18 Junho 2026
Donald Trump foi muito eloquente em sua coletiva de imprensa após a cúpula do G7 em Evian (França). Quando quer, ele é poderosamente sincero. E deu duas chaves que explicam o memorando de entendimento com o Irã que, segundo a Casa Branca, "no domingo foi assinado digitalmente pelo vice-presidente Vance e pelo presidente do Parlamento iraniano, Ghalibaf, com o presidente Trump como testemunha. E, agora, foi assinado pelo presidente Trump e pelo presidente Pezeshkian". Está prevista uma assinatura protocolar nesta sexta-feira em Genebra.
A informação é de Andrés Gil e Javier Biosca Azcoiti, publicada por elDiario.es, 17-06-2026.
A primeira chave dada pelo presidente dos EUA é que o acordo evita "uma catástrofe econômica" à qual os EUA e Israel arremessaram o mundo com a guerra iniciada no Irã no último dia 28 de fevereiro. A segunda, que mesmo que os bombardeios continuassem por "semanas, meses ou anos", o Estreito de Ormuz poderia não ser reaberto. Ou seja, voltar ao dia 27 de fevereiro de 2026, a véspera dos bombardeios americanos e israelenses.
Esse bloqueio do estreito de Ormuz se traduziu, de forma automática, no barril de Brent se instalando nos 100 dólares, no preço da gasolina aumentando 50% para os americanos e na inflação chegando a 4,2%, um pico nos últimos três anos. E tudo isso a poucos meses de eleições legislativas de meio de mandato nas quais tudo indica que Trump pode perder o controle total que possui sobre o Legislativo.
Assim, quem vinha reivindicando sua vitória desde o primeiro dia, quem disse que a guerra não duraria mais do que 4-6 semanas, vê-se quase quatro meses após o início dos bombardeios na posição de assinar um acordo que, longe de ser uma capitulação para o Irã, reúne inúmeras concessões a Teerã.
De fato, Trump já está sendo criticado pelo fato de se propor um fundo de 300 bilhões de dólares para a reconstrução e o desenvolvimento do Irã, enquanto se adia o debate sobre o programa nuclear iraniano para futuras negociações, deixando para mais adiante a questão mais difícil.
"Reagan está se revirando no túmulo", disse o senador republicano Bill Cassidy (Louisiana): "Não foram freadas as ambições nucleares do Irã; eles aprenderam que ameaçar fechar o estreito de Ormuz funciona e, sem dúvida, se aproveitarão disso no futuro. Antes da guerra, o estreito estava aberto, o Irã estava sendo asfixiado pelas sanções e 13 militares continuavam vivos. Agora, 13 americanos morreram, as famílias pagaram bilhões em combustível, as sanções serão levantadas e os bombardeios cessaram. Este é o pior erro de política externa em décadas".
Na mesma linha, o senador republicano pelo Texas, Ted Cruz, assinalou: "Entregar bilhões de dólares a fanáticos teocráticos que querem nos assassinar não é uma boa ideia. Acho que o presidente, lamentavelmente, está recebendo conselhos ruins. Permitir que o Irã tome o controle do estreito de Ormuz perpetuamente e cobre pedágios não condiz com o interesse dos Estados Unidos. No meu entendimento, o aiatolá não deveria receber nem um único centavo pelo livre trânsito marítimo".
Com efeito, o acordo de 14 pontos prevê a reabertura do estreito de Ormuz com controle iraniano — algo que já existia antes dos bombardeios — com o risco de que imponha taxas de passagem, bem como o levantamento de certas restrições econômicas impostas a Teerã, ao mesmo tempo que o programa nuclear iraniano fica para futuras conversas técnicas. Tudo isso, além disso, sem questionar o regime dos aiatolás, um dos assuntos que supostamente Trump perseguia com os ataques.
