29 Mai 2026
“Ao contrário da narrativa que apresenta a fome no Sudão como uma consequência natural da guerra, este artigo mostra que a fome é usada como arma de guerra pelas milícias FSR (Forças de Apoio Rápido). A fome também é produto de um sistema de predação neocolonial em benefício dos Emirados Árabes Unidos. A autonomia alimentar torna-se, assim, uma questão de resistência e emancipação descolonial”. A reflexão é da Equipe do Sudfa Media – Petit média franco-soudanaise, onde foi originalmente publicado, e reproduzida por Alencontre, 27-05-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Sempre que se aborda a situação humanitária no Sudão, a fome é sistematicamente mencionada: a ONU estima que 20 milhões de pessoas, ou mais de 40% da população, sofrem de fome aguda. Quatorze áreas de Darfur do Norte, Darfur do Sul e Cordofão do Sul estão ameaçadas pela fome, enquanto cerca de 135 mil pessoas já sofrem ali níveis extremos de fome.
No entanto, o país é o segundo maior da África, atravessado pelo rio mais longo do mundo e dotado de terras agrícolas férteis cobrindo quase dois terços de seu território. No caso sudanês, a fome não é uma consequência natural nem inevitável da guerra. Ela resulta do uso deliberado da fome como arma de guerra, e até como arma de genocídio. A instrumentalização do abastecimento alimentar como meio de dominação e controle das populações civis é característica dos conflitos coloniais e imperialistas contemporâneos, como se observa hoje no Sudão e em Gaza.
No Sudão, em vez de falar de fome, pode-se falar de “fome imposta” deliberada da população. Primeiro, porque a guerra é conduzida pelas milícias contra as populações agrícolas para se apropriar de suas terras. Soma-se a isso a destruição deliberada das estruturas do Estado e a generalização das economias de guerra, concebidas como um modo de investimento e lucro neoliberal.
Diante dessas violências, as salas de resposta a emergências propõem um modelo de resistência revolucionária baseado na autonomia alimentar.
As terras agrícolas, alvos de ataques sistemáticos
Desde o início da guerra, em abril de 2023, a tomada de controle das terras pelas milícias, o bloqueio das rotas de abastecimento e os deslocamentos forçados de certas comunidades camponesas reduziram drasticamente a produção agrícola. Três temporadas ocorreram com colheitas muito fracas, enquanto a população sudanesa depende da agricultura para satisfazer suas necessidades essenciais.
Em 4 de maio de 2026, uma pesquisa da Al Jazeera por imagens de satélite utilizando o índice de diferença normalizada da vegetação (NDVI) demonstrou que a guerra teve um impacto devastador sobre os maiores projetos agrícolas irrigados do Sudão nos estados de Gezira, Sennar e Cartum. As planícies férteis do centro do Sudão — consideradas o “celeiro” do país — foram devastadas: nas imagens de satélite, os padrões verdes e geométricos que antes caracterizavam o coração agrícola do país deram lugar a uma paisagem árida, de um marrom empoeirado.
Quando a capital do estado de Gezira, Wad Madani, caiu nas mãos das Forças de Apoio Rápido (FSR) em dezembro de 2023, agricultores desesperados inundaram seus próprios canais de irrigação para transformar seus campos em lamaçais a fim de impedir a passagem das picapes armadas das FSR. Após a tomada do estado de Gezira pelas FSR, elas destruíram todo o sistema agrícola da região. Os milicianos desviaram canais de irrigação, inundaram terras agrícolas e utilizaram sacos de colheita como pontes improvisadas para atravessar os canais. Os vestígios desse evento ainda são visíveis hoje e podem ser vistos do céu.
Danos semelhantes foram constatados nas áreas agrícolas de Rahad e Suki, situadas nos estados de Sennar e Gedaref, que cobrem 126 mil hectares (311.350 acres) e 37.800 hectares (93.400 acres). Ao longo de 2024, sob controle das FSR, o estado das plantações deteriorou-se consideravelmente nessas duas regiões.
Mas essa deterioração não tem nada de consequência “natural” da guerra. Um estudo da Universidade de Yale de março de 2026 demonstrou que as FSR atacaram deliberadamente as comunidades agrícolas do entorno da cidade de El Fasher com o objetivo de matar a população local de fome enquanto iniciavam o cerco da cidade. O cerco durou mais de 18 meses, durante os quais milhares de pessoas morreram de fome e falta de cuidados médicos, até a tomada de El Fasher em outubro de 2025.
