O momento Suez das elites estadunidenses: um império sem administradores

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09 Junho 2026

“As implicações de um império cujos administradores perderam a coerência estratégica se estendem em forma de ondas de choque por toda a arquitetura do sistema-mundo contemporâneo. O risco principal já não é a substituição pacífica de um centro hegemônico por outro, mas uma prolongada fase de anarquia geopolítica e fragmentação institucional”, escreve Alejandro Marcó del Pont, economista argentino, em artigo publicado por El Tábano Economista, 07-06-2026.

Eis o artigo.

Os impérios raramente reconhecem o momento exato em que começam a perder o controle de si mesmos. A decadência não costuma se apresentar como uma derrota militar espetacular, nem como uma crise econômica definitiva. Surge de forma mais silenciosa. Manifesta-se quando as classes dirigentes deixam de pensar em termos de sistema e passam a atuar exclusivamente em função de interesses particulares. Quando a luta pela captura de recursos desloca a capacidade de governá-los. Quando as elites deixam de ser administradoras de uma ordem e se tornam competidoras dentro dela. Essa é, provavelmente, a transformação mais importante que os Estados Unidos atravessam hoje.

Durante décadas, o debate sobre o poder estadunidense esteve dominado por perguntas equivocadas: os Estados Unidos estão em declínio? Serão superados por outra potência? O dólar continuará sendo a moeda dominante? Conseguirão manter sua superioridade tecnológica? Essas questões são relevantes, mas ignoram um problema mais profundo: a crescente incapacidade das elites estadunidenses de administrar o próprio sistema que construíram. A questão central não é a perda de poder, é a perda de governança.

Richard Lachmann, em uma obra que abordamos em outro artigo, First-Class Passengers on a Sinking Ship: Elite Politics and the Decline of Great Powers, formulou uma das descrições mais precisas desse fenômeno. Seu argumento é que as elites contemporâneas não cumprem mais a função histórica desempenhada por classes dominantes bem-sucedidas de outros períodos. As elites que construíram impérios costumavam atuar, ao menos parcialmente, como administradoras do sistema que garantia seus privilégios. Investiam em instituições, infraestrutura, estabilidade política e reprodução a longo prazo. Já as elites atuais, ao contrário, parecem se comportar como passageiros de primeira classe que continuam desfrutando dos benefícios da viagem, enquanto deixam de se preocupar com o rumo do navio.

A metáfora é particularmente adequada para descrever a evolução recente dos Estados Unidos. O problema não é mais a existência de uma elite poderosa. O problema é a fragmentação dessa elite. Wall Street, o Vale do Silício, o complexo militar-industrial, os gigantes da energia, os fundos de investimento, os conglomerados midiáticos, as empresas tecnológicas e as burocracias federais não constituem um bloco coerente. Formam um conjunto de grupos que competem permanentemente por influência, recursos fiscais, subsídios, contratos públicos e acesso privilegiado ao aparato estatal.

A captura do Estado norte-americano não se assemelha à caricatura clássica de um pequeno grupo conspirando a portas fechadas. É algo muito mais complexo. Wall Street prioriza estabilidade macroeconômica, acesso a mercados emergentes e previsibilidade regulatória; o Vale do Silício busca subsídios em massa para P&D e IA, proteção de propriedade intelectual e padrões tecnológicos globais compatíveis com seus modelos de negócios; o complexo militar-industrial depende de contratos de defesa de longo prazo e de narrativas de ameaça que justifiquem orçamentos crescentes. As elites tecnológicas não buscam mais apenas influenciar em políticas públicas, mas reconfigurar o regime de acumulação capitalista por meio do acesso direto às decisões governamentais e da privatização de ativos públicos.

A teoria de C. Wright Mills sobre a “elite do poder”, que descreveu em 1956, sobre a convergência de interesses entre as cúpulas corporativas, políticas e militares nos Estados Unidos, era real. Sete décadas depois, essa tríade se expandiu e se sofisticou, mas também foi fraturada. Heather Gautney, em sua revisão contemporânea de Mills, destaca que “a nova elite do poder” opera através de mecanismos de captura regulatória, financiamento de campanhas e circulação de quadros entre os setores público e privado, gerando uma autonomia estrutural que limita a prestação de contas democrática. A elite continua existindo, mas perdeu grande parte de sua capacidade de coordenação. O problema não é mais o excesso de coesão. É a ausência dela.

