Será que a Colômbia conseguirá evitar a guinada para a extrema-direita? Artigo de Aaron Tauss

Iván Cepeda | Foto: Semanario Voz/Flickr

02 Junho 2026

A vitória de Abelardo de la Espriella, um empresário excêntrico ligado à extrema-direita, mudou o panorama da campanha para o segundo turno das eleições, marcado para 21 de junho. Liderando as pesquisas durante toda a campanha, o candidato de esquerda Iván Cepeda agora precisa reverter o golpe político e emocional sofrido com o resultado.

O artigo é de Aaron Tauss, publicado por Nueva Sociedad, junho de 2026.

Aaron Tauss possui doutorado em Ciência Política pela Universidade de Viena. É professor associado de Relações Internacionais na Universidade Nacional da Colômbia.

Eis o artigo.

Em 31 de maio, cerca de 41 milhões de colombianos foram às urnas para eleger o sucessor de Gustavo Petro, que, segundo a Constituição, não podia concorrer a um segundo mandato. As eleições foram vistas como um plebiscito sobre a continuidade de seu projeto político, baseado em maiores investimentos sociais e diálogo com grupos armados. Muitos veículos de comunicação destacaram sua popularidade "excepcionalmente alta" para a reta final de seu mandato, com algumas pesquisas apontando para quase 50% das intenções de voto, apesar de diversos reveses durante seu governo. Mas o primeiro turno das eleições presidenciais terminou com a surpreendente vitória de Abelardo de la Espriella, um candidato de extrema-direita que venceu com 43,7% dos votos, superando Iván Cepeda, representante da coalizão governista, que obteve 40,9%. A senadora conservadora Paloma Valencia, candidata do grupo do ex-presidente Álvaro Uribe, ficou muito atrás dos dois candidatos e aquém de suas próprias expectativas, conquistando apenas 6,9%. A participação eleitoral atingiu 57,88%, a maior já registrada em um primeiro turno presidencial na história recente do país.

Embora Petro tenha obtido uma porcentagem semelhante (40,34%) em 2022, mas terminado 12 pontos à frente do segundo colocado, Cepeda iniciará o segundo turno das eleições em 21 de junho em desvantagem. As pesquisas lhe davam uma confortável primeira posição, portanto o resultado foi um golpe para sua campanha.

"O Tigre" e a reconfiguração da direita

Uma das chaves para entender os resultados do primeiro turno das eleições — e a dinâmica que provavelmente definirá também o segundo turno — é que a direita colombiana, dominada nas últimas duas décadas pelo uribismo, foi às eleições com dois candidatos concorrentes e, assim como nas eleições presidenciais anteriores, foi novamente um candidato independente que conseguiu atrair a maior parte desse eleitorado e garantir sua vaga no segundo turno.

Assim como em outros países, a extrema-direita acabou "absorvendo" os votos da direita tradicional. Embora De la Espriella tenha tentado projetar uma imagem separada das estruturas tradicionais da direita colombiana, ele faz parte do universo político do uribismo, com o qual mantém laços estreitos há anos.

De la Espriella se autodenomina "O Tigre", um apelido que lembra o usado pelo presidente argentino Javier Milei, que empregou a imagem de um leão durante sua campanha presidencial. A ascensão deste empresário, advogado criminal e dono de suas próprias marcas de rum e vinho à vida pública foi precedida por uma intensa presença nas redes sociais, onde ostentava sem pudor jatos particulares, Rolls-Royce Phantoms e casas em Miami, Bogotá e no interior da Itália. Uma vida que, como ele mesmo declarou apenas um ano antes de lançar sua candidatura, era boa demais para ser trocada pela presidência.

Com um discurso repleto de insultos e ataques antiesquerdistas, De la Espriella conseguiu consolidar ampla visibilidade pública mesmo antes de anunciar sua candidatura à presidência. Ele se declarou um "inimigo declarado" dos líderes de esquerda, "que fará todo o possível para desmantelá-los e confrontá-los, resoluta e decisivamente", já que "essa praga deve ser erradicada". Mas ele não parou por aí: construiu uma campanha que o apresentou como um outsider disposto a desafiar a classe política tradicional e reformar profundamente o sistema político colombiano.

Em matéria econômica, De la Espriella defende um programa de austeridade e promete reduzir drasticamente o tamanho do Estado. Entre suas principais propostas está um corte de 40% nos gastos públicos, medida que, segundo ele, melhoraria as finanças públicas e aumentaria a eficiência do aparelho estatal.

