15 Mai 2026
O encontro incomum entre o diretor da CIA e o ministro do Interior cubano representa o marco mais importante em dois meses de negociações obscuras, marcadas pelo colapso quase total do país.
A reportagem é de David Marcial Pérez e Carla Gloria Colomé, publicada por El País, 15-05-2026.
Em uma sala de reuniões solene em Havana, o diretor da CIA sentou-se à mesma mesa que o Ministro do Interior cubano e o chefe da inteligência cubana. Uma cena impensável, quase uma heresia por tantas décadas, tornou-se realidade nesta quinta-feira. O encontro, incluindo uma série de fotos divulgadas pela própria agência de inteligência americana, é até agora o maior marco nos dois meses de negociações obscuras em curso entre
Washington e Havana. O encontro simbólico, no qual ambos os lados anunciaram seu compromisso de “abordar seriamente as questões econômicas e de segurança”, ocorre em um momento de extrema fragilidade para o regime de Castro, sufocado como nunca antes pelo embargo energético imposto desde o final de janeiro por Donald Trump.
Um dia antes do Boeing C-40B Clipper, a aeronave estatal, pousar em Havana com uma delegação oficial chefiada por John Ratcliffe, diretor da agência de inteligência, as autoridades cubanas anunciaram uma nova e catastrófica escassez de combustível. “Não temos absolutamente nenhum combustível. Não temos mais reservas”, disse o ministro de Energia e Minas, Vicente de la O Levy, à televisão cubana. No dia do anúncio, quarta-feira, a ilha sofreu apagões que, em algumas áreas, duraram até 22 horas sem energia elétrica, um problema constante nos últimos meses. A grave crise de abastecimento também está causando sérios problemas em serviços básicos, como hospitais e transporte. Os cubanos, cada vez mais à beira de um colapso, estão realizando protestos com manifestações com panelas, ruas bloqueadas por montes de lixo que são incendiados e postos de gasolina fora de serviço sendo atacados com pedras. Em meio ao colapso, o aparato repressivo do regime de Castro é uma das poucas coisas que permanecem de pé.
Desde que Trump mirou em Cuba, logo após o ataque cirúrgico em Caracas para levar o presidente Nicolás Maduro de helicóptero para uma prisão em Nova York, houve uma série de sinais frequentemente contraditórios sobre o futuro da ilha. Ao mesmo tempo em que impôs um severo embargo energético, ele também sinalizou abertura para uma possível via diplomática. Enquanto permitia a chegada, em março, de um petroleiro russo com 100 mil toneladas de petróleo bruto, o que apenas aliviou temporariamente outra grave escassez, ele proferiu bravatas como: "Vamos tomar Cuba quase imediatamente". Cada golpe e ameaça foi seguido por uma espécie de trégua, aderindo ao clássico manual de negociação agressiva do magnata republicano.
Esta semana, tanto o Secretário de Estado Marco Rubio quanto o Presidente Trump emitiram mensagens conciliatórias. Pouco antes, haviam endurecido ainda mais as sanções, impondo penalidades a qualquer pessoa ou entidade não americana que mantenha relações comerciais com a ilha, especialmente nos setores de energia, defesa, segurança e finanças. Como prelúdio à reunião da CIA, o Departamento de Estado divulgou um comunicado oferecendo à ilha US$ 100 milhões em ajuda, que o regime de Castro aceitou nesta quinta-feira, em troca de “reformas significativas no sistema comunista de Cuba”. Nesse contexto de ofertas e penalidades, a mídia americana também noticiou nesta quinta-feira que os Estados Unidos planejam processar o ex-presidente cubano Raúl Castro, que não renunciou completamente ao poder, por acusações relacionadas à queda, em 1996, de um avião pertencente a uma organização humanitária de exilados cubanos em Miami.
As mensagens do regime de Castro também têm sido ambivalentes. Variam de uma atitude colaborativa, com disposição para se sentar à mesa de negociações, aos mantras habituais, como a advertência de que “qualquer agressor externo” que avance sobre a ilha “encontrará uma resistência inexpugnável”. As reações à reunião de quinta-feira foram mornas. O Partido Comunista de Cuba a classificou como “parte dos esforços para enfrentar a situação atual”. Enquanto isso, o Ministério do Interior, que chefia o vasto aparato de espionagem e repressão, falou em “desenvolver a cooperação bilateral”, além de enfatizar seu “confronto e condenação inequívocos ao terrorismo em todas as suas formas e manifestações”. O espectro herdado da Guerra Fria, que posiciona Cuba como um “refúgio para adversários dos Estados Unidos”, segundo a própria declaração da CIA após a reunião, é um dos argumentos que a Casa Branca, pelo menos publicamente, insiste em usar, enquanto se engaja em uma campanha política e militar para recuperar sua influência sobre a região, uma campanha que está dilacerando as estruturas da ordem internacional.
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