Durante as décadas de globalização neoliberal, o bloco financeiro representado por empresas como BlackRock, Vanguard e Goldman Sachs ostentava a hegemonia na formulação da política externa estadunidense. O imperativo absoluto era a abertura de mercados, a livre mobilidade de capitais e a arbitragem global do trabalho. As tensões geopolíticas eram consideradas externalidades administráveis por meio da arbitragem diplomática.

A atuação do Bureau of Industry and Security (BIS), do Departamento de Comércio, e do Conselho de Segurança Nacional impôs restrições que proíbem que os grandes fundos estadunidenses busquem rentabilidade em mercados estratégicos externos. Este vazio, deixado pela retirada parcial do capital financeiro tradicional, deu lugar a uma facção de elite sumamente agressiva, que funde os interesses do Vale do Silício com as agências de inteligência e defesa. Empresas como Palantir Technologies, Anduril Industries e SpaceX já não atuam como meras provedoras tecnológicas do Estado, mas como arquitetas diretas da doutrina militar imperial.

Este bloco promove ativamente uma narrativa de emergência existencial permanente. Ao monopolizar o desenvolvimento da inteligência artificial de fronteira, a análise algorítmica de dados em grande escala e a guerra com sistemas não tripulados, essa elite conseguiu capturar os orçamentos nacionais de defesa. Uma análise publicada no Financial Times detalha como os fundos tradicionais de capital de risco migraram em massa para a defense tech, criando um circuito fechado de retroalimentação. Empresários do campo tecnológico financiam campanhas políticas e comissões de especialistas em Washington, que posteriormente ditam diretrizes que tornam obrigatória a aquisição de software de inteligência artificial exclusivo dessas mesmas empresas tecnológicas.

Essa privatização e fragmentação tecnológica colide diretamente com o complexo militar-industrial tradicional (Lockheed Martin, Raytheon, General Dynamics). O resultado é uma absoluta incoerência logística. Como advertiu a RAND Corporation, em sucessivos relatórios sobre a base industrial de defesa dos Estados Unidos, o sistema atual é incapaz de sustentar guerras prolongadas de alta intensidade devido à sua hiperconcentração corporativa. Décadas de fusões permitidas pelo Estado para favorecer os dividendos dos acionistas reduziram o número de contratações principais de defesa, eliminando a redundância produtiva.

O Estado americano gasta mais em defesa do que os dez países seguintes combinados, mas sofre com escassez crônica de munição de artilharia convencional, sistemas de defesa antiaérea e capacidades de construção naval. As elites corporativas do setor de defesa capturam os fundos públicos para o desenvolvimento de plataformas de armas hipercomplexas e de custo proibitivo, concebidas para maximizar as margens de lucro trimestrais, em vez de garantir a eficácia operacional sobre o terreno. O Estado imperial perdeu a autonomia política necessária para disciplinar seus próprios contratados, operando como um refém financeiro de seus oligopólios de defesa.

O mais significativo não é que as empresas tecnológicas tenham acumulado poder. O verdadeiramente relevante é que começaram a disputar espaços que historicamente pertenciam ao Estado. Controlam informação, infraestruturas digitais, fluxos de comunicação, capacidades de inteligência artificial e enormes volumes de dados. Sua influência sobre a formulação de políticas públicas cresceu ao mesmo ritmo que sua importância econômica.

Durante o segundo mandato de Donald Trump, essa tendência alcançou uma nova etapa. A convergência entre o Vale do Silício, a inteligência artificial e o complexo militar-industrial começou a produzir uma reconfiguração do mapa do poder estadunidense. O que está emergindo não é uma estratégia nacional de modernização tecnológica, mas uma luta feroz entre diferentes grupos empresariais para determinar quem controlará os recursos públicos associados a essa transformação.

A inteligência artificial se tornou o equivalente contemporâneo do que foram as ferrovias no século XIX ou a indústria aeronáutica no século XX: um setor capaz de atrair enormes volumes de capital público e privado. Programas federais de pesquisa, contratos de defesa, subsídios energéticos, a construção de centros de dados e investimentos vinculados à infraestrutura digital mobilizam centenas de bilhões de dólares. Relatórios de 2025 estimam que as demandas de gasto de capital em “infraestrutura digital” alcançarão de 15 a 20 trilhões de dólares, na próxima década. A disputa por esses recursos é, em essência, uma disputa pelo controle do Estado.

Cada ator justifica suas demandas em nome da segurança nacional, da inovação ou do interesse público. No entanto, por trás desses discursos aparece uma realidade mais simples: a competição por subsídios, contratos e privilégios regulatórios. O resultado é paradoxal: quanto mais o Estado intervém para impulsionar setores estratégicos, mais intensa se torna a luta para capturá-lo.

