29 Mai 2026
Ouvir, sim, mas não ter voz? Em sua encíclica, o Papa formula um padrão pelo qual a Igreja deve ser avaliada. Para Mario Trifunovic, o Pontífice revela uma tensão nova, porém antiga.
O artigo é de Mario Trifunovic, publicada por katolisch.de, 28-05-2026.
O autor é professor de Teologia Pastoral na Universidade Teológica Franciscana de Sarajevo.
Eis o artigo.
Uma frase da encíclica do Papa Leão XIV sobre IA é particularmente notável. Não a frase de "O Senhor dos Anéis", de Tolkien, mas um parágrafo sobre os processos de tomada de decisão e a responsabilidade compartilhada na Igreja. No ponto 87 da Magnifica Humanitas, o Pontífice escreve: "Especificamente, a participação dos batizados nos processos de tomada de decisão e sua responsabilidade compartilhada na missão se dão por meio de corpos de participação efetiva, e não meramente nominal."
O verdadeiro significado desta declaração reside no seu contraste com a realidade dentro da Igreja. Durante anos, Roma tem enfatizado a distinção entre consulta e tomada de decisão. Particularmente no que diz respeito ao Caminho Sinodal, tem sido repetidamente salientado que os órgãos sinodais devem aconselhar, mas não devem possuir um poder de decisão genuíno. Participação, sim, mas tomada de decisão conjunta, de modo nenhum.
Nesse contexto, a formulação de Leão é notável. Pois, se a participação deve ser "real e não meramente nominal", então não basta apenas ouvir os fiéis e, se necessário, nomear comissões. A responsabilidade compartilhada também precisaria estar mais fortemente presente institucionalmente. E é precisamente isso que ainda falta em grande parte da Igreja.
Entretanto, a frase mencionada aponta para um problema mais profundo, porém já conhecido: a Igreja faz exigências quanto à participação, subsidiariedade e partilha de responsabilidades na sociedade e na política. Mas, dentro da própria Igreja? Ali, esses padrões muitas vezes se aplicam apenas de forma limitada. Consequentemente, surge uma tensão entre a hierarquia e os princípios formulados que deveriam representar uma ordem justa.
A declaração do Papa ainda pode se revelar importante. Embora não resolva a tensão, torna-a visível. Isso fornece uma base para discussão. Se Leão XIV levar suas próprias palavras a sério, a Igreja terá que ser julgada pela sua capacidade de demonstrar que a responsabilidade compartilhada no futuro é mais do que mera retórica sobre participação.
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