Dimensão social e profética da eucaristia. Artigo de Francisco de Aquino Júnior

Foto: RobertCheaib/Pixabay

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09 Junho 2026

"A súplica que fazemos na celebração da Eucaristia para sermos transformados no corpo de Cristo deve se tornar realidade em nossa vida", escreve Francisco de Aquino Júnior, presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte/CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

Eis o artigo.

Na celebração da Eucaristia invocamos o Espírito Santo sobre as oferendas “a fim de que se tornem para nós o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo” e sobre toda a Igreja para que, “participando do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos [...] num só corpo”. É a grande súplica da Igreja: “Fazei de nós um só corpo e um só espírito”! E é o grande milagre eucarístico: Transformar-nos no corpo de Cristo no mundo. O Concílio Vaticano II nos recorda com São Leão Magno que “a participação do corpo e sangue de Cristo não faz outra coisa senão transformar-nos naquilo que tomamos” (LG 26).

Essa transformação eucarística da Igreja no corpo de Cristo tem uma dupla dimensão: “nos une a Cristo e aos irmãos”. A Eucaristia nos une de tal modo a Jesus Cristo que nos faz “participar” de sua vida e nos “transforma” em seu corpo, através do qual Ele continua vivo o operante na história e, na força do Espírito, leva adiante a salvação do mundo. Pela Eucaristia, a Igreja é associada à missão de Jesus de anunciar a Boa Notícia do reinado de Deus. Essa missão vai se concretizando na vida fraterna e no cuidado da casa comum e tem nos caídos à beira do caminho (Lc 10, 25-37) ou nas necessidades da humanidade sofredora sua medida e seu critério escatológicos (Cf. Mt 25, 31-46).

Daí o vínculo essencial e indissolúvel entre a comunhão com o Senhor (ceia eucarística) e a participação em sua missão salvífica no mundo (vida fraterna, cuidado da casa comum, compromisso com os pobres e marginalizados), como tantas vezes cantamos em nossas celebrações: “o pão da vida, a comunhão, nos une a Cristo e aos irmãos”; “só comunga nesta ceia quem comunga na vida do irmão”... E nisso reside a dimensão social e profética da ceia do Senhor: Ela não nos aliena do mundo nem nos torna cúmplices das injustiças sociais, mas, pelo contrário, faz-nos participar da missão de Jesus Cristo, comprometendo-nos com os pobres e marginalizados desse mundo.

Em uma de suas homilias mais proféticas, São João Crisóstomo insiste no vínculo essencial entre a participação na ceia do Senhor e o cuidado dos pobres. Não se pode separar o corpo de Cristo que está no altar do corpo de Cristo que está no pobre:

Não penseis que basta para a nossa salvação trazer à Igreja um cálice de ouro e pedraria depois de ter despojado viúvas e órfãos [...] Se queres honrar deveras o corpo de Cristo, não consintais que esteja nu. Não o honreis aqui com vestes de seda, enquanto fora o deixais padecer de frio e nudez. Porque o mesmo que diz ‘este é o meu corpo’, é quem disse ‘me vistes faminto e não me destes de comer’ [...] Aprendamos, pois, a pensar com discernimento e a honrar a Cristo como Ele quer ser honrado [...] O que aproveita ao Senhor que sua mesa esteja cheia de ouro, se ele se consome de fome? E de que serve se cobres seu altar de panos recamados de ouro, se a Ele não buscas sequer o abrigo indispensável?

Há um vínculo essencial entre a ceia do Senhor e o lava-pés. Na feliz expressão de Van Waelderen, um irmão de tradição reformada: “não há Eucaristia sem lava-pés”. Não por acaso, ao rezarmos pela Igreja na Eucaristia, suplicamos: “Dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos de nossos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos; fazei que a exemplo de Cristo nos empenhemos lealmente no serviço a eles...”. É que a presença real de Cristo na Eucaristia é inseparável da presença real de Cristo no pobre.

A súplica que fazemos na celebração da Eucaristia para sermos transformados no corpo de Cristo deve se tornar realidade em nossa vida. E, se realmente somos o corpo de Cristo, recordava Francisco, “seremos seus olhos que vão em busca de Zaqueu e da Madalena; seremos sua mão que socorre os enfermos no corpo e no espírito; seremos seu coração que ama os necessitados de reconciliação, de misericórdia e de compreensão”. Nisso se manifesta o milagre, a eficácia e o poder transformador da Eucaristia em nossas vidas: em transformar-nos naquilo que comungamos – o corpo de Cristo. Nisso se manifesta a dimensão social e profética da Eucaristia: em comprometer-nos radicalmente com a fraternidade e a justiça socioambiental a partir dos pobres e marginalizados, com os quais Jesus Cristo mesmo se identificou.

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