Ivan Illich: Celebrando a convivialidade

Ivan Illich | Foto: Associated Press/Wikimedia Commons

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20 Junho 2026

O centenário do nascimento de grandes figuras é uma ocasião para celebrar — ainda mais, ou talvez até mais, quando se trata de profetas inconvenientes. Ivan Illich (1926-2002) pode, sem dúvida, ser incluído entre eles, embora ele próprio preferisse identificar-se com a figura do peregrino em vez da do profeta.

A informação é de Isabella BrucknerStefano Chiarolla Gemma Serrano, publicada por Settimana News, 19-06-2026.

Filósofo, teólogo e historiador, é considerado um dos pensadores mais influentes do século XX. Ordenado sacerdote católico e inicialmente atuante em Nova York, posteriormente renunciou ao exercício público do ministério, mantendo, contudo, o estado clerical. Em Cuernavaca, México, fundou o Centro Intercultural de Documentación, que se tornou referência para a crítica das instituições da sociedade industrial. Entre suas principais obras estão Desescolarização da Sociedade (1971), Ferramentas para a Convivialidade (1973), Nêmesis Médica (1976) e Gênero (1982).

O Colóquio Teológico Internacional, que ocorreu de 14 a 16 de maio de 2026 no Pontifício Ateneu de Santo Anselmo e na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, explorou as implicações teológicas do pensamento do historiador e filósofo austríaco. O evento foi realizado em formato misto e predominantemente em inglês. Para tanto, as três organizadoras – Isabella Bruckner (Roma/Freiburg), Gemma Serrano (Paris) e Anna Sjöberg (Uppsala) – escolheram o título "Corruptio optimi quae est pessima: Explorando Ivan Illich como Pensador Teológico" para o ciclo de palestras. De fato, em suas discussões com o canadense David Cayley, Illich afirmou repetidamente que "a modernidade pode ser estudada como uma extensão da história da Igreja" e que "o mundo moderno torna-se inteligível apenas como uma perversão da mensagem cristã" (Rivers North of the Future, 2009).

Illich inicia uma análise genealógica da corrupção do Evangelho: a caridade transformou-se em serviço administrado, a hospitalidade em hospitalização, o cuidado deu lugar à gestão da saúde, o ensino degradou-se em escolaridade obrigatória, a missão é confundida com a promoção do desenvolvimento, e assim por diante. Illich denuncia as perversões da ordem sagrada, expõe os mecanismos da mentira coletiva e posiciona-se contra os mecanismos de estabilização inerentes às instituições, buscando restaurar a primazia da percepção contra aquilo que o sistema tornou invisível.

De fato, a percepção é precisamente o eixo central em torno do qual se constrói o vocabulário de Illich. A denúncia da perversão do Evangelho não deriva de uma intenção ideológica ou polêmica, nem de uma simples hipótese histórica ou filológica: antes, aponta para uma verdadeira metodologia teológica, que não se limita a um mero conjunto de indicações programáticas, mas representa, de forma mais radical, uma prática gestual e encarnada.

Esta metodologia consiste nas seguintes etapas: despir as palavras, traçar limiares, desencantar a percepção, defender o vernáculo, converter o olhar, partir das periferias, inventar contracondutas, analisar regimes sensoriais, reconhecer as feridas infligidas pela instituição.

Esses gestos pertencem ao ascetismo e à natureza profética da teologia. Eles reconduzem a teologia ao seu húmus, ao evento original frágil, arriscado e corpóreo que a fundou. Oferecem recursos para resistir às formas de dominação que se apresentam — enganosamente — como realizações do bem.

À luz dessa premissa interpretativa, os relatórios foram inspirados pelas seguintes questões:

Onde se localizam hoje os espaços vernaculares, lugares onde ainda é possível viver sem ser administrado?

Que teologia pode emergir desses lugares, e não de instituições, dispositivos ou burocracia?

Como podemos resistir quando a própria resistência corre o risco de ser capturada, absorvida e integrada?

O que significa inventar contracondutas que, por sua vez, não se transformem em programas?

O que significa praticar uma teologia que se recusa a ser instrumento daquilo que critica?

Uma teologia capaz de revelar a corrupção do bem sem ceder à tentação de administrá-lo?

Como podemos falar a partir das margens sem transformá-las em uma nova autoridade?

E se as corrupções mais profundas forem precisamente aquelas que já não ousamos nomear?

