22 Junho 2026
Abelardo de la Espriella, advogado penalista admirador de Trump e Milei, tornou-se neste domingo o novo presidente da Colômbia após vencer no segundo turno mais disputado das últimas décadas. Com 47 anos, o aspirante libertário de extrema-direita obteve 12.959.542 votos (49,66%), superando por margem estreita o esquerdista Iván Cepeda, que alcançou 48,70% (12.708.712 sufrágios), segundo o pré-apurado. Numa votação com participação histórica, os 377.076 votos em branco foram decisivos, ao superar a diferença final entre os dois candidatos.
A informação é de Camilo Sánchez, publicada por elDiario.es, 22-06-2026.
O desenlace, no entanto, tem um panorama mais complexo. De la Espriella chega à Casa de Nariño sem experiência em cargos públicos após obter o maior caudal de votos já registrado, mas com apenas quatro senadores próprios num Congresso de 103 cadeiras. Seu governo dependerá da disciplina e das negociações com forças que o apoiaram no segundo turno: o Centro Democrático, Cambio Radical e os partidos Liberal e Conservador, formações tradicionais com agendas próprias e fraturas internas que condicionarão sua margem de manobra.
Bogotá mantinha uma calma contida quando, às 16h, se encerraram os postos de votação. Fabio Jiménez, taxista de 50 anos, lembrou que naquela manhã havia visto em vários pontos da cidade agências bancárias e concessionárias de veículos protegidas com grades, como medida de prevenção diante de uma jornada que se temia agitada.
Colombian President Gustavo Petro has argued that Israel interfered in Colombia’s presidential election, citing irregularities in the vote-counting process and calling for a full audit and recount.
— Quds News Network (@QudsNen) June 22, 2026
Petro said that with preliminary results showing 49.3 percent support for… pic.twitter.com/89qD2N14uQ
Às 17h30, com 99,58% das mesas reportadas pela Registraduría Nacional, o resultado já era considerado irreversível. O país havia dado uma reviravolta política radical: de eleger pela primeira vez um governo de esquerda, passava agora a uma administração de extrema-direita cuja agressividade despertou comparações históricas. Alguns apontaram a semelhança com Laureano Gómez (presidente entre 1950 e 1953), recordado por sua retórica combativa e sua admiração por Francisco Franco.
Mas o pesquisador da London School of Economics Juan David Velasco aponta que De la Espriella se aproxima mais do conservador Miguel Abadía Méndez (1926-1930), mandatário pró-empresarial, alinhado com os interesses dos Estados Unidos, com discurso incendiário e enfoque repressivo em matéria de segurança.
Reações de um país fraturado em dois
O presidente cessante, Gustavo Petro, reagiu no X antes de se completar a pré-apuração, advertindo que a diferença entre os candidatos era de apenas três décimos. Segundo seu critério, "não se pode proclamar nenhum presidente" até o escrutínio oficial. Acrescentou que a realidade mostrava "um país partido ao meio" e denunciou "ingerência estrangeira roubando nossa liberdade". Mas ao mesmo tempo assegurou que acataria as decisões da justiça.
Enquanto Petro questionava os números, em Barranquilla, no Caribe colombiano, o também chamado "Tigre" Abelardo de la Espriella celebrava sua vitória diante de uma multidão reunida frente a uma urna de cristal blindada, de onde se dirigiu a sua "matilha" num discurso de 45 minutos intercalado por breves pausas com música circense. "Não existe liberdade sem segurança, não existe democracia sem a vida privada e não existe nação sem heróis como nossos policiais e soldados", afirmou. E acrescentou entre saudações militares: "A verdadeira paz nasce da justiça que, no fundo, está a cargo de nossas forças militares e da polícia".
Por sua parte, Iván Cepeda, que acumula 16 anos no Congresso, anunciou de Bogotá a impugnação de 33 mil mesas de votação, criticou a pré-apuração e convocou seus seguidores a se mobilizarem. Isso ocorre apesar de a Missão de Observação Eleitoral da União Europeia ter qualificado o processo de "transparente e crível".
O exterior decide pelo "Tigre"
A Colômbia quebrou neste domingo seu recorde histórico de participação eleitoral. Com um padrão de 41 milhões de eleitores habilitados no país e no exterior, 64% exerceu seu direito ao sufrágio: 26.509.263 depositaram seu voto. A cifra pulverizou o teto histórico de 59,02% registrado no segundo turno de 1998.
"Esta foi uma eleição como nunca antes havia acontecido, que deixou o país 50-50", disse o analista eleitoral Camilo Cruz, que comparou o resultado ao ocorrido em Honduras e Peru, democracias latino-americanas que viveram fraturas similares. Cruz colocou a pergunta que definirá os próximos quatro anos: "O vencedor terá que decidir se vai governar para sua postura majoritária ou se vai governar para todo o país".
O analista Andrés Sampayo destacou um dado relevante: dentro da Colômbia, a diferença entre os dois candidatos foi um empate técnico. Foi o voto no exterior que decidiu a presidência. "A eleição está sendo definida por margens mínimas dentro da Colômbia e por uma vantagem contundente fora da Colômbia", escreveu Sampayo. De la Espriella ganhou a Colômbia de fora da Colômbia.
Para Cruz, a jornada deixou duas lições. A primeira: o voto em branco foi significativo não por seu volume, mas por sua posição. "Há uma mensagem para o país, mas essa mensagem ainda não tem rosto." A segunda é institucional: a participação aberta do presidente Petro e dos prefeitos de Cali, Medellín e Barranquilla na campanha rompe uma tradição de neutralidade que, adverte Cruz, antecipa um cenário muito conflituoso para futuras eleições.
Ao encerrar a jornada, os temores de uma explosão social em Bogotá se dissiparam. Registraram-se alguns fugazes distúrbios e celebrações nas ruas. No próspero norte da capital, Gilberto Gaitán, de 69 anos, resumia com pragmatismo sua postura pelo novo presidente de extrema-direita: "É um homem de negócios; não precisa roubar." O país já começou a medir o alcance de suas palavras.
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