Esses ataques ao entorno de El Fasher atingiram 41 comunidades agrícolas. Seu objetivo era deslocar à força os agricultores para impedi-los de plantar — dizimando assim as reservas alimentares locais. A política de terra arrasada conduzida pelas FSR após seus ataques visa impedir que os moradores se reinstalem em seus vilarejos, tornando toda a região inabitável. Essas imagens mostram claramente a intenção das FSR: despovoar essas localidades e impedir qualquer capacidade da população de plantar, cultivar e colher alimentos.
Além da destruição das terras agrícolas locais, as FSR impedem as organizações humanitárias de levar ajuda à cidade, como demonstraram inúmeros relatórios. Por fim, desde o início do conflito, os milicianos saquearam sistematicamente os mercados, que são os primeiros espaços urbanos atacados assim que conquistam uma cidade. Todos esses elementos evidenciam o projeto genocida das FSR, que atacam os meios de sobrevivência da população.
O desmantelamento das estruturas do Estado e o surgimento de um “colonialismo agrário”
A guerra não parou a economia, ela a transformou. De um sistema frágil sob um Estado enfraquecido, passou-se para uma economia de guerra estruturada por redes — armas, contrabando, ajuda humanitária e financiamentos externos. Essa mudança insere-se numa lógica neoliberal em que o colapso do Estado deixa o campo livre ao mercado, mesmo quando se alimenta da catástrofe.
A destruição deliberada das instituições, bem como das empresas públicas e privadas, por ataques conduzidos pelas milícias com fins de pilhagem, tornou o aparelho estatal incapaz de responder às necessidades essenciais da população — seja em relação ao acesso à comida, seja aos serviços indispensáveis para sua produção, como eletricidade e água. Noventa por cento dos hospitais estão fechados, enquanto os bancos e o conjunto das instituições públicas ficaram paralisados durante vários anos.
Nas regiões controladas pelas FSR, mesmo nas áreas onde os vilarejos ainda estão de pé, agricultoras e agricultores indicam que a insegurança e os conflitos com criadores nômades tornam o cultivo praticamente impossível. A administração ad hoc implementada pelas FSR em Darfur para proteger a temporada agrícola não consegue resolver esses problemas, e agricultoras e agricultores relataram a Ayin Network que “camelos pertencentes a criadores locais pisotearam seus campos diante dos olhos das forças das FSR que controlam a cidade”. Agricultoras e agricultores que tentam proteger suas plantações são vítimas de agressões, ameaças e saques de suas carroças.
Nessas áreas onde a agricultura, embora fortemente dificultada, ainda é possível, as colheitas não beneficiam as populações locais nem a população sudanesa como um todo. Isso não é por acaso: a fome é produzida e mantida por lógicas econômicas imperialistas e neoliberais.
Os produtos agrícolas (cereais, goma-arábica, amendoim e milho) e o gado, assim como o ouro, são exportados pelas FSR por meio de redes informais para o Chade, a Líbia e os mercados do Golfo. As milícias tomam posse de terras aráveis para se financiar por meio do contrabando de alimentos, especialmente em direção aos Emirados Árabes Unidos.
Essas trocas fazem parte de um “neocolonialismo agrário” que já estava em operação antes mesmo dessa guerra iniciar. O líder das FSR, Hemedti, ele próprio atuava no comércio de gado com a Líbia antes de ingressar nas FSR, o que lhe permitiu expandir essas atividades em escala mais ampla. Nesse contexto, a agricultura deixa de ser um recurso para a sobrevivência dos civis: ela se torna um motor da guerra, que alimenta o conflito e permite que as violências se perpetuem.
Enquanto o Sudão, um país majoritariamente agrícola, é privado de sua autonomia alimentar, acaba mergulhado na “economia da ajuda”. Essa transformação preocupante diante do agravamento da catástrofe humanitária ilustra uma nova fase da espoliação do país pelas potências estrangeiras. A ajuda não é mais apenas uma resposta emergencial; ela se tornou um setor econômico por si só, com seus financiamentos, empregos, contratos, cadeias de abastecimento, relações de poder, indicadores e competição por recursos.
