12 Junho 2026
A audiência no Supremo Tribunal de Israel está sendo realizada a portas fechadas. É evidente para todos que a prisão de Hussam Abu Safiya — sem acusações formais e baseada em alegações secretas desconhecidas até mesmo por seu advogado — talvez tenha gerado a maior mobilização internacional, com apelos por sua libertação vindos da Organização Mundial da Saúde, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e da Anistia Internacional. Ele é o pediatra que dirigia o Hospital Kamal Adwan em Gaza e que se tornou uma das principais vozes a denunciar a invasão israelense, até ser preso pelas tropas em dezembro de 2024. Ele foi detido dentro do hospital, o único ainda em funcionamento no norte da Faixa de Gaza.
A reportagem é de Antônio Pita, publicado por El País, 12-06-2026.
Nesta quarta-feira, o Supremo Tribunal de Jerusalém ouvirá um caso para determinar se a prisão de Abu Safiya, baseada em uma lei (a lei dos "combatentes ilegais"), será prorrogada. Essa prisão nega aos prisioneiros seus direitos previstos na Convenção de Genebra. Israel promulgou essa lei para Gaza há duas décadas e intensificou sua aplicação desde o ataque do Hamas em 2023. Na semana passada, Abu Safiya, de 52 anos, também foi colocado inesperadamente em confinamento solitário.
Após resistência inicial, funcionários do tribunal permitiram que um pequeno grupo de jornalistas, incluindo um do EL PAÍS, entrasse e tirasse fotos até a chegada do juiz. De repente, Abu Safiya apareceu na tela: algemado, visivelmente emaciado e muito mais magro, como muitos prisioneiros palestinos libertados de prisões israelenses nos últimos anos. Funcionários da Suprema Corte correram para desligar a câmera e tentaram obstruir a gravação, mas a conexão de vídeo permitiu brevemente a captura das primeiras imagens do médico em um tribunal israelense desde fevereiro de 2025.
Para seu filho, Ilias Abu Safiya, vê-lo naquele estado, depois de meses esperando por qualquer imagem do pai, foi "extremamente doloroso". "Eu não vi apenas uma imagem. Vi um ser humano cujo corpo tentou romper a ocupação, mas cujo espírito não conseguiu quebrar", diz ele em mensagens de áudio do exterior, onde se estabeleceu após conseguir sair de Gaza.
Ilias, de 28 anos, admite ter sentimentos contraditórios. Por um lado, "choque e profunda tristeza" ao ver "as marcas do encarceramento" em seu rosto e corpo. Por outro, "orgulho" ao reconhecer nele "a mesma determinação" que conhece em seu próprio filho e como "ele ainda conserva sua dignidade, apesar de tudo o que sofreu".
Após a audiência, seu advogado, Nasser Abu Odeh, explicou que não podia revelar "muitos detalhes" do caso porque se enquadrava na Lei de Combatentes Ilegais. De fato, ele teve que se ausentar do tribunal por alguns minutos durante a audiência para que a promotoria militar pudesse apresentar ao juiz as informações sigilosas nas quais baseavam o pedido de prorrogação da prisão preventiva por mais 530 dias, em vez de apresentar acusações formais e levá-lo a julgamento.
Abu Odeh relacionou sua recente transferência para o isolamento à sua decisão de recorrer ao Supremo Tribunal. O Serviço Prisional declarou em um comunicado à imprensa que "determina o local de detenção de presos e detidos de acordo com considerações profissionais, operacionais e de segurança".
"Continuamos convencidos de que esta é uma medida punitiva", responde o advogado. "Infelizmente, o tribunal concordou com a acusação, com base em informações confidenciais que a acusação alega possuir e que, segundo o exército israelense, partem da premissa de que a sua libertação representa uma ameaça à segurança do Estado de Israel."
"Prisão injusta"
Abu Odeh também reiterou as declarações feitas por Abu Safiya durante a audiência: "Sou pediatra e presto serviços médicos e cuidados a pacientes, feridos e pessoas vulneráveis. Exerci minha função de acordo com o direito internacional e as normas humanitárias. Minha prisão é injusta e peço ao tribunal que me liberte imediatamente."