Seu programa — apelidado de "País Milagroso" — mistura o jargão empresarial de startups com promessas como a fumigação aérea de 330 mil hectares de plantações ilícitas, o restabelecimento do controle territorial em áreas dominadas por grupos armados em 90 dias — para o qual ele invocou, sem aparente ironia, o conceito de "Pax Romana" — e a construção de dez megaprisões de segurança máxima administradas por operadores privados e inspiradas no modelo Bukele. Para realizar tudo isso, ele anunciou que precisa do apoio dos Estados Unidos e de Israel, o que inclui o envio de aeronaves americanas para bombardear campos de "narcoterroristas" desde os primeiros dias de seu governo.

Em sua campanha inicial, De la Espriella propôs a saída da Colômbia das Nações Unidas (ONU), ecoando as acusações da extrema-direita contra a organização, que ele classificou, juntamente com a Organização dos Estados Americanos (OEA), como um "porta-voz político da esquerda". Além disso, o candidato entrou no primeiro turno com um passado profissional controverso: durante anos, foi advogado de defesa do empresário colombiano Alex Saab, considerado o principal operador financeiro do regime de Nicolás Maduro. Apenas uma semana antes da eleição, o jornalista Daniel Coronell publicou documentos que supostamente mostravam transferências de mais de US$ 370 mil de empresas ligadas a Saab para contas associadas ao candidato. De la Espriella chamou a revelação de "armação política" e não perdeu um único ponto nas pesquisas.

Durante a campanha, ele utilizou sistematicamente os meios de comunicação e as redes sociais para retratar o candidato progressista não apenas como um adversário político, mas também como uma ameaça à estabilidade econômica, à segurança e às instituições democráticas do país. Nesse contexto, acusações e informações falsas sobre supostas ligações de Cepeda com ex-comandantes guerrilheiros foram repetidamente disseminadas, buscando vincular sua candidatura à violência política e ao conflito armado.

Os dois candidatos de direita concordam na necessidade de abandonar as abordagens negociais adotadas nos últimos anos e, em vez disso, adotar uma estratégia de confronto mais direta contra os grupos armados. Para tanto, propõem o fortalecimento da cooperação militar com os Estados Unidos e a promoção de uma versão reformulada do Plano Colômbia, que, durante as primeiras décadas do século XXI, serviu como principal estrutura para a cooperação em segurança entre Bogotá e Washington.

Cepeda e a consolidação da esquerda colombiana

Iván Cepeda — filho do líder comunista e senador da União Patriótica Manuel Cepeda, assassinado em 1994 durante a campanha de extermínio contra esse movimento político — contava com o apoio de Petro. No entanto, os resultados do primeiro turno mostraram que a consolidação da esquerda como força política vai muito além da figura do presidente. Já nas eleições legislativas de março de 2026, o bloco progressista havia se tornado a principal força no Congresso e agora obteve 40% dos votos.

Cepeda é uma das figuras mais reconhecidas da esquerda colombiana. Nas últimas décadas, desempenhou um papel de destaque em diversas negociações com grupos armados, incluindo o processo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), agora desmobilizadas, e os diálogos subsequentes com o Exército de Libertação Nacional (ELN). Também ganhou notoriedade por sua participação no processo judicial que levou à condenação inicial de Álvaro Uribe por obstrução da justiça em um caso relacionado a seus supostos vínculos com grupos paramilitares.

Em termos de políticas públicas, Cepeda propõe aprofundar o curso reformista iniciado durante o governo Petro. Sob o governo atual, foi implementada a reforma agrária mais ambiciosa das últimas décadas, incluindo a distribuição de uma quantidade sem precedentes de terras e a formalização de títulos de propriedade para comunidades camponesas, afro-colombianas e indígenas. O governo também promoveu transformações territoriais, reduziu significativamente os índices de pobreza, aumentou progressivamente o salário mínimo e aprovou reformas trabalhistas e previdenciárias há muito reivindicadas por setores populares. No entanto, apesar de alguns avanços sociais, a Colômbia continua figurando entre os países com os maiores níveis de desigualdade do mundo. O mercado de trabalho permanece caracterizado por altos níveis de informalidade, afetando aproximadamente seis em cada dez trabalhadores, enquanto os níveis de investimento permanecem abaixo do esperado. Ao mesmo tempo, a decisão do governo de suspender a aprovação de novos projetos de exploração de petróleo e gás gerou incerteza em alguns setores empresariais. A emigração de quase um milhão de colombianos nos últimos anos também é interpretada por muitos analistas como um sinal do persistente mal-estar econômico e social que afeta grandes setores da população.

