11 Junho 2026
Novas regulamentações do governo Trump exigem que criadores de conteúdo estrangeiros possuam um visto que lhes permita trabalhar legalmente no país.
A reportagem é de Isaías Alvarado, publicada por El País, 10-06-2026.
Com a Copa do Mundo se aproximando, os Estados Unidos voltaram suas atenções para os influenciadores estrangeiros. As autoridades de imigração alertaram que aqueles que entrarem no país com visto de turista não poderão usar sua estada para produzir conteúdo com o objetivo de gerar renda no YouTube, TikTok, Facebook ou outras plataformas — uma prática comum entre criadores de conteúdo digital do mundo todo há anos.
A mensagem chega em um momento crítico: na véspera de um dos eventos esportivos mais importantes do planeta, que atrairá centenas de influenciadores ávidos por documentar a experiência para milhões de seguidores. Não está claro qual será o impacto dessas novas restrições anunciadas pelo governo americano. Até o momento, não se sabe se elas já foram implementadas.
“Ter como único propósito da visita a criação de conteúdo (como influenciador), gerando assim renda nos Estados Unidos durante a estada no país, é considerado trabalho e exige o visto correspondente”, afirma uma declaração conjunta da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA e do Departamento de Segurança Interna enviada ao El País. “Indivíduos que entram nos Estados Unidos por meio de um programa de visitantes e recebem renda de uma fonte americana estariam violando as condições de seu visto de admissão”, acrescenta a declaração.
O visto de turista (B-2) permite a entrada nos Estados Unidos para lazer, férias, visitas familiares ou tratamento médico, mas proíbe o exercício de atividades laborais ou o recebimento de rendimentos de emprego nos Estados Unidos. Também não autoriza a permanência após o vencimento do visto. O não cumprimento dessas condições pode resultar no cancelamento do visto, deportação e restrições a futuras viagens ao país.
Para criadores de conteúdo, uma opção é o visto O-1, destinado a indivíduos com habilidades extraordinárias em áreas como artes, negócios, ciências ou esportes. Esse visto permite, sob certas condições, o desenvolvimento de atividades profissionais remuneradas, incluindo colaborações com marcas, turnês promocionais e a produção de conteúdo para fins comerciais.
Uma fonte do governo disse ao El País que o governo Trump planeja intensificar as inspeções em aeroportos e postos de fronteira para influenciadores mexicanos e estrangeiros que usam vistos de turista para "trabalhar" e ganhar grandes somas de dinheiro. A fonte, que pediu anonimato por não estar autorizada a falar publicamente, afirmou que o objetivo é "proteger os empregos americanos".
“Os próprios vídeos os denunciam”, afirmou ele. A referência alude a dezenas de criadores estrangeiros que chegaram a documentar como obtiveram vistos em embaixadas americanas e viajaram para diversas cidades do país para gravar conteúdo para seus canais do YouTube e plataformas digitais.
Essa atividade pode gerar milhões em receita, e alguns influenciadores têm públicos maiores do que os veículos de mídia tradicionais, graças ao crescimento de plataformas como YouTube e TikTok. Os influenciadores mais populares obtêm renda adicional por meio de publicidade, patrocínios, parcerias com marcas e apoio a campanhas políticas.
A Meta, proprietária do Instagram e do Facebook, bem como o YouTube e o TikTok não responderam aos pedidos de comentários sobre as medidas recentemente anunciadas.
A Copa do Mundo da FIFA promete ser um dos maiores fenômenos digitais do ano e representa uma oportunidade de ouro para criadores de conteúdo digital. 78 das 104 partidas do torneio serão disputadas nos Estados Unidos, em cidades como Los Angeles, Nova York, Miami, Dallas, Houston, Seattle, Atlanta e São Francisco.
Os influenciadores expulsos
O governo entrou em alerta máximo, segundo uma fonte consultada por esta publicação, após a prisão de Khaby Lame, uma das maiores estrelas do TikTok e um dos criadores de conteúdo digital mais seguidos do mundo, com mais de 160 milhões de seguidores na plataforma. O influenciador senegalês-italiano foi preso em Las Vegas, Nevada, em junho de 2025, por permanecer nos EUA após o vencimento de seu visto. Ele foi posteriormente libertado e deixou o país voluntariamente para evitar uma ordem formal de deportação, penalidade que o impediria de retornar por vários anos. Lame, de 26 anos, alcançou fama mundial durante a pandemia graças aos seus vídeos silenciosos e expressões faciais peculiares.
Outro caso que chamou a atenção das autoridades foi o do venezuelano Leonel Moreno, conhecido nas redes sociais como o “influenciador migrante”. O jovem passou a ser investigado pelo governo após publicar vídeos no TikTok nos quais supostamente incentivava atividades ilegais, como ocupar casas abandonadas e se aproveitar de programas de assistência social. Moreno tinha um pedido de asilo em aberto, mas parou de comparecer às audiências obrigatórias de monitoramento com o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). “Eu não cruzei o Rio Grande para trabalhar como um escravo”, afirmou em um de seus vídeos, enquanto exibia notas de 100 dólares que, segundo ele, eram provenientes de programas de auxílio do governo. As autoridades o deportaram em março de 2025.
Para Vance Owen, advogado especializado na indústria do entretenimento em Los Angeles, essas medidas de imigração ainda levantam questões sobre seu alcance e aplicação. Em última análise, o que preocupa o governo é a sonegação fiscal, acredita o advogado. “A tecnologia avança mais rápido que a lei, e talvez estejamos testemunhando uma situação em que as leis tributárias, as leis federais, estão se adaptando a essa nova realidade dos influenciadores, porque não existiam antes da internet. É algo novo, e algumas leis tributárias têm 100 anos ou mais. Estamos vendo um choque entre a tecnologia e leis obsoletas.”
Owen está preocupado com a forma como essas regulamentações riam aplicadas, pois considera a internet um mercado livre. "Como um país pode controlar um negócio global? Tenho mais perguntas do que respostas", afirma.
O advogado acredita que pode haver exceções se, por exemplo, um turista gravar um vídeo em Nova Orleans que viralize e ele comece a ganhar milhões de seguidores nas redes sociais. "Eles não estariam violando a lei porque vieram de boa fé, não eram influenciadores e sua fama surgiu do nada", explica. "Acho que estão tentando encaixar algo antigo em algo novo, e às vezes essa coisa não serve."
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