Peter Thiel na Argentina levanta temor de vigilância estatal

Foto: Wikimedia Commons

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16 Junho 2026

Peter Thiel, bilionário cofundador da empresa americana Palantir Technologies, especializada em vigilância em massa, cultiva laços com Javier Milei e comprou mansão em Buenos Aires. Sua presença na Argentina vem gerando temores entre ativistas.

 A informação é de Cristina Papaleo, publicada por DW, 15-06-2026. 

O bilionário teuto-americano Peter Thiel é uma das figuras mais influentes e controversas do setor de tecnologia da informação dos Estados Unidos e cofundador da empresa Palantir Technologies, que é especializada em mineração de dados e que opera com inteligência artificial (IA).

A noticiada intenção dele de se estabelecer na Argentina, incluindo a compra de uma mansão em Buenos Aires, alimentou temores de que uma aliança entre o chairman da Palantir e o presidente Javier Milei leve a uma deterioração na proteção de dados e a uma expansão da vigilância governamental no país.

Thiel tem posições muito polêmicas em relação à democracia ao dissociá-la da liberdade, o que o levou a ser rotulado por críticos de "tecnofascista". "Não mais acredito que liberdade e democracia sejam compatíveis", declarou em 2009, num ensaio intitulado A educação de um libertário.

Assim como Milei, Thiel se define como anarcocapitalista e inimigo do Estado. "Em muitos aspectos, a Argentina parece estar se tornando um laboratório, uma espécie de espaço de experimentação", afirma o cientista político Gustavo Marangoni.

Ferramentas poderosas de vigilância

A Palantir tem enfrentado críticas generalizadas de ONGs e grupos de defesa dos direitos civis por fornecer a governos acesso a ferramentas poderosas de vigilância, como o software Gotham, que interliga diversos bancos de dados, como arquivos de registro de veículos, boletins de ocorrência policial e dados de redes sociais.

Com acesso a essa plataforma, um governo pode cruzar bancos de dados, criar perfis de inteligência ou localizar indivíduos a partir de detalhes mínimos, como uma tatuagem ou a situação migratória.

A Palantir esteve por trás da captura e transferência para os EUA do ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro e de procedimentos contra migrantes realizados pelo serviço de controle de imigração e aduanas ICE, dos Estados Unidos.

"O fato de Thiel estar na Argentina e até mesmo ter se reunido com Milei e ministros gera muitos questionamentos", concorda o especialista em inteligência artificial e meios digitais Sebastián Di Doménica.

Até dados de pessoas em protestos

O governo de Javier Milei anunciou em maio de 2026 a criação do programa Gêmeo Digital Social, uma plataforma de IA que integrará grandes volumes de dados pessoais sobre saúde, mobilidade e até mesmo participação em protestos, com o objetivo de simular cenários sociais e prever seu impacto.

Nesse contexto, a presença de Thiel "chama especialmente a atenção porque o governo de Milei, ao mesmo tempo em que defende a liberdade individual, impulsiona a criação de bancos de dados e espelhos virtuais de controle dos cidadãos", destaca Marangoni.

Mas os riscos para os dados pessoais é uma história de longa data na Argentina. "Ainda que a Argentina já tenha sido um país de vanguarda nesse sentido, houve um esvaziamento na proteção de dados, uma ausência total de política pública de segurança informática, com um problema adicional, que é a fragmentação de bases de dados de uso público", comenta o especialista em direito informático Tomás Pomar, presidente do Observatório de Direito Informático Argentino (ODIA).

"É nesse contexto que se dá a presença de Thiel", observa, "com uma narrativa de extrema direita que aborda temas que preocupam muita gente".

Pomar alerta para o risco de a Argentina "perder o debate em termos democráticos porque muitos estão exigindo respostas para problemas, por exemplo a insegurança, ou que se facilitem trâmites públicos, e não se importam com a vigilância".

Esse especialista e sua organização alertam há tempos para a inexistência histórica de interoperabilidade entre bases de dados públicas, por exemplo entre ministérios argentinos.

"Situação de deterioração da democracia"

Com sua segunda reforma, por decreto, da Lei de Inteligência Nacional, Milei possibilitou a agentes dos serviços secretos atuar sem supervisão judicial e sem os devidos procedimentos legais, sob o pretexto da segurança nacional. "Também foi autorizado que as forças de segurança realizem ciberpatrulhamento em redes sociais ou em ambientes web abertos", destaca Di Doménica.

Possíveis acordos entre o Estado e empresas de vigilância e gestão de dados, como a Palantir, geram preocupação entre ativistas. "Essas empresas são questionadas por terem utilizado suas capacidades em atos como repressão, perseguição de migrantes e outros abusos", diz Manuel Trufó, diretor de Justiça e Segurança do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS). As preocupações são agravadas pelas posições públicas de Thiel sobre a democracia.

Segundo Trufó, o Estado argentino está "se tornando cada vez mais opaco, enfraquecem-se os controles sobre a aquisição de ferramentas tecnológicas com maior capacidade de vigilância da população e de realização de inteligência ilegal".

Para Di Doménica, "se o Estado argentino decidir firmar contratos com a Palantir para vigilância em massa e análise preditiva, estaremos claramente diante de uma situação de deterioração da democracia", enfatiza.

Ele também alerta que isso poderia levar a decisões enviesadas e discriminatórias que afetem minorias e chama atenção para a necessidade de controle por parte de órgãos independentes. "A Argentina deve estar muito atenta para impedir a implementação desse tipo de sistema que prejudicam a democracia e as liberdades".

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