A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de Mateus 10,26-33.
“Não tenhais medo!” (Mt 10,31).
O apelo “não tenhais medo!”, que aparece com insistência no evangelho deste domingo, está situada no contexto da missão. Jesus acaba de dizer a seus seguidores que serão perseguidos, encarcerados, inclusive serão mortos. No entanto, está claro que a advertência pode ser aplicada a todas as situações de medo paralisante que podemos encontrar na vida.
Provavelmente, o medo é o que mais trava os cristãos no seguimento fiel de Jesus Cristo. O medo do vazio existencial, da noite escura da vida; o medo do futuro, do desconhecido, do não saber...; as pessoas têm medo do que podem descobrir se escutam seu coração, medo de seus próprios “infernos interiores” ou de sua beleza interior, que lhe está oculta; têm medo do novo, como se “conservar o passado” garante automaticamente a fidelidade ao Evangelho; têm medo de assumir as tensões e os conflitos que brotam do seguimento de Jesus: calam-se quando deveriam falar, inibem-se quando deveriam denunciar.
Há um medo instintivo que é produto da evolução humana. Este é imprescindível para garantir a sobrevivência de qualquer ser vivo. Seu objetivo é defender a vida, seja fugindo, seja liberando energia para enfrentar as ameaças. Este medo é natural e seria inútil lutar contra ele. Sabemos que o medo é um sentimento que brota no ser humano quando ele, diante de certas situações externas, interpreta como perigosas para sua sobrevivência. O medo é o resultado da evolução humana e, portanto, positivo.
Mas, como seres humanos, podemos ser presas fáceis de um medo introjetado, ilusório, que nos impedem ativar nossas possibilidades de verdadeira humanidade. Este é o que nos trai e provoca transtornos constantes porque nos paralisa e nos atormenta. Com tais condicionamentos, não é estranho que a mente veja perigos por todos os lugares, instalando-nos no medo de maneira habitual, alimentando a ansiedade e trancando-nos em um cárcere interno que nos oprime cada vez mais.
O pior é quando o medo é utilizado por aqueles que pretendem submeter o outro; ele é o sentimento fúnebre mais eficaz para dominar pessoas, grupos e nações. Todas as autoridades, civis e religiosas, utilizaram-no sempre para conseguir a submissão e a obediência de seus súditos. Não só é explorado por empresas que se dedicam a vender todo tipo de seguros, mas também pelas religiões que exploram seus seguidores, oferecendo-lhes seguranças absolutas, prêmios eternos, depois de ter-lhes infundido o medo irracional.
Também na Igreja atual há infidelidades e fragilidades, mas há sobretudo medo de correr riscos. Estamos vivendo tempos sem audácia para renovar criativamente a vivência da fé cristã.
O anúncio da Boa Notícia do Reino exige uma boa dose de coragem e ousadia; no entanto, infelizmente, o medo teve e continua tendo uma influência nefasta; muitos dirigentes religiosos caem na armadilha de potenciar esse medo e apelam para o legalismo, o moralismo, o ritualismo estéril, a ameaça... A causa de não se atreverem a atualizar doutrinas, ritos e normas morais, é o medo de perder o controle absoluto (poder de consciência).
As expressões religiosas de inspiração cristã continuam alimentando a falsa imagem de um Deus que é todo-poderoso, juiz universal, ameaçador..., e essa imagem está a serviço de seus interesses e poder.
Quão distante estamos do Deus Pai/Mãe de infinita misericórdia e amor, revelado por Jesus. Por isso mesmo, temos de confiar totalmente n’Ele, porque nada pode mudar seu amor e seu compromisso com seus filhos e filhas. A causa de Deus é a causa do ser humano. Não nos enganemos; colocar-nos no caminho do seguimento de Jesus é situar-nos no compromisso com as pessoas. Deus não está, com seu capricho, manejando sua criação a partir de fora e ameaçando a todos. Ele está implicado nela entranhavelmente; faz de toda a Criação sua morada. Sua vontade é imutável.
