Uma Igreja sem clericalismo: retornar ao Evangelho que é incômodo. Artigo de José Carlos Enríquez Díaz

Foto: Paris Match

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23 Junho 2026

"O 'Magnificat' expressa isso com uma clareza que continua a ser incômoda: Deus derruba os poderosos e exalta os humildes. Não se trata uma metáfora piedosa; é uma lógica profundamente transformadora que questiona toda forma de poder fechado, inclusive dentro da Igreja."

O artigo é de José Carlos Enríquez Díaz, teólogo, publicado por Religión Digital, 20-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Há afirmações que soam reconfortantes, mas não resistem diante da realidade. Dizer hoje que “não há mais clericalismo na Igreja” não é mera simplificação: em muitos contextos, é uma negação do que é evidente. O clericalismo não desapareceu; transformou-se, adaptou-se e, em algumas áreas, permanece profundamente enraizado. O próprio Papa Francisco alertou repetidamente contra esse fenômeno, identificando-o como uma das distorções mais graves na vida da Igreja. E o fez não a partir de uma perspectiva teórica, mas da experiência concreta de uma Igreja que muitas vezes confunde autoridade com poder, serviço com dominação e ministério com privilégio.

O problema não é a existência do ministério ordenado, mas a sua distorção. O clericalismo aparece quando o sacerdote deixa de ser servo e se torna senhor, quando a comunidade deixa de ser sujeito e se torna objeto, quando os leigos são tratados como menores na fé. É então que se rompe o equilíbrio essencial do Evangelho. Porque é importante lembrar claramente: a Igreja não é propriedade do clero. Ela é, como afirma o Concílio Vaticano II, o Povo de Deus, um povo sacerdotal, profético e real. Essa tríplice dignidade não é patrimônio exclusivo de poucos, mas uma vocação compartilhada por todos os batizados.

É aqui que a contradição se torna mais evidente. Embora o discurso oficial reconheça o protagonismo dos leigos, a prática diária continua a demonstrar profunda resistência. Fala-se de corresponsabilidade, mas as decisões são tomadas sem consulta. Promove-se a participação, mas se limita o acesso real aos espaços de tomada de decisão. Louva-se a maturidade do laicato, mas continua a ser tratados como simples receptor, não como protagonista.

Essa discrepância não é inofensiva. Deriva de uma cultura eclesial que ainda teme perder o controle, que identifica unidade com uniformidade e autoridade com verticalidade. No entanto, o Evangelho caminha na direção oposta.

Jesus de Nazaré não foi sacerdote. Foi um leigo que vivia segundo a liberdade do Espírito, que rompeu com padrões religiosos fechados e colocou as pessoas, especialmente os excluídos, no centro. Ele não organizou uma estrutura clerical nem criou uma casta separada. Convocou uma comunidade de iguais, onde a liderança era entendida como serviço. Como afirma o Evangelho: "Quem quiser ser grande entre vocês deverá ser servo" (cf. Mt 20,26).

As primeiras comunidades cristãs refletiam esse espírito, pelo menos por um certo período. A figura do padre como a conhecemos hoje não existia, nem alguns membros eram considerados superiores a outros. Havia ministérios, é claro, mas eram entendidos como funções a serviço da comunidade, não como hierarquias de poder. Com o tempo, a institucionalização tornou-se necessária, mas também acarretou riscos que persistem até hoje: a sacralização de papéis, a concentração de autoridade e o distanciamento entre o clero e o povo. O clericalismo é, em sua essência, uma regressão a modelos que o próprio Jesus questionou. E as consequências são graves. Prejudica os leigos, impedindo-os de crescer em responsabilidade, criatividade e empenho. Mas também prejudica profundamente os sacerdotes, aprisionando-os numa identidade rígida e autorreferencial que os distancia do povo a quem são chamados a servir. Não é coincidência que muitas comunidades não consigam funcionar como verdadeiros espaços de fraternidade.

O individualismo e o institucionalismo ainda exercem uma influência excessiva. Criam-se estruturas — equipes pastorais, conselhos, comunidades — mas muitas vezes carecem de dinamismo autêntico porque falta o elemento essencial: uma cultura de verdadeira comunhão.

Aqui, surge uma figura chave: o animador comunitário. Não como substituto do sacerdote, mas como expressão de uma Igreja que reconhece os carismas de todos. Contudo, o seu desenvolvimento continua limitado. Por quê? Porque implica ceder espaço, partilhar responsabilidades e transformar mentalidades. E isso nem sempre é fácil.

A pergunta é inevitável: estamos preparados para uma Igreja menos clerical e mais sinodal? A resposta, a bem da verdade, é: não totalmente. Mas é precisamente por isso que é urgente avançar nessa direção. O clericalismo não se combate com discursos, mas com práticas. Combate-se formando leigos maduros, capazes de pensar, discernir e agir. Combate-se com padres que renunciam a privilégios e abraçam o serviço humilde. Combate-se com comunidades em que a palavra circula, a responsabilidade é compartilhada e a autoridade é exercida a partir da proximidade.

Além disso, requer uma hierarquia diferente: menor, mais simples, mais evangélica. Uma hierarquia que não se apegue a títulos ou honrarias, mas que se entenda como serviço radical à fraternidade. Porque a credibilidade da Igreja não derivará do poder, mas da coerência.

O mundo já não se deixa mais impressionar por estruturas fortes ou discursos autoritários. O que atrai é a autenticidade, a humildade, a verdade vivida. E é aqui que o cristianismo encontra a sua maior força: na cruz, não no trono.

O "Magnificat" expressa isso com uma clareza que continua a ser incômoda: Deus derruba os poderosos e exalta os humildes. Não se trata uma metáfora piedosa; é uma lógica profundamente transformadora que questiona toda forma de poder fechado, inclusive dentro da Igreja.

Portanto, em vez de nos perguntarmos se o clericalismo existe ou não, deveríamos nos perguntar o quanto estamos dispostos a mudar. Porque o futuro da Igreja não reside no fortalecimento das estruturas de controle, mas em libertar a força do Evangelho em todo o Povo de Deus.

E essa força — silenciosa, persistente, incômoda — já está à obra. Em comunidades vivas, em leigos comprometidos, em pastores que servem sem se impor. Ali, a Igreja do amanhã está germinando.

A questão não é quem vencerá. A história do Evangelho já respondeu: a humildade, a verdade e o amor sempre acabam abrindo caminho.

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