Também estiveram presentes os dois membros do Parlamento israelense do partido Taal: Ahmed Tibi e Samir bin Said, representantes da minoria palestina com cidadania israelense, que compõe um quinto da população do país. Ambos invocaram seu status de membros do Parlamento para entrar na sala, apesar de ela ser fechada ao público, como demonstração de solidariedade. Tibi lamentou que a Suprema Corte de Israel tenha "endossado todas as atrocidades na Cisjordânia e em Gaza", mas acrescentou que "às vezes, muito raramente, há exceções" e que ela serve como "uma plataforma para fazermos nossas vozes serem ouvidas".
Abu Safiya tornou-se uma voz proeminente em Gaza em 2024, continuando a administrar o hospital durante o cerco de 85 dias imposto pelo exército israelense. Falou com a imprensa e divulgou vídeos gravados em seu celular, implorando por ajuda e denunciando a crescente devastação do sistema de saúde da Faixa de Gaza. O vídeo em que, em lágrimas, relatou como um drone israelense matou um de seus filhos viralizou.
Em janeiro de 2025, o exército israelense anunciou sua prisão, após inicialmente alegar desconhecimento de seu paradeiro. Rotularam seu hospital como um "reduto do Hamas" e o acusaram de ser um suspeito "terrorista", além de o acusarem de "ocupar um cargo" dentro do movimento islâmico. Acusações subsequentes basearam-se em retratá-lo como membro do Hamas, confundindo isso com sua função no Serviço Médico Militar Palestino. Essa organização também opera na Cisjordânia, fornecendo assistência médica às forças de segurança e civis sob um acordo entre os Ministérios da Saúde e do Interior. O Hamas governa Gaza sem eleições desde 2007.
Abuso
As autoridades israelenses não permitiram que Abu Safiya recebesse assistência jurídica até fevereiro de 2025. Ele já havia perdido 20 quilos, segundo sua advogada, Gheed Kassem. Quando ela o visitou quatro meses depois na prisão militar onde ele estava detido (Ofer), estimou que ele havia perdido 40 quilos e relatou que ele havia sofrido tortura e espancamentos.
Este é o resultado da transformação das prisões em centros de abuso sistemático e punição coletiva, com dezenas de mortes atrás das grades desde 2023, segundo inúmeros depoimentos e relatórios de ONGs e organizações internacionais. A medida é patrocinada por Itamar Ben Gvir, Ministro da Segurança Nacional, que promoveu a lei que condena automaticamente à morte qualquer palestino em Gaza e na Cisjordânia que mate israelenses no contexto do conflito no Oriente Médio.
Entre as limitações estão rações reduzidas e acesso limitado a cuidados médicos e higiene adequados. O advogado de Abu Safiya, inclusive, pediu à Suprema Corte que obrigasse a administração da prisão a tratar suas doenças crônicas e seu problema de visão, já que ele não está recebendo medicação. Outros treze médicos de Gaza estão sob custódia israelense desde 2023, todos sem acusações formais.
Um dos momentos mais surreais da prisão de Abu Safiya ocorreu em fevereiro de 2025. Uma equipe da emissora israelense Canal 13 o entrevistou dentro da prisão: de pé, algemado e cercado por policiais. Na entrevista apressada, Abu Safiya afirmou que coordenava a transferência de pacientes e a entrada de medicamentos durante o bloqueio israelense, que seu trabalho era prestar serviços médicos e condenou o ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023, que deixou quase 1.200 mortos e mais de 250 reféns. No entanto, a versão editada transmitida pelo canal chegou ao ponto de sugerir que ele estava mentindo sobre a presença de reféns israelenses no hospital. A justificativa: ele pediu que uma pergunta fosse traduzida para o inglês — "ele balbucia e para de entender inglês", observa a narração —, e respondeu imediatamente quando a pergunta foi traduzida para o árabe.
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