O problema não é a ajuda em si, mas sua evolução para um substituto implícito das opções de produção local e para um mecanismo de gestão da crise em vez de superação dela. Quando a resposta humanitária depende da durabilidade da crise, em vez da saída da crise, então a persistência de situações como a fome e a privação torna-se uma condição objetiva para a continuidade do financiamento e da atividade humanitária.
As organizações humanitárias dos Emirados ilustram da forma mais emblemática esse sistema cínico: os Emirados alimentam a guerra para se apropriar dos recursos sudaneses de um lado, enquanto fornecem ajuda humanitária do outro. Essa ajuda é promovida pelo governo emiradense por meio de uma encenação cuidadosamente orquestrada que esconde os mecanismos de predação. Os sudaneses estão conscientes dessa instrumentalização da ajuda alimentar e a denunciam. Assim, circularam nas redes sociais vídeos de habitantes recusando a ajuda alimentar trazida por organizações humanitárias emiradenses e expressando sua revolta: “Que os Emirados parem de destruir nosso país, em vez de trazer comida!”.
As “salas de resposta a emergências”, um projeto revolucionário de autonomia alimentar
Contra essa lógica de conquista neocolonial, os sudaneses resistem inventando alternativas concretas apesar da total falta de recursos. As organizações de ajuda mútua no Sudão, como as “salas de resposta a emergências” (às vezes também traduzidas como “câmaras de emergência”), por meio do projeto das cozinhas coletivas, representam soluções revolucionárias. Essas iniciativas oriundas da sociedade civil tentam amenizar a crise graças a ferramentas locais e a um esforço popular cotidiano. Elas buscam construir soluções duráveis e estruturais para sair da crise.
Centenas de cozinhas solidárias surgiram desde o início da guerra. Elas alimentam centenas de milhares das pessoas mais vulneráveis, especialmente as famílias deslocadas pelo conflito. Sua organização de base inspira-se no modelo autogestionário dos comitês de resistência criados durante a revolução. As câmaras de emergência de Cartum, por exemplo, contam com até 4 mil voluntários que administram 42 cozinhas comunitárias na capital e nas cidades vizinhas.
Os voluntários ocuparam espaços coletivos abandonados pelos poderes públicos por causa do contexto de guerra (escolas, prédios públicos) para transformá-los em locais de armazenamento de alimentos e cozinhas coletivas. Eles preparam e depois distribuem essas refeições nos bairros mais precários e nos campos de deslocados. Esses grupos se organizam pelas redes sociais, e é também por esse meio que arrecadam fundos, apoiando-se na solidariedade internacional e da diáspora.
As “câmaras de emergência” não se limitam a cozinhar nos centros urbanos, mas trabalham para garantir toda a cadeia de abastecimento alimentar desde as zonas rurais até as cidades. O programa “Segurança alimentar” das câmaras de emergência de Cartum ilustra essa abordagem. Sua prioridade: apoiar os mercados de bairro em cada município para que se tornem pontos de distribuição de proximidade, abastecendo os comércios locais, mais fáceis de proteger dentro dos bairros. As vaquinhas de apoio às câmaras de emergência são usadas para ajudar atacadistas a transportar suas mercadorias.
Esses voluntários também monitoram os postos de controle dos exércitos e milícias ao longo das estradas, a fim de garantir a livre circulação de pessoas e mercadorias. Eles conduzem negociações localizadas com as autoridades para assegurar o acesso aos diferentes bairros.
Por fim, diversos projetos de agricultura urbana também surgiram. Eles buscam instalar uma produção local e favorecer ao máximo os circuitos curtos, permitindo um abastecimento local e evitando o saque de alimentos pelos milicianos.
Esses grupos revolucionários não empregam o termo “fome”, mas preferem falar em “fome imposta”. Essa escolha lhes permite descrever melhor a privação deliberada imposta aos sudaneses. Eles preferem um vocabulário revolucionário para evitar a armadilha dos termos espetaculares do sistema neoliberal — essas palavras que constroem uma população vítima e incapaz de resistir. Ao impor e consolidar uma leitura neoliberal dos acontecimentos, o uso desses termos atenua as percepções e neutraliza a crítica, ao mesmo tempo em que garante a perpetuação das crises — em vez de resolvê-las.
Em contrapartida, as iniciativas de base das “câmaras de emergência” transformam tanto a economia quanto os modos de ação humanitária por meio da solidariedade local, mas também propõem um pensamento radical de autonomia e soberania alimentar, abrindo perspectivas ecológicas e decoloniais.
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