22 Mai 2026
A "lua de mel" entre o governo de Rodrigo Paz Pereira e a Bolívia durou menos de seis meses. O presidente de centro-direita, eleito em outubro, suporta desde o primeiro de maio um cerco de organizações sociais que paralisaram parcialmente La Paz, a capital política do país andino, com demandas que, longe de se aplacarem, foram escalando: passaram de pedir um aumento salarial de 20% a exigir a renúncia do mandatário.
A reportagem é de Santiago Espinoza A., publicada por elDiario.es, 21-05-2026.
A crise política agravou a já deteriorada economia boliviana, que há mais de um ano sobrevive a duras penas diante de uma severa escassez de combustíveis, a falta de dólares no mercado financeiro e uma inflação galopante.
Os protestos são liderados pela Central Obrera Boliviana (COB), a maior organização sindical do país. Respaldada por camponeses e professores, a COB colocou o governo de Paz entre a espada e a parede e instalou um clima de convulsão em que não faltaram excessos de vandalismo contra a população urbana de La Paz, onde se concentram as manifestações. Também na vizinha El Alto, de maioritária população indígena aimará e historicamente combativa.
O governo desestimou as reivindicações da COB de entrada. Alegou falta de liquidez fiscal e protestou contra o que qualificou de tentativa sediciosa para forçar a saída do presidente. A acusação ganhou força nos últimos dias, uma vez que as demandas salariais derivaram em exigir a renúncia do chefe de Estado, a quem o sindicato acusa de governar em aliança com setores empresariais do oriente do país.
Do gasolinazo à "gasolina lixo"
O economista Gonzalo Colque afirma, em um recente texto de análise, que o mandatário "chegou ao poder nos ombros do setor popular", ao qual, uma vez instalado no cargo, "virou as costas". Primeiro, sustenta o pesquisador da ONG Fundación Tierra, se distanciou do vice-presidente Edmand Lara, um ex-policial muito seguido nas redes a quem muitos atribuem boa parte do sucesso eleitoral. Lara fustigou abertamente a Paz por compor um gabinete de ministros próximos ao milionário empresário Samuel Doria Medina, que o apoiou no segundo turno eleitoral.
Depois eliminou o imposto sobre as grandes fortunas e, antes de terminar o ano, retirou por decreto a subvenção aos combustíveis que vigorava desde os primeiros anos do século. Na prática, a decisão significou um aumento de 86% no preço da gasolina e de 163% para o diesel. A maior parte da população aceitou o corte em troca de um compromisso de manter o abastecimento, deficiente desde 2024.
O decreto incluía, no entanto, disposições que abriam a porta à simplificação burocrática, social e ambiental para os investimentos estrangeiros. Isso mobilizou a COB que, após jornadas de greve e manifestações em La Paz, dobrou o braço de Paz e o obrigou a anulá-las.
Outro escândalo continuou enrarecendo o ambiente: suprimentos de gasolina de má qualidade provocaram danos em grande parte da frota de veículos. O descontentamento pela "gasolina lixo" derrubou o ministro do setor e forçou o governo a anunciar compensações econômicas.
Com esse pano de fundo, o presidente promulgou em abril uma lei, a Lei 1720, que previa — para acessar créditos bancários — a conversão de pequenas propriedades de terra em médias, colocando em risco o controle de camponeses e indígenas sobre os pequenos lotes de terra com os quais sobrevivem no dia a dia. Os potencialmente afetados iniciaram uma marcha pacífica desde o norte do país (nas fronteiras com o Brasil e o Peru) até La Paz. A chegada dos mobilizados coincidiu com a greve da COB pelo aumento salarial, o que levou Paz a ceder novamente e revogar a lei.
Da crise econômica à ingobernabilidade
A concatenação de crises colocou Paz em maus lençóis, apesar de suas concessões. As reformas normativas beneficiaram os setores privilegiados do leste do país em detrimento de suas bases eleitorais, e a COB e outros setores radicalizados pedem sua demissão. O presidente tentou somar o apoio das outras forças parlamentares e de prefeitos e governadores, mas não negocia com os líderes do cerco a La Paz, a quem acusa de suposto terrorismo. Nesta segunda-feira, grupos mobilizados enfrentaram com dinamite policiais, atacaram instalações públicas e privadas, e agrediram agentes e cidadãos comuns.
