29 Mai 2026
"Celebrar o Dia da África, portanto, significa praticar um ato de justiça histórica. Significa reconhecer as feridas produzidas pela escravidão, pelo colonialismo e pelo racismo, mas também superar o olhar paternalista com que o continente tem sido observado com demasiada frequência", escreve Giulio Albanese, missionário comboniano fundador da Agência Misna, em artigo publicado por Avvenire, 27-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Todos os anos, em 25 de maio, celebra-se o Dia da África, uma ocasião que nos convida a recordar um continente extraordinariamente rico em culturas, povos, línguas e histórias ancestrais. Nessa data, em 1963, a Organização da Unidade Africana (OUA), agora União Africana (UA), foi fundada em Adis Abeba, Etiópia, com o objetivo de promover a unidade, a liberdade e a autodeterminação dos povos africanos. É, portanto, um dia que pertence não só à África, mas a toda a comunidade internacional, chamada a reconhecer a contribuição que esse continente ofereceu à história da humanidade.
Por muitos séculos, porém, a África foi retratada através de categorias impostas de fora. A colonização europeia frequentemente a descreveu como uma terra sem história, habitada por povos considerados primitivos e incapazes de produzir civilização, pensamento, cultura e instituições. Essa narrativa alimentou estereótipos racistas e justificou práticas de exploração, dominação e violência.
A imagem da África como realidade passiva ou atrasada foi construída para sustentar um sistema de poder que negava aos povos africanos dignidade e voz. Cabe ressaltar que uma específica mentalidade também se enraizou em ambientes cristãos. Quando o Concílio Vaticano I foi aberto, São Daniel Comboni, como teólogo do Bispo de Verona, monsenhor Luigi di Canossa, escreveu uma emocionada carta aos Padres Conciliares, lamentando a ausência de bispos negros na assembleia conciliar. Com palavras fortes, ele fez uma pergunta que exigia resposta: "Há alguém entre vós que possa ser padre para os negros, uma voz que possa servir de intérprete para os muitos filhos de Cam? Digam, Excelentíssimos Padres..." Em determinados ambiente teológicos da época, circulava, de fato, a teoria que ligava a escravidão dos africanos subsaarianos à chamada "maldição de Cam". Tratava-se de uma interpretação arbitrária, culturalmente deformada e profundamente contrária à mensagem evangélica, que reconhece a mesma dignidade em cada ser humano. Essa interpretação ajudou a reforçar a ideia de uma hierarquia entre os povos, legitimando discriminações e injustiças. Vozes influentes do pensamento africano se manifestaram contra essa visão, especialmente no século XX. Entre elas, destaca-se o historiador burquinense Joseph Ki-Zerbo, que mostrou que a África possui uma história complexa, antiga e fecunda. A África é uma das grandes matrizes da história humana: berço da civilização e espaço gerador de culturas.
Igualmente importante é a contribuição do filósofo congolês Valentin-Yves Mudimbe, que analisou a chamada "biblioteca colonial", ou seja, o conjunto de discursos, imagens e representações produzidos pelo Ocidente sobre a África. O colonialismo não apenas ocupou territórios e explorou recursos; também construiu uma imagem artificial do continente, funcional à dominação. A África foi muitas vezes "inventada" pelo olhar colonial: classificada, simplificada, reduzida a objeto de estudo, em vez de reconhecida como sujeito vivo da história. Essas representações não pertencem apenas ao passado. Ainda hoje, no imaginário ocidental, a África é frequentemente retratada quase exclusivamente por meio de guerras, carestias, emergências humanitárias e migrações. Raramente encontram espaço adequado a criatividade de seus jovens (que constituem a maioria da população), a força de suas comunidades, a riqueza de suas tradições, a vitalidade de suas igrejas e de suas culturas. O continente africano conta com mais de um bilhão e meio de habitantes, e mais de 60% têm menos de 25 anos. Celebrar o Dia da África, portanto, significa praticar um ato de justiça histórica. Significa reconhecer as feridas produzidas pela escravidão, pelo colonialismo e pelo racismo, mas também superar o olhar paternalista com que o continente tem sido observado com demasiada frequência. A África não é apenas uma terra a ser ajudada: é uma terra a ser escutada, respeitada e reconhecida em toda a sua subjetividade. Como escrevia Plínio, o Velho: "Ex Africa semper aliquid novi", "Da África sempre vem algo novo".
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