O texto estabelece que serão realizadas novas negociações durante 60 dias após a assinatura do documento, mas aponta que este período é "prorrogável por mútuo acordo". Durante este lapso de tempo, o Irã permitirá o livre trânsito pelo estreito, e os Estados Unidos levantarão em 30 dias o bloqueio marítimo imposto aos navios que saem e chegam a portos iranianos. Além disso, Washington se compromete, como parte do acordo final, a "levantar todo tipo de sanções" contra a República Islâmica.
O acordo também estabelece que os Estados Unidos "se comprometem, junto com seus parceiros regionais, a elaborar um plano definitivo e consensual, dotado de pelo menos 300 bilhões de dólares, para a reconstrução e o desenvolvimento econômico da República Islâmica do Irã". Por sua vez, o texto fixa que o Irã "reafirma que não adquirirá nem desenvolverá armas nucleares" — uma afirmação que o Irã faz há décadas como Estado parte do Tratado de Não Proliferação e que também deixava explícita no acordo nuclear negociado em 2015 pela Administração Obama.
Trump assume ainda que Teerã tenha urânio enriquecido "mediante um mecanismo que será acertado por mútuo acordo, em conformidade com o cronograma e com a metodologia mínima de diluição in situ sob a supervisão da AIEA". Isto tenta resolver um problema criado exclusivamente por Trump, já que o Irã começou a acumular urânio altamente enriquecido como resposta à saída de Trump do acordo nuclear de 2015. Mediante esse acordo, o Irã havia se desfeito de 98% de suas reservas.
"Trump parece voltar à postura de aceitar um enriquecimento. Essa era a sua postura inicial. Posteriormente, Israel o convenceu a adotar o enriquecimento zero, o que provocou a primeira guerra. Para conseguir o acordo, agora ele está voltando à sua postura inicial. Nunca deveria tê-la abandonado", assinalou Trita Parsi, especialista no Irã e vice-presidente do Quincy Institute.
Um acordo que não melhora o de Obama
A declaração de 2018 da Casa Branca de Trump justificando sua retirada do acordo nuclear negociado por Obama é um bom reflexo de até onde Washington cedeu. "Além de nunca desenvolver uma arma nuclear, o regime iraniano nunca deve ter um míssil balístico intercontinental, deve cessar seu desenvolvimento de mísseis com capacidade nuclear e deve deter suas ameaças à liberdade de navegação no Golfo Pérsico e no Mar Vermelho", dizia.
O programa de mísseis do Irã, contudo, nem sequer aparece mencionado e Trump não só reconheceu que não fará parte de nenhuma negociação, mas também defendeu que o Irã os possua. "Finalmente, a realidade, e não as ilusões, voltaram à política dos EUA em relação ao Irã", assinalava o analista israelense Danny Citrinowicz após a divulgação do texto do acordo. "Pode ter sido necessário um conflito longo, caro e complicado, mas os Estados Unidos parecem ter chegado a uma conclusão que deveria ter sido evidente desde o princípio: o programa de mísseis do Irã não é negociável, já que constitui o próprio núcleo da doutrina de segurança do regime."
"O mesmo ocorre com o estreito de Ormuz. Os pedidos de garantir de forma permanente a liberdade de navegação mediante a força militar subestimaram um fato geopolítico fundamental: a geografia não pode ser vencida. Enquanto o Irã ocupar a costa norte do Golfo e controlar o acesso a um dos passos estratégicos marítimos mais importantes do mundo, continuará tendo a capacidade de ameaçar o tráfego marítimo regional."
"As guerras foram uma verdadeira tolice porque os mediadores de Omã já haviam apresentado a Witkoff e Vance os parâmetros de um acordo diplomático viável entre os EUA e o Irã há mais de um ano. O Irã se mostrava disposto a aceitar o acordo, mas, em vez disso, foi atacado", lembra Esfandyar Batmanghelidj, professor da Universidade Johns Hopkins. "Devemos nos considerar afortunados de que, após duas guerras, o Irã continue disposto a aceitar este acordo, sem condições drasticamente diferentes. Isto é um reflexo do pragmatismo implacável do Irã e do fato, frequentemente subestimado, de que as instituições de segurança nacional iranianas levam a sério a ideia da diplomacia."
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