O entrincheiramento dos lados colocou o país numa encruzilhada de resolução imprevisível, diz a socióloga Luciana Jáuregui. A analista observa que o protesto é "uma mobilização multisetorial, que adota uma posição abertamente destituinte, que já não se reduz à satisfação de demandas concretas, mas ao pedido de renúncia do presidente, questionando sua legitimidade e autoridade para governar por meio do controle efetivo do território".
Em resposta, o governo assegura que não pretende negociar com "vândalos" como o líder da COB, Mario Argollo, contra quem vigora uma ordem de captura. "O problema é que nenhum setor tem força suficiente para se impor plenamente: as mobilizações são massivas e radicais, mas não se expandem para outras camadas sociais, enquanto o governo representa unicamente as elites e as classes médias tradicionais e se sustenta por meio de uma administração coercitiva do conflito", analisa Jáuregui.
A pesquisadora não acredita que a crise atual desemboque em uma renúncia imediata de Paz, devido aos freios constitucionais e ao respaldo de setores de classe média e alta que, mesmo sem avalizar plenamente o proceder do governo, reclamam o respeito à escolha democrática e rejeitam o eventual retorno da esquerda pelas mãos de lideranças em declínio como a do ex-presidente Evo Morales, autoconfinado na região do Chapare (Cochabamba). "Em perspectiva, a renúncia de Rodrigo Paz é uma possibilidade, mas não é o cenário imediato; depende da escalada da violência", precisa Jáuregui.
Uma escalada que poderia emergir da fragilidade econômica. Em seu mais recente relatório de perspectivas econômicas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu que a economia boliviana registrará em 2026 um crescimento negativo de -3,3% e uma inflação de 20,7%, percentuais mais adversos do que os herdados da gestão do antecessor na presidência, Luis Arce.
Enquanto os opositores mais frontais — como Evo Morales — insistem em pedir sua demissão e a convocação de eleições antecipadas, há setores mais conservadores que demandam "mão dura" e até a instauração do "estado de sítio" para pacificar o país pela força. Em paralelo, organizam-se manifestações urbanas contra o cerco a La Paz, que despertaram o temor de um eventual enfrentamento civil.
Paz convocou ao diálogo e defendeu a abertura de "corredores humanitários" para facilitar o abastecimento de alimentos, combustíveis e oxigênio hospitalar para La Paz. Após quase uma semana fora do foco público, o presidente ofereceu nesta quarta-feira uma coletiva de imprensa para anunciar um "reordenamento" de seu gabinete e a criação de um conselho social e econômico para atender com mais eficiência as demandas dos setores do ocidente do país que se dizem traídos por sua gestão.
Os anúncios do mandatário deixaram um gosto amargo em muitos atores políticos, empresariais e sociais. Diante dos protestos ainda vigentes em La Paz, Jáuregui adverte que o "governo busca deslocar parcialmente a crise do terreno destituinte para o terreno institucional", numa espécie de "admissão implícita da legitimidade das demandas" e com o objetivo de "recuperar a capacidade de iniciativa e dividir a mobilização".
Repercussão internacional
Enquanto o clima interno não oferece maiores perspectivas de solução além do desgaste dos protestos sociais, a crise boliviana já se tornou um assunto de preocupação regional. O presidente colombiano, Gustavo Petro, desencadeou uma controvérsia diplomática ao insinuar no X que o regime de Paz não estaria sabendo canalizar as demandas da "insurreição popular" boliviana. Em resposta, o governo boliviano expulsou a embaixadora colombiana em La Paz. Em reciprocidade, o executivo de Petro cessou nesta quarta-feira as funções do encarregado da embaixada da Bolívia em Bogotá.
Por sua vez, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, expressou, também pelo X, seu respaldo ao governo de Paz e advertiu: "Não deixaremos que criminosos e narcotraficantes derrubem líderes eleitos democraticamente em nosso hemisfério".
Embora o endosso dos EUA possa lhe dar fôlego no plano internacional, o executivo de Paz ainda não encontrou a fórmula para desinflar a pressão social. E mesmo que consiga fazê-lo nesta conjuntura, está expondo uma debilidade política que, na avaliação de políticos e analistas, pode levar sua administração a um estado de ingobernabilidade crônica diante dos mais de quatro anos que lhe restam para cumprir seu mandato.
Assim o prevê Jáuregui, para quem a resposta de Paz à situação "pode gerar uma descompressão parcial e temporária do conflito, mas não resolve a disputa profunda de distribuição de poder e de orientação da política estatal. De fato, o mais provável é que a demanda de renúncia não desapareça, mas continue funcionando como um horizonte simbólico e mecanismo de pressão ao longo de toda a gestão".
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