poder dos sacerdotes, a hierarquia e o controle sobre os sacramentos. O tom e as formas mudam, mas o sistema permanece o mesmo: uma estrutura que continua a colocar intermediários entre os fiéis e Deus.

Porque o clericalismo é um pecado teológico. É erguer barreiras onde Cristo as derrubou. É acreditar que Deus fala mais claramente a um bispo com doutorado do que a uma camponesa que reza o terço enquanto colhe frutas.

O conhecimento acadêmico tem sido o instrumento perfeito para uma elite controlar o acesso a Deus. Sob o pretexto de que "só eles interpretam corretamente", ergueram uma barreira em torno do sagrado. E qualquer um que ouse pensar por si mesmo torna-se suspeito: uma ameaça, um herege, um dissidente.

Mas a verdadeira heresia não é pensar diferente. Heresia é excluir. Heresia é impor condições ao amor.

Jesus não veio para fundar uma religião para os sábios. Ele veio para reunir uma Igreja onde todos são bem-vindos. Pessoas que não conseguem explicar a Trindade, mas sabem como compartilhar o pão com os famintos. Pessoas cujo único dogma é que "Deus não pode deixar de amar".

A Igreja primitiva não exigia diplomas. Exigia testemunho. Exigia vida. Nenhum mártir jamais precisou ter um diploma em teologia ou o sacramento da Ordem antes de ser torturado. Francisco de Assis não estudou teologia: estudou leprosos. E mudou a história. A hierarquia, por outro lado, é especialista em teologia e, na maioria das vezes, não só deixa de mudar a história, como ergue verdadeiros muros. Basta lembrar quantos relatórios públicos e comissões independentes documentaram atrasos, resistência e silêncio no tratamento de casos de abuso.

Chamada à conversão

Não é a Igreja que julga o mundo. No fim das contas, segundo os números mais otimistas, os católicos representam apenas 17,7% da população mundial. Se subtrairmos os inúmeros católicos não praticantes, o número torna-se insignificante. Portanto, é o mundo que está julgando a Igreja. E o veredicto que muitos percebem é claro: "Vocês se tornaram uma elite, não seguidores do Nazareno; vocês parecem um clube exclusivo, uma estrutura poderosa, não uma comunidade de amigos."

Mas ainda há esperança. Que os bispos depositem suas mitras e vistam aventais. Que os sacerdotes desçam do altar e se sentem no chão com o povo. Que os teólogos renunciem às suas especulações e escutem os pobres, que são os que verdadeiramente compreendem a Deus. E que a hierarquia entenda, de uma vez por todas, que está onde está porque um dia prometeu servir ao Evangelho — e sem esse Evangelho, sua posição perde todo o sentido. Que entendam que sua missão não é comandar, controlar ou se proteger, mas servir. Servir sem desculpas, sem privilégios, sem medo de perder o poder. Servir colocando sua autoridade, seu tempo e suas ações a serviço dos fiéis, a serviço daqueles que afirmam acompanhar. Tudo o mais é trair o espírito Daquele que os chamou: o mesmo Deus em quem talvez já tenham deixado de crer há muito tempo.

Leia mais