08 Junho 2026
Um dos principais nomes mundiais nos estudos de meio ambiente, ex-vice-presidente da SBPC aponta que Brasil não se adaptou aos novos climas e está vulnerável a tragédias.
A reportagem é de Rafael Revadam, publicada por Jornal da Ciência, 05-06-2026.
No dia 5 de junho é celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente. Institucionalizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1972, a data nasceu para que nações e sociedades reflitam sobre a preservação ambiental e a realidade do planeta. Para o físico Paulo Artaxo, essa reflexão, mesmo incentivada por mais de 50 anos, segue insuficiente. Um dos principais nomes que encabeçam estudos acerca da emergência climática atual, Artaxo afirma que a preservação ambiental ainda não é uma preocupação de governos, e o Brasil não está preparado para o aumento na intensidade de eventos climáticos extremos.
“Com as atuais taxas de emissões de gás de efeito estufa, o que nós observamos é que estamos levando o planeta para um aquecimento médio global de 2,8°C. No caso do Brasil, por conta da sua posição tropical e por suas dimensões continentais, esse aumento de temperatura deve ser da ordem de 3,5°C a 4°C. Então, nós podemos imaginar o impacto que isso vai ter na população de cidades como Teresina, Palmas, Cuiabá, Manaus, Belém e toda a região Nordeste, a região central brasileira. Além de gerar impactos econômicos muito grandes, em particular sobre a produtividade do agronegócio brasileiro e, com isso, levar o País a ter que repensar toda a sua estratégia econômica já nas próximas décadas, ressalta.
Físico, professor titular do Departamento de Física Aplicada da Universidade de São Paulo (USP) e ex-vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Artaxo é também parte do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) no Brasil. Os seus estudos e análises sobre o cenário global vêm ganhando destaque nos últimos anos. Em 2026, o pesquisador foi agraciado com o Planet Earth Award 2026, premiação da Aliança Global de Cientistas (AWS – Alliance of World Scientists, da sigla original em inglês) que reconhece lideranças científicas cuja trajetória combina excelência acadêmica, engajamento público e contribuição efetiva para o enfrentamento da crise ambiental global. Neste mesmo ano, Artaxo também recebeu Menção de Louvor pelos seus trabalhos na Câmara dos Deputados.
Apesar do reconhecimento, Artaxo gostaria que os estudos originassem mais políticas. No caso específico do Brasil, o especialista defende duas medidas urgentes: o fim do desmatamento na Amazônia – o que o País se comprometeu a realizar até 2030 –, e o fim da exploração de combustíveis fósseis. “Estamos observando várias iniciativas para desenhar o mapa do caminho de como podemos descarbonizar toda a economia do planeta, para que a gente possa livrar a população do risco enorme que é o aquecimento global a um nível que pode se tornar insuportável para a nossa população”, complementa.
O Brasil é um dos países que vêm ganhando protagonismo nos debates ambientais globais. Um exemplo desse protagonismo foi ter sediado a 30ª Conferência das Partes sobre as Mudanças Climáticas em 2025, a COP30. Na época, a comunidade científica destacou como positivo o fato de o evento transformar a Amazônia em sede dos debates sobre políticas ambientais. Entretanto, a COP30 encerrou excluindo temas importantes de seus relatórios finais, como o fim do uso de combustíveis fósseis, o que mostrou que os diagnósticos científicos seguem sendo excluídos pelas nações.
Artaxo, à época, apontou que um dos problemas é que a gestão da ONU é conduzida por consensos, e não por ampla maioria. Ou seja, basta um país ser contra uma decisão, que ela é excluída dos debates globais, um cenário grave que segue até os dias atuais.
“Não há dúvida hoje de que temos sérios problemas de governança global, não só na COP30, não só no Acordo de Paris, mas na verdade isso extrapola com o enfraquecimento das Organização das Nações Unidas como um todo, em todos os seus organismos. Por exemplo, isso está em curso hoje na Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) por conta das grandes potências. Isso é um problema enorme, porque sem uma atuação conjunta de todos os 196 países signatários do Protocolo de Kyoto, dificilmente será possível costurar uma solução para a questão das mudanças climáticas. Isso ficou muito claro na COP30 e, além dessa questão, temos também o forte lobby da indústria do petróleo, que basicamente impede os governantes de vários países de tomarem decisões em favor da sua população.”