Este medo artificial e “religioso”, em lugar de ajudar a nos defender, nos aniquila. Este medo é o contrário da fé-confiança. Se Jesus nos convida a não ter medo, não é porque nos promete um caminho de rosas. Não se trata de confiar que não acontecerá nada desagradável, ou que, se algo mau acontecer, alguém nos livrará disso. Trata-se de uma segurança que permanece intacta em meio às dificuldades e limitações, sabendo que os contratempos não podem anular o que somos de verdade. Deus não é a garantia de que tudo irá bem, mas a segurança de que Ele estará aí em qualquer situação. Quando exigimos de Deus que nos liberte de nossas limitações, estamos demonstrando que não amamos o que Deus fez.
A fé não é uma apólice de seguro, nem um tranquilizador, mas um desafio. A fé não tira o véu do mistério, mas ensina a olhar através dele com admiração e esperança.
A verdadeira compreensão da fé prepara a mente e o coração para os riscos da vida cotidiana, sob o olhar amoroso de Deus. As pessoas se libertam do medo à medida que se fazem merecedoras da vida.
A fé é, na prática, a capacidade de viver num mundo de dúvida e insegurança, mas com uma promessa de verdade. A fé não suprime a condição humana, a visão limitada, a mente vacilante, o coração indeciso..., mas dá ânimo e coragem de caminhar onde o chão não está firme, de ver onde o céu não está claro, de zarpar quando o mar está agitado; ela se manifesta como o poder de despertar em meio ao desânimo, de amar em meio à indiferença, de sorrir em meio à falta de compreensão.
A confiança não surge de um voluntarismo a toda prova, mas de uma experiência profunda do que Deus é em nós. “A finitude, quando é acolhida na verdade, não empobrece o ser humano, mas abre-o ao reconhecimento do rosto de Deus e do outro. Aliás, precisamente porque experimenta os limites – a vulnerabilidade, a dor, o insucesso –, ele pode reconhecer como inviolável a sua dignidade e a dos outros. E, na mesma experiência dos limites, continua capaz de intuir uma fraternidade maior do que ele próprio e de reconhecer a injustiça como escândalo” (Papa Leão XIV, MH n. 122)
Acolher nossas limitações e fragilidades e descobrir nossa verdadeira riqueza é o único caminho que nos faz chegar à total confiança. A confiança significa sair de nós mesmos e descobrir que nosso fundamento não depende de nós. O fato de que nosso ser não dependa de nós mesmos, não significa uma perda, mas um ganho, porque dependemos d’Aquele que é muito mais seguro que nós mesmos. Nosso passado é Deus mesmo, nosso futuro é também Deus; nosso presente está nas mãos de Deus e não temos nada a temer.
Só a ânsia de buscar seguranças e de controlar nosso próprio ser é o que nos faz entrar nesse beco sem saída que é a perturbação, o mal-estar, a insegurança, em uma palavra, o medo.
Falar de uma verdadeira confiança em Deus é nos situar em um terreno diferente porque nos obriga a quebrar as falsas imagens que temos d’Ele.
Confiar em Deus é confiar em nosso próprio ser, na vida, naquilo que somos de verdade. Não se trata de confiar em um Ser que está fora de nós e que pode nos dar, a partir de fora, aquilo que tanto desejamos. Trata-se de descobrir que Deus é o fundamento de nosso próprio ser e que podemos estar tão seguros de nós mesmos como Deus está seguro de si. Por maior que seja o motivo para temer, sempre será maior o motivo para confiar. Se cremos que Deus habita em tudo e em todos, então surgirá em nós um sentimento de total segurança, de total confiança em nós, naquilo que somos e naquilo que nós significamos para Deus.
Jesus nos convida a não ter medo de nada nem de ninguém: nem das coisas, nem de Deus, nem sequer de nós mesmos. Como seguidores(as) somos chamados(as) a superar o medo covarde, permanente, irracional, os sofrimentos imaginários, sombrios que nos tornam infelizes e nos fazem experimentar provações falsas e ilusórias. O compromisso com a proposta de Jesus sela o amor, que abole o medo da vida.
Devemos estar sempre mais convencidos de que a experiência de Deus, tal como Jesus no-la oferece e comunica, infunde uma paz inconfundível em nosso coração, cheio de inquietações, medos e inseguranças. Esta paz é sempre o melhor sinal de que temos escutado, desde as profundezas de nosso ser, seu chamado: “Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.
- Dê nomes aos medos que estão paralisando sua vida.