02 Junho 2026
O ex-secretário-geral da Unasul acredita que as relações internacionais já não se dão entre Estados, mas sim entre governos com a mesma orientação ideológica.
A reportagem é de Mercedes López San Miguel, publicada por Página|12, 01-06-2026.
Uma tragédia cruzou as vidas de Ernesto Samper e Iván Cepeda. Em 9 de agosto de 1994, dois dias após Samper assumir a presidência da Colômbia, o senador Manuel Cepeda, da União Patriótica, foi assassinado. Seu filho, Iván, a caminho da universidade para dar aulas, deparou-se com o carro crivado de balas; desceu do ônibus em que viajava e, em prantos, exigiu diante das câmeras que esse crime político não ficasse impune.
“Aquele evento estabeleceu uma ligação pessoal”, disse Samper ao Página|12 de um hotel em Bogotá. “Eu era amigo do Manuel, então a ligação era de sangue.” Ao longo dos anos, o ex-presidente e o homem que mais tarde serviria como senador por mais de uma década estiveram unidos pelo compromisso comum com a paz, os direitos humanos e as vítimas da violência estrutural.
Samper analisa o cenário que antecede o segundo turno das eleições, marcado para 21 de junho, no qual Cepeda e Abelardo De la Espriella se enfrentarão caso a contagem de votos compilada pelo Registro Nacional seja confirmada. Essa contagem foi rejeitada no domingo pelo presidente Gustavo Petro devido a supostas irregularidades. “Será uma luta entre os bons e os maus, em um contexto muito polarizado.” Para ele, a Colômbia não está imune à conjuntura global, e ele alerta para uma “América Latina em um perigoso processo de ‘bukelização’, apoiado de alguma forma pela equipe de Donald Trump”. Ele se refere a Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que se posicionou como defensor de uma linha dura.
Segundo o ex-presidente, trata-se de uma guinada à direita na política externa dos EUA. "Prova disso é que eles criaram uma coalizão, o Escudo das Américas, para combater as drogas, e deixaram de fora o México, a Colômbia e o Brasil — os três países que eles não poderiam deixar de fora", explica ele.
O ex-secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) acredita que, nesse sentido, as relações internacionais não são mais conduzidas entre Estados, mas sim entre governos da mesma orientação ideológica: “O que Iván Duque tentou fazer com o Grupo de Lima, que reuniu figuras de direita, ou o recente encontro de países de direita contra o narcotráfico, é resultado da guinada à direita impulsionada pela política externa de Trump. É por isso que a integração não pode prosperar, porque eles nunca se sentarão juntos. A integração floresceu quando a maioria dos países era progressista, quando Cristina Fernández de Kirchner, Lula da Silva, Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales estavam no poder.”
🇨🇴 As eleições da Colômbia podem ter sofrido interferência dos EUA, tanto com o patrocínio financeiro para a compra de votos, quanto diretamente em uma fraude de contagem de votos. A contagem de votos foi feita por uma empresa privada, que se recusa a passar por auditoria. pic.twitter.com/jaSY2A1lp5
— Análise Geopolítica (@AnaliseGeopol) June 1, 2026
A situação na Venezuela e o contexto regional
Nesse contexto, os EUA avançaram com uma intervenção na política venezuelana no início deste ano, capturando Nicolás Maduro. A respeito disso, Samper opina: “A operação foi absolutamente vergonhosa; sequestrar um presidente e matar 120 pessoas foi uma operação sem precedentes na região em 50 anos, desde a Operação Condor. Acho que a transição que encontraram não é ruim, porque as únicas pessoas que tinham capacidade para movimentar todas as peças deixadas por Maduro eram Delcy Rodríguez e seu irmão Jorge, que são muito próximos a ele.”
Nesse contexto, o ex-presidente delineou a posição de Cepeda em relação aos Estados Unidos e à região. “ Os americanos veriam Cepeda como líder de um governo de centro-esquerda, mas ele também não declararia guerra a eles. As únicas duas visitas internacionais que o candidato fez foram ao Brasil e ao México, com Lula e Sheinbaum. Em outras palavras, a Colômbia continuaria fazendo parte do trio progressista.”
Tudo isso está acontecendo em meio a uma série de ondas opostas. “Quase todos os países são de direita, fazem parte de um bloco que chamaríamos de Pan-Americano, aliado aos EUA. Toda a América Central é de direita: libertaram o narcotraficante condenado Juan Orlando Hernández, que era o chefe do homem que se tornou presidente. Já colocaram o Panamá de joelhos, entregando os dois portos chineses que Trump exigiu, e há especulações de que estejam preparando uma espécie de base secreta no Panamá para operações na selva.”
O legado de Petro e a iminente paz total
O objetivo de Gustavo Petro de alcançar a "paz total" é questionado por seus detratores, visto que o ELN e os dissidentes das FARC continuam atuando. A respeito disso, Samper destaca: "A abordagem de Petro foi racional. Se tenho sete focos de incêndio em casa, é inútil apagar um se não apagar os outros seis. O acordo com as FARC extinguiu boa parte do conflito armado, mas o ELN permaneceu ativo, assim como os dissidentes das FARC , que estavam mais interessados em continuar envolvidos com o narcotráfico no sul."
O ex-secretário-geral da UNASUL destaca três aspectos positivos da política de paz de Petro. O primeiro é o aspecto territorial: “Primeiro, percebemos que tínhamos que nos envolver nos territórios. Este não é o acordo de paz nacional alcançado em Havana. Temos que ir aos territórios onde vivem 10 milhões de pessoas, que é onde o conflito está acontecendo.”
A humanização do conflito, como segundo aspecto: “Tem a ver com o trabalho que temos vindo a desenvolver: a humanização e a proteção da população civil nas zonas de conflito.”
Terceiro, as reformas-chave: “Assim como para as FARC o mais importante era a reforma agrária, para o ELN o mais importante era a reforma da participação. Ou seja, que os canais de participação fossem abertos.”
Por fim, Samper conclui otimista sobre o futuro dessas mesas de diálogo: “Se há algo que Cepeda sabe fazer, é negociar a paz. Portanto, ouso dizer que, se eleito presidente, Cepeda retomará as negociações com o ELN, porque essa é a sua especialidade.”
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