A questão não é se a inteligência artificial transformará a economia. Provavelmente, sim. A questão é quem administrará essa transformação e sob quais critérios. Até o momento, as evidências sugerem que as decisões respondem menos a um planejamento nacional coerente do que à capacidade de diferentes grupos de influenciar o aparato estatal.

Essa dinâmica revela uma diferença fundamental entre uma potência administrada e uma potência capturada. Na primeira, os subsídios e políticas industriais fazem parte de uma estratégia. Na segunda, tornam-se espólios disputados por facções rivais.

As empresas com contratos prosperaram. Os acionistas prosperaram. Os lobbies prosperaram. No entanto, os problemas de sobrecustos, atrasos e duplicação de programas se multiplicaram. A lógica de maximização de lucros privados começou a se impor sobre a racionalidade administrativa.

O mesmo pode ser observado em outros setores. As farmacêuticas influenciam a regulação sanitária. Os gigantes financeiros condicionam políticas econômicas. As plataformas digitais moldam debates regulatórios. Os grupos energéticos pressionam por vantagens fiscais. Cada setor desenvolve mecanismos sofisticados de influência política. O notável é que nenhum deles parece assumir a responsabilidade pelo funcionamento geral do sistema.

Aqui, emerge o verdadeiro significado do “momento Suez” das elites estadunidenses. A referência histórica costuma ser utilizada para descrever episódios que revelam uma perda de poder internacional. Neste caso, porém, a analogia aponta para outra direção. Suez representou o instante em que as elites britânicas compreenderam que não podiam mais administrar a ordem global como haviam feito antes. O problema contemporâneo dos Estados Unidos é ainda mais inquietante: suas elites nem sequer parecem capazes de administrar suas próprias relações internas.

A polarização política é, em grande medida, uma expressão dessa fratura. Democratas e republicanos aparecem cada vez mais como veículos de coalizões econômicas em conflito. Cada mudança de governo implica uma redistribuição de recursos entre diferentes grupos de interesse. A continuidade estratégica desaparece. O planejamento se torna extremamente difícil. O Estado passa a funcionar cada vez mais como um território em disputa.

O resultado é uma forma peculiar de decadência. Não se trata de uma queda abrupta. Não implica colapso econômico, nem derrota militar. Consiste na erosão gradual da capacidade de coordenar recursos, interesses e instituições. As elites estadunidenses continuam sendo excepcionalmente eficazes em gerar riqueza privada. O que parece ter enfraquecido é a sua capacidade de atuar como uma classe dirigente. Essa diferença é fundamental. Uma oligarquia pode se enriquecer extraordinariamente sem fortalecer o sistema que a sustenta. Uma classe dirigente, ao contrário, compreende que sua sobrevivência depende da reprodução deste sistema.

A nova aliança entre o Vale do Silício, a inteligência artificial e o complexo militar-industrial não constitui necessariamente uma solução para esse problema. Não representa o surgimento de uma nova elite capaz de reorganizar o sistema. Representa a incorporação de novos atores a uma competição cada vez mais intensa pelo controle de subsídios, regulações e recursos estatais.

As implicações de um império cujos administradores perderam a coerência estratégica se estendem em forma de ondas de choque por toda a arquitetura do sistema-mundo contemporâneo. O risco principal já não é a substituição pacífica de um centro hegemônico por outro, mas uma prolongada fase de anarquia geopolítica e fragmentação institucional.

Como detalha o ensaio na Texas National Security Review (TNSR) [How a US “Suez Moment” Could Hollow the US Alliance System], o impacto da inoperância estadunidense em suas alianças é corrosivo. Países que historicamente delegaram sua segurança estratégica ao guarda-chuva nuclear e militar de Washington se veem obrigados a reconsiderar suas opções de sobrevivência. Na Europa, a fratura interna das elites diante da volatilidade da administração Trump acelera uma divisão entre facções atlantistas tradicionais e aquelas que defendem uma “autonomia estratégica” acelerada, de cunho protecionista.

Quando essa capacidade desaparece, a hegemonia não colapsa de um dia para o outro. Continua funcionando graças à enorme inércia acumulada ao longo de décadas. Mas começa a perder algo muito mais importante do que o poder: a capacidade de lhe dar direção.

Esse pode ser o verdadeiro momento Suez das elites estadunidenses. Não o instante em que descobrem que outro ator é mais forte, mas o momento em que tomam consciência de que não sabem mais governar o poder que possuem.

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