E se a teologia voltasse a ser um lugar de clareza — não apenas para corrigir, mas sobretudo para permitir que aconteça o que ainda não está suficientemente consolidado?

A conferência foi dividida em sete sessões. A primeira (tarde de 14 de maio, Sant'Anselmo) explorou a tese de Illich sobre a corrupção do Evangelho no mundo contemporâneo institucionalizado. A partir disso, os palestrantes (Anna Sjöberg, Uppsala, e Mårten Björk, Uppsala) destacaram a necessidade de uma nova ordem cosmopolita, regida pelo direito internacional e fundamentada na dignidade humana. Contudo, para Illich, a dignidade humana não pode ser definida no vocabulário jurídico, mas sim à luz do conceito de klêsis (vocação).

Propôs-se então uma leitura de Ivan Illich como um "andarilho entre mundos", partindo do seu uso de várias metáforas significativas, como a da linha divisória de águas (Jakob Deibl, Viena) e a dimensão apocalíptica da sua obra, como demonstrado por David Cayley (Toronto), com quem Illich manteve uma amizade duradoura.

Na segunda sessão (manhã de 15 de maio, Sant'Anselmo), os trabalhos exploraram os "pontos de virada" abordados por Illich, na proposta de desescolarização como prática transformadora (Vincenzo Rosito, Roma) e na crítica à medicalização como regime colonial de saúde cibernética (Markus Riedenauer, Eichstätt).

Houve também uma análise das implicações estéticas do pensamento ilíquico, incluindo a fecundidade da "ascese do olhar" na era da realidade virtual (Yvonne Dohna Schlobitten, Roma) e a discussão da descorporalização da liturgia como um ato da Igreja, o Corpo de Cristo (Isabella Bruckner, Roma).

As apresentações demonstraram claramente como, considerando o declínio drástico nas habilidades atuais de leitura e escrita, a experiência dramática da pandemia de Covid e a era das imagens e do transhumanismo, os diagnósticos de Illich são particularmente promissores e estimulantes.

Essas reflexões foram seguidas pela quarta sessão (tarde de 15 de maio, na Gregoriana), que examinou a complexidade das ferramentas que operam na sociedade contemporânea, como as "máquinas miméticas" (Tomas Ekenberg, Uppsala) e a digitalização na era do "sistema" (Gemma Serrano, Paris).

Os problemas decorrentes da interferência das tecnologias atuais estão ligados aos das "narrativas ocultas", que Illich desvendou tanto por meio de genuínas amizades intelectuais, principalmente com Paolo Prodi (Marcello Neri, Modena), quanto em sua complexa relação com a vocação sacerdotal. A esse respeito, Fabio Milana (Bolonha), editor das Obras Completas de Illich, apresentou material histórico inédito sobre a juventude de Illich e seu conflito com o Vaticano.

Concluindo a conferência, a quinta e última sessão (manhã de 16 de maio, Sant'Anselmo) explorou as implicações teológico-políticas do pensamento de Illich, que aponta para uma ruptura com a modernidade colonial (Martin Kirschner, Eichstätt, e Carlos Mendoza-Álvarez, San Cristóbal de Las Casas) e prepara uma "revolução vernacular" rumo a uma teologia da vida comum (Sebastian Pittl, Tübingen). O foco nessas relações estendeu-se a uma perspectiva internacional, da América Latina à Ucrânia.

Ao final do evento, por ocasião do seu recente lançamento, o volume contendo os primeiros textos de Illich, A Igreja sem Poder e Outros Escritos Selecionados, 1955-1985, foi apresentado por Dom Sergio Massironi, editor da série "Teologia dalle periferie" (Castelvecchi), e por Dom Roberto Maier (Milão), autor do posfácio.

Aliando excelência científica a um espírito de convívio, a Conferência confirmou a validade duradoura e a relevância teológica do pensamento de Ivan Illich: suas análises da dinâmica da corrupção do cristianismo na cultura secular sugerem um método genuíno de discernimento para a teologia, chamada a desenvolver uma concepção crítica da relação entre evangelicalismo e institucionalização.

Embora os participantes não se conhecessem antes da conferência, o evento rapidamente estabeleceu um clima de compreensão e colaboração: esse fato atesta uma experiência genuinamente teológica, de fato uma verdadeira theoría incorporada, no sentido de estudo e pesquisa que floresceu no contexto de discussões animadas (tanto no salão de conferências quanto durante os momentos informais de intervalos e refeições).

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