Mas a campanha de Cepeda teve suas próprias falhas, como apontado por diversos analistas. Embora ele se mostre ético e coerente, lhe falta o magnetismo emocional de Petro para se conectar com as massas. Nas palavras de Juanita León, diretora de La Silla Vacía, "Iván Cepeda é muito de esquerda, mas não populista. Não o ouvimos prometer coisas absurdas, ele não divide o mundo em inimigos. Mas o que pode ser uma força para um presidente pode ser uma fraqueza para um candidato."

A isso se somou uma decisão tática possivelmente equivocada: Cepeda optou por não participar de debates e concedeu poucas entrevistas, preferindo fazer turnês regionais com discursos pré-estruturados. Essa estratégia permitiu que ele se protegesse de ataques, mas também limitou sua exposição e sua capacidade de construir sua própria narrativa para além da máquina política de Petro. Carolina Corcho, senadora eleita pelo Pacto Histórico, reconheceu publicamente "erros" na campanha — particularmente na estratégia de mídias sociais —, enquanto a ex-prefeita de Bogotá, Claudia López, posicionada no centro, comentou, ao definir sua posição no segundo turno: "Eu sei que Iván é um homem decente, mas Iván, meu caro, você não pode ser alvo de campanha para sempre. É hora de assumir a liderança da sua própria campanha, mostrar a sua cara, debater e defender suas posições."

Enquanto De la Espriella propõe uma estratégia baseada no confronto militar e no endurecimento da política de segurança, Cepeda sustenta que a violência não pode ser compreendida ou resolvida unicamente pela luta armada. Em sua visão, os conflitos que persistem em grandes regiões do país estão intimamente ligados a profundas desigualdades sociais, à exclusão histórica de vastos setores da população e à negligência do Estado em relação a inúmeras áreas rurais. Portanto, além de manter os esforços de negociação com os grupos armados, Cepeda defende a necessidade de promover reformas estruturais que reduzam a pobreza, fortaleçam o investimento social e ampliem as oportunidades para os setores historicamente marginalizados. Em particular, ele insiste que será impossível consolidar economias camponesas sustentáveis ​​e construir uma paz duradoura enquanto milhões de colombianos continuarem sem acesso a serviços básicos como água potável, eletricidade, infraestrutura rodoviária e conectividade.

Ao mesmo tempo, Cepeda afirma que um novo governo progressista só poderá ter sucesso se mantiver uma relação próxima com os movimentos sociais e organizações de base que impulsionaram o ciclo de mudanças inaugurado em 2022. É nesse contexto que se deve entender sua decisão de escolher Aida Quilcué, ex-senadora indígena da Nasa e uma das principais figuras do Conselho Regional Indígena de Cauca (CRIC), como candidata à vice-presidência. A escolha foi interpretada como um sinal de que o Pacto Histórico não está disposto a moderar substancialmente sua plataforma ou se distanciar de sua base social para ampliar seu apelo eleitoral. Com essa fórmula, a coalizão progressista busca projetar para a presidência líderes que emergiram de lutas sociais e territoriais, especialmente de setores historicamente marginalizados do poder estatal. Quilcué nasceu em uma reserva indígena no departamento de Cauca e dedicou grande parte de sua carreira política à defesa dos direitos indígenas, à proteção de territórios ancestrais e à elaboração de propostas de paz a partir das próprias comunidades.

Duas visões opostas

Para além das divergências em questões econômicas, sociais e de segurança, o segundo turno das eleições presidenciais também definirá os rumos da política externa colombiana. Uma vitória de Abelardo de la Espriella significaria o retorno à estreita aliança com Washington que caracterizou a política externa da Colômbia durante grande parte das últimas décadas.

Herdeiro político do Uribismo e próximo aos setores conservadores e oligárquicos que apoiam Donald Trump, De la Espriella deixou claro que buscaria reconstruir a relação privilegiada com os Estados Unidos, que por anos constituiu um dos pilares estratégicos do Estado colombiano. Na esfera econômica, um governo De la Espriella provavelmente encerraria os esforços para acelerar a transição energética defendida pela Petro e promoveria maior abertura ao investimento privado nos setores extrativos. Essa estratégia alinha-se aos interesses de grandes corporações transnacionais, particularmente as americanas, envolvidas na exploração de hidrocarbonetos e recursos minerais. Ao mesmo tempo, contribuiria para reforçar o alinhamento tradicional da Colômbia com Washington em um contexto de crescente competição geoeconômica entre os Estados Unidos e a China por influência na América Latina.

