A encruzilhada entre a mensagem do Evangelho e a pompa institucional. Artigo de Merche Saiz

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06 Junho 2026

"A ambiguidade na figura do Papa, oscilando entre seu papel como Chefe de Estado e sua missão como líder espiritual, gera uma preocupante confusão institucional."

O artigo é de Merche Saiz, publicado em seu Facebook, 01-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A próxima visita do Papa à Espanha deu origem a um necessário debate ético envolvendo a hierarquia eclesiástica. A ostentação material, exemplificada pela produção exorbitantemente cara de um cálice de cristal da "Real Fábrica de Cristales de La Granja" — um presente da própria fábrica —, choca-se frontalmente com a realidade socioeconômica de uma população marcada pela precariedade do trabalho e pela crescente dependência da rede de bancos de alimentos. É imperativo questionar se tal gasto extravagante pode ser considerado compatível com uma instituição que, em teoria, deveria priorizar a caridade e a justiça social em detrimento da estética do poder.

Chefe de Estado ou pastor da Igreja Católica?

A ambiguidade na figura do Papa, oscilando entre seu papel como Chefe de Estado e sua missão como líder espiritual, gera uma preocupante confusão institucional. Embora o protocolo diplomático exija certas formalidades, a apropriação desse aparato pela hierarquia episcopal, liderada por figuras como o Arcebispo Argüello, parece mais uma coreografia monárquica do que um exercício de humildade pastoral. Essa encenação leva a se questionar se a Igreja esqueceu de sua vocação para o serviço para se transformar em uma entidade que reproduz as estruturas de poder que o próprio Jesus de Nazaré criticou com veemência.

É profundamente doloroso observar como o aparato eclesiástico tende a se blindar diante das vítimas de abusos sexuais, negando-lhes um espaço real de escuta e reparação. A exclusão dos setores mais vulneráveis contrasta com a preocupante revelação de que grandes empresas obtiveram acesso ao Papa por meio de significativas contribuições financeiras. Essa mercantilização da proximidade espiritual distorce a essência da mensagem cristã.

Se o mestre da Galileia, que compartilhava as refeições com cobradores de impostos e pecadores, retornasse, provavelmente não buscaria os aplausos das massas nem a proteção dos poderosos, mas denunciaria mais uma vez os mercadores que transformaram a fé em um negócio e a instituição em um refúgio para poucos escolhidos. A verdadeira vida cristã não se mede pela pompa dos atos públicos ou pela capacidade de mobilizar uma fervorosa "base de fãs", mas pela coerência entre o discurso e a ação.

A crítica aqui apresentada não surge da hostilidade, mas da profunda decepção com uma Igreja que parece ter perdido o mandamento de amar o próximo em meio aos labirintos do protocolo e à influência econômica. É hora de refletir se essa demonstração de poder pode ser considerada uma forma exemplar de cristianismo ou, ao contrário, um sintoma de uma instituição que perdeu o contato com a simplicidade do Evangelho e o sofrimento dos deserdados.

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