No meio da tensão política, a ONU segue pressionando os países para que eles se comprometam com os efeitos das mudanças climáticas. No dia 20 de maio, a Assembleia Geral da ONU declarou, em resolução, que os Estados têm o dever de combater a crise climática. Segundo Artaxo, tal determinação acompanha diagnósticos do Fórum Econômico Mundial, de painéis de cientistas, e de articulações de centenas de organizações governamentais, que defendem que a questão das mudanças climáticas tem que ser prioridade dos governos.
“É fundamental essa decisão da Corte Internacional de Justiça, do qual o Brasil é um dos signatários. Portanto, eu espero que isso seja mais um passo para que o governo brasileiro, em todos os níveis – federal, estadual e municipal – implemente medidas, não só para combater as mudanças climáticas, mas também para se adaptar ao novo clima, já que todas as nossas cidades e a nossa economia precisam se adaptar ao clima que já mudou e vai continuar mudando no futuro.”
O alerta de Artaxo não é em vão. Além da ausência de políticas, algumas regiões tomam decisões contrárias aos apontamentos científicos e colocam a população mais em risco. Um dos casos é a cidade de São Paulo, onde a substituição da vegetação por materiais como asfalto, concreto e alvenaria vem agravando o aquecimento. Como resultado, a temperatura do município aumenta mais do que a média global.
Como apontou um debate realizado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), enquanto a temperatura média global subiu aproximadamente 1,2°C desde 1900, e a da superfície terrestre, 2°C, conforme dados do IPCC, em São Paulo a máxima diária, que ocorre em torno das 13h, já cresceu 2,4°C, e a temperatura mínima diária, registrada normalmente às 6h, teve um aumento de 2,8°C.
Essa realidade se agrava ao pensar em possíveis tragédias que podem vir num futuro próximo. Para pesquisadores da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), existe 90% de chance de o planeta receber um novo El Niño no segundo semestre deste ano, o que deve afetar as temperaturas e o clima no Brasil.
“É possível que ele seja um super El Niño, como se tem noticiado, ou que seja um El Niño, digamos assim, forte ou típico. Isso não sabemos ainda, só vamos ter conhecimento dessa questão perto de julho ou agosto. Mas isso não importa, o que importa é que o Brasil tem que se preparar muito melhor para a ocorrência de eventos climáticos extremos que estão aumentando de intensidade e estão aumentando de frequência”, alerta Artaxo.
O pesquisador complementa que este novo El Niño está sendo intensificado por uma temperatura da superfície dos oceanos muito mais alta do que tínhamos há 40, 50 ou 100 anos atrás, o que pode gerar mais impactos no Brasil.
“Podemos ter novamente grandes enchentes no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Podemos ter secas importantes na Amazônia com o aumento da incidência de queimadas. Podemos intensificar o processo de seca e de desertificação do Nordeste brasileiro e termos mais ondas de calor na região Sudeste do Brasil. Portanto, o País tem que se preparar, preparar suas defesas civis para proteger a sua população desse El Niño que pode vir a ser muito forte, mas independente disso, temos que reforçar a resiliência da população aos eventos climáticos extremos.”
Artaxo complementa que o Brasil é um dos países onde a questão do aquecimento global e da proteção do meio ambiente encontra um consenso muito forte, em geral com mais de 80, 85% da população brasileira favorável à questão em pesquisas. “O que nos falta é um sistema de governança que possa fazer com que esse sentimento de urgência climática se transforme em políticas públicas”, pontua.
O cenário político e seu descompasso com a Ciência, inclusive, é uma das preocupações de Artaxo. Segundo dados da organização Ranking dos Políticos, para cada R$ 1 investido em pesquisa científica, o Estado brasileiro repassa outros R$ 3,05 para o sistema partidário. Ou seja, um fomento do dinheiro público três vezes maior e que, ainda, carece de olhar às necessidades da população.
“É muito importante que nas próximas eleições possamos efetivamente eleger representantes do povo no Congresso Nacional que se preocupem com o bem-estar da nossa população e não somente com o lucro de alguns setores que eles estão representando. Portanto, a gente precisa, o mais urgente possível, não que a gente tenha somente a bancada do agronegócio, a bancada da bala, a bancada do petróleo, mas também a bancada do povo, ou seja, representantes no Congresso Nacional que efetivamente possam defender os interesses da população brasileira, o que certamente não está ocorrendo atualmente”, conclui.
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