Solenidade da Santíssima da Trindade – Ano A – O Mistério de Amor que faz a Vida florescer. Reflexão de Ceci Maria Costa Baptista Mariani

29 Mai 2026

"Isso é Trindade: nome de Deus que se revela por meio de uma história de amor. No centro dessa história está o amor eucarístico do Filho que foi enviado pelo Pai para revelar o caminho de mais vida, vida em abundância para toda a criação.

O Princípio e Fundamento da fé na Trindade é, portanto, o reconhecimento da presença de Deus iluminando a vida, ressignificando os acontecimentos, e convocando-nos para viver Ágape – o amor oblativo, gratuito, incondicional – que é força de salvação. E é o Espírito Santo, Deus presente em nós, como Paráclito – advogado, procurador, consolador, assistente – que nos capacita para compreender e participar deste Mistério."

A reflexão é de Ceci Maria Costa Baptista Mariani. Ela é professora e pesquisadora do PPG em Ciências da Religião na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC Campinas) e da Faculdade de Teologia. É bacharel e licenciada em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora de Medianeira. Possui graduação e mestrado em Teologia Dogmática pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora de Assunção. É doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. É membro da SOTER- Sociedade de Teologia e Ciências da Religião e coordenadora do Grupo de Trabalho "Mística e Espiritualidade". 

Leituras do dia

1ª leitura: Ex 34,4b-6.8-9
Salmo responsorial: Dn 3,52.53.54.55.56 (R. 52b)
2ª leitura: 2 Cor 13,11-13
João: Jo 3,16-18

Eis a reflexão.

Hoje celebramos a Festa da Trindade. Quando falamos Trindade, deparamo-nos com a ideia de um grande mistério, impossível de ser compreendido por nossa racionalidade limitada. Logo nos vem à mente a imagem da criança tentando colocar a água do mar num buraquinho de areia – historieta tradicionalmente associada a Santo Agostinho.

Conta-se que certo dia Santo Agostinho, que passava horas indagando sobre a Trindade, viu uma criança pequena tirando com uma colherzinha a água do mar para pôr em uma cova de areia e a questionou. A criança, então, respondeu: “É mais fácil para mim transportar a água do mar para esta cova do que para a tua razão compreender o inescrutável mistério da Santíssima Trindade”. Essa historieta medieval[1], que data do século XIII, ilustra muito bem o desafio que o Mistério da Trindade coloca para a nossa razão.

Visão de Santo Agostinho no retábulo de São Barnabé – 1488 (Foto: Wikimedia Commons/Web Gallery of Art/Sandro Botticelli)

De fato, é mais fácil colocar toda a água do oceano num pequeno buraco na areia do que a inteligência humana compreender os mistérios de Deus contidos nessa verdade de fé! A Igreja levou quatro séculos para chegar a uma fórmula que traduzisse essa verdade revelada com a glorificação de Jesus Cristo, Filho de Deus.

No entanto, antes de ser uma fórmula que resultou de um grande tratamento dogmático empreendido pela Igreja nos primeiros concílios ecumênicos, a Trindade é uma experiência vivida pelos discípulos de Jesus e oferecida a todos e todas pelo Filho, no Espírito. Para refletirmos sobre essa experiência, buscaremos elementos nas artes, pois a arte é uma forma de expressão que nos ajuda a romper com nossos esquemas racionais e, assim sendo, ajuda também a vislumbrar o Mistério.

Uma expressão artística sobre a Trindade pode ser contemplada na obra do artista alemão Sieger Köder (1925-2015). Inspirado na Catedral de Chartres, Köder oferece uma bela imagem de Deus que vem a nós como luz que ilumina nossa condição humana, promove vitalidade e faz a vida florescer.

A Catedral possui símbolos poderosos. Ao entrar pelo portal oeste, encontra-se um labirinto de doze metros de diâmetro incrustrado no piso da nave. O labirinto remete ao mito grego que narra a saga de Teseu, herói que enfrentou o Minotauro, monstro ao qual eram oferecidos sacrifícios humanos. No mito grego, o labirinto é símbolo de nossa condição humana, enquanto seres que se deparam com caminhos emaranhados, andam sem orientação e estão sob o risco de serem devorados. No centro do labirinto de Creta está o Minotauro, representação da morte.

Na Catedral de Chartres, porém o labirinto assume outro significado: simboliza uma jornada espiritual cheia de desafios. Contudo, como sugere a obra do Pe. Köder, essa jornada não tem como destino a morte. No centro do labirinto da Catedral, o peregrino é chamado a encontrar luz.

