Sinodalidade, entre tabus e totens. Artigo de Marcello Neri

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10 Junho 2026

Parece que estamos vivendo tempos sombrios para a sinodalidade na Igreja italiana: para alguns, um tabu a ser exorcizado; para outros, um símbolo a ser ostentado. E para nós?

O artigo é de Marcello Neri, teólogo italiano, publicado por Vino Nuovo, 08-06-2026. 

Eis o artigo. 

A longa experiência sinodal de muitos católicos e católicas italianas nem sempre foi simples, porque nem tudo correu como esperado, mas certamente, no plano das práticas, trata-se de um sujeito coletivo precioso para a nossa Igreja, agora que levam essa experiência aos lugares onde vivem a fé.

A carta roubada

Esse sujeito merecia ser honrado e respeitado melhor do que fizeram na semana passada os bispos italianos reunidos para a 82ª Assembleia Geral. Em novembro de 2025, a Assembleia sinodal italiana aprovava o documento de síntese Fermento de Paz e de Esperança. Passados 6 meses, a CEI anunciou há duas semanas a aprovação do documento Radicados e edificados em Cristo. Linhas de orientação para a implementação do documento de síntese do Caminho Sinodal das Igrejas que estão na Itália.

O documento foi inclusive apresentado em 24 de maio — segundo o jornal Avvenire. Há só um pequeno problema: o documento não existe — ainda; o restante da Igreja italiana ainda não tem como lê-lo. Em nível de comunicação, "apresentar" um documento que ninguém, além dos bispos, ainda tem em mãos é um contrassenso. Após algumas investigações por parte de um colega da SettimanaNews, fica-se sabendo que precisam ser incorporadas ao texto observações feitas na Assembleia.

Segundo o presidente da CEI, Card. Zuppi, as Linhas de orientação são um texto breve e ágil (cerca de 15/16 páginas A4) — quantas observações foram feitas em Assembleia pelos bispos para não conseguirem integrá-las durante os próprios trabalhos? Não teria sido melhor fazer com que as observações fossem indicadas e recolhidas previamente e depois incorporadas ao texto, de modo a proceder a uma publicação simultânea durante a Assembleia geral? Este é o procedimento das grandes conferências episcopais europeias que, quando precisam aprovar um documento, o publicam imediatamente e o apresentam em uma conferência de imprensa sensata — onde é possível dirigir aos bispos perguntas sobre o próprio documento.

Os nós centrais e os problemas em aberto no que diz respeito à sinodalidade da e na Igreja italiana já foram expostos, com cortesia e elegância, por Sergio Ventura neste mesmo site. Que o episódio do documento CEI de implementação do Documento de síntese do Caminho sinodal italiano seja muito semelhante ao da "Carta roubada" de Poe confirma a pertinência — e a urgência — do que ele escreveu. No conjunto, quando a CEI interveio diretamente no processo sinodal italiano, deu sinais do que, à primeira vista, poderia parecer um certo diletantismo despreparado. Somando seus movimentos — de um documento de síntese devolvido pela Assembleia sinodal a um documento de implementação que (ainda) não existe —, a sinodalidade parece ser uma prática eclesial que os bispos italianos tentam exorcizar: alargando os prazos, talvez na esperança de que acabe caindo no esquecimento dos belos sonhos que ficaram como sonhos.

Contra os sinodalistas radicais

Mas a sinodalidade na Igreja italiana entra em sofrimento também por outro ângulo: o do radicalismo da sinodalidade que, na versão proposta por Vergottini, acaba por duplicar o modelo de configuração da Igreja católica que através da sua prática deveria ser refundado.

O campanilismo do catolicismo italiano deveria ser superado por meio daquele universalismo que representa a natureza do cristianismo — em nome da sinodalidade. Se se aplica este modo de entender a sinodalidade em escala universal, corre-se o risco de legitimar sinodalmente o mais rígido centralismo vaticano. Desmantelar o cristianismo real que vive num lugar para dar forma a um cristianismo global sem lugar. Que é exatamente o problema em que a Igreja católica se atolou, pelo menos há um século.

A sinodalidade não procede por Aufhebung em direção a uma síntese superior que deixa para trás (incorporando-os) os fragmentos dialéticos a que ela deve sua existência, mas através de processos de convocação dos fragmentos (locais e reais) com o fim de colocá-los em rede para que aprendam uns com os outros. E chegar a decisões, em níveis distintos, nas quais os fragmentos possam reconhecer-se sem necessariamente terem de se espelhar em uma perfeita mesmidade.

Ao mesmo tempo, a sinodalidade pede a capacidade da fé e um senso para o catolicismo real capazes de acolher e sustentar o fato de que o modo de ser da Igreja na sua unidade possa ser declinado de maneira diversa nos muitos territórios do nosso mundo. A tentativa de uniformar em todo lugar a Igreja católica na unicidade universal de um (único) modo não só se mostra hoje inviável, mas fez vítimas abundantes — entre os seres humanos e as culturas.

Uma Igreja capaz de sinodalidade, como prática e não como teoria produzida em laboratório, pede ser à altura da disseminação do Evangelho — do seu estar em lugares, histórias, contextos, que nunca são os mesmos. Se há uma eventual dispersão, como afirma Vergottini, não é eliminando os sujeitos inferiores que se coloca em campo uma boa sinodalidade; mas antes tecendo a trama de laços que permitam aos fragmentos permanecerem tais no seu ser-juntos — sem se transformar no monstro de uma totalidade sem rosto, história e enraizamento na vida de todos os dias.

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