Por outro lado, uma vitória de Iván Cepeda significaria a continuidade das políticas iniciadas pelo governo Petro. Embora os Estados Unidos continuassem sendo o principal parceiro comercial da Colômbia, um governo Cepeda buscaria preservar maior autonomia na política externa, aprofundando uma estratégia de diversificação de alianças internacionais e fortalecendo as relações com atores como a China, a União Europeia e outros países do Sul Global. O objetivo seria ampliar a margem de manobra do Estado colombiano diante das estruturas tradicionais de dependência que têm caracterizado seu engajamento internacional.

A questão da segurança tornou-se simultaneamente um dos temas centrais da disputa eleitoral. O assassinato do candidato presidencial Miguel Uribe, em junho de 2025, evocou os episódios mais sombrios da história recente do país e evidenciou a deterioração da ordem pública. Desde então, a Colômbia tem vivenciado uma nova escalada de violência. Os últimos meses foram marcados por atentados a bomba, sequestros e ataques armados que deixaram dezenas de mortos e feridos. Apesar do acordo de paz assinado com as FARC em 2016, grandes regiões do país continuam sendo afetadas por confrontos entre as Forças Armadas, dissidentes das FARC, o grupo guerrilheiro ELN, grupos paramilitares como as Autodefesas Gaitanistas da Colômbia (AGC) e organizações ligadas ao narcotráfico. Em grandes áreas do país, a desmobilização das FARC não se traduziu em paz duradoura.

O último relatório da ONU sobre o Acordo de Paz alerta para os obstáculos persistentes que grandes setores da população enfrentam para exercer seus direitos políticos: em regiões como Catatumbo, Cauca e Guaviare, os deslocamentos forçados e os confrontos entre grupos armados ilegais continuam. Só neste ano, centenas de pessoas perderam a vida e centenas de milhares foram forçadas a fugir de suas casas. É nesse contexto de deterioração da segurança que o resultado da eleição de 21 de junho será em grande parte decidido. Em um vídeo divulgado durante a campanha, De la Espriella prometeu, em seu estilo característico, "caçar esses vermes".

O que está em jogo?

O segundo turno das eleições presidenciais representa um momento decisivo para a Colômbia. Quatro anos após a chegada de Gustavo Petro à presidência, a esquerda demonstrou sua capacidade de se tornar uma força eleitoral competitiva e de disputar com sucesso o poder estatal. No entanto, a experiência do governo Petro revelou a capacidade das elites econômicas, políticas e midiáticas de limitar o alcance das reformas por meio de bloqueios institucionais, confrontos judiciais e campanhas de difamação contínuas. Uma possível vitória de Cepeda abriria a possibilidade de aprofundar as transformações iniciadas em 2022, mas provavelmente também intensificaria a resistência dos setores que percebem essas reformas como uma ameaça aos seus interesses de longa data. Por outro lado, uma vitória de De la Espriella significaria o retorno ao poder dos setores que dominaram a política colombiana durante grande parte das últimas décadas. Isso implicaria uma reconfiguração do bloco conservador, composto por grandes grupos econômicos, elites latifundiárias, setores do uribismo e atores ligados às estruturas de poder tradicionais.

O que está em jogo em 21 de junho é se o ciclo político iniciado com a chegada de Petro ao governo conseguirá consolidar e corroer gradualmente a influência das elites oligárquicas que historicamente controlaram o Estado, ou se essas elites conseguirão se reorganizar e recuperar totalmente o poder político por meio de uma nova expressão eleitoral da direita.

O cenário para 21 de junho é incerto: as pesquisas erraram no primeiro turno, quando praticamente todas colocaram Cepeda em primeiro lugar. De la Espriella chega ao segundo turno com três vantagens estruturais: o impulso da sua vitória, o apoio formal de Paloma Valencia — que por sua vez conta com o apoio de Álvaro Uribe e da direção do Centro Democrático — e o voto anti-Cepeda.

Cepeda precisa mobilizar os setores de esquerda que se abstiveram no primeiro turno, dada a perspectiva concreta de um governo De la Espriella. O resultado dependerá em grande parte de qual dessas duas tendências — a consolidação de um voto de direita unificado ou a mobilização do eleitorado progressista — prevalecerá em 21 de junho.

Embora Cepeda enfrente uma campanha muito mais difícil do que qualquer um previa, ele ainda tem uma chance real de vencer. A alta participação no primeiro turno não esgotou completamente o potencial de mobilização do campo progressista, e uma campanha focada nos riscos de um retorno da direita ao poder poderia ajudar a diminuir a diferença. Para alcançar esse objetivo, Cepeda precisa transformar o segundo turno em uma disputa claramente polarizada entre aprofundar as transformações iniciadas sob Petro e restaurar as forças políticas, econômicas e sociais que desempenharam um papel central na perpetuação das profundas desigualdades e ciclos de violência que tanto marcaram a história do país.

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