Como se sabe, um dos elementos notáveis nas catedrais medievais é o vitral. No século XII, sem os recursos da energia elétrica, os vitrais eram os principais meios de recepção da luz. A Catedral de Chartres possui três grandes vitrais em forma de rosácea – três rosetas – por meio das quais a luz penetra em seu interior. Em sua obra “Labirinto e Rosa”, Pe. Köder ressalta a correspondência entre a roseta do portal oeste e o labirinto. Quando o sol vem do ocidente, ao entardecer, a roseta de Chartres brilha. Na pintura, o artista une o labirinto à roseta por meio de um buquê de rosas.

Assim, quando nos colocamos diante do quadro, somos convidados e convidadas a contemplar a vida que floresce no centro do labirinto pela recepção da luz. No centro da vida humana, sugere-nos a obra, iluminada pela luz que vem do alto, não está a morte, mas o amor.

Sieger Köder, Labyrinth und Rose, Chartres, 1988 (Foto: Fotografia realizada por Ceci Maria Costa Baptista Mariani)

Isso é Trindade: nome de Deus que se revela por meio de uma história de amor. No centro dessa história está o amor eucarístico do Filho que foi enviado pelo Pai para revelar o caminho de mais vida, vida em abundância para toda a criação.

O Princípio e Fundamento da fé na Trindade é, portanto, o reconhecimento da presença de Deus iluminando a vida, ressignificando os acontecimentos, e convocando-nos para viver Ágape – o amor oblativo, gratuito, incondicional – que é força de salvação. E é o Espírito Santo, Deus presente em nós, como Paráclito – advogado, procurador, consolador, assistente – que nos capacita para compreender e participar deste Mistério.

O Evangelho de João (Jo 3,16-18), proposto pela liturgia de hoje, fala justamente sobre esse Deus que, por amor ao mundo, enviou o Filho para dar vida ao mundo. Jesus é o “dom” de Deus que veio para salvar e não para condenar o mundo. Ele é luz que revela a verdade do modo de proceder do Pai, o seu jeito de amar o mundo. Quem aceita este dom e na fé, adere a Jesus, diz o evangelho, não é julgado. Mas quem não crê na salvação operada pelo amor de Deus em Jesus, preferindo as trevas à luz, condena a si mesmo (Konings, 2005, p.17).

Neste contexto, destaca-se o modo como no Livro do Êxodo (Ex 34,4b-6.8-9) Moisés ora: exaltando a compaixão e misericórdia de Javé, pede a Ele que venha caminhar com o povo, apesar da culpa e do pecado, apesar da “nossa cabeça dura” (Ex 34, 4b-6.8-9). O Papa Francisco, na Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia (2015), afirma:

Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à espera de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado (MV, 2).

Por nossa fé na Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo –, podemos, também hoje, receber de São Paulo a saudação com a qual conclui a segunda carta aos Coríntios: “alegrai-vos, aperfeiçoai-vos, consolai-vos, aconselhai-vos mutuamente com sabedoria, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco” (2 Cor 13, 11).

[1] Em boa pesquisa sobre essa narrativa, Ruy Afonso da Costa Nunes informa que essa história se inscreve na tradição homilética, no repertório dos exempla, e foi encontrada pela primeira vez em sermão do cisterciense renano Cesário de Heisterbach, composto cerca de 1219-1223, mas sem a referência a Santo Agostinho. A atribuição mais antiga a Santo Agostinho aparece na obra Bonum universal de proprietatibus apum do dominicano brabantino Tomás de Cantipré, terminada em 1263. (NUNES, Santo Agostinho e o menino. Revista da Faculdade de Educação da USP, v.1, n.1, 1975, p.158-159. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/rfe/article/view/33207/35945. Acesso em 20/07/2018.

Referências

FRANCISCO. Misericordiae Vultus: bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/bulls/documents/papa-francesco_bolla_20150411_misericordiae-vultus.html. Acesso em: 27 jul. 2024.

KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: Amor e fidelidade. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

NUNES, Ruy A. da Costa. Santo Agostinho e o menino. Revista da Faculdade de Educação da USP, v. 1, n. 1, 1975, p. 158-159. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/rfe/article/view/33207/35945. Acesso em: 18 maio 2026.

SCHMIDKONZ, Theo. Bilder des Lebens – Bilder des Glaubens: Meditationen. Ostfildern: Schwabenverlag, 2007.

Assista também

Deus Trindade se revela relação, compaixão, misericórdia. Reflexão de Lúcia Weiler, idp.

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