14 Mai 2026
Mais de 150 milhões de hectares – pouco menos que a área do Amazonas – queimaram em todo o globo nos primeiros meses de 2026. Com alta probabilidade de um El Niño superintenso, 2º semestre pode ser ainda pior.
A reportagem é de Sarah Steffen, publicada por Deutsche Welle, 13-05-2026.
O mundo pode presenciar um "ano particularmente severo" de incêndios florestais alimentados pelas mudanças climáticas e por uma ocorrência potencialmente forte do fenômeno climático El Niño, após recordes registrados no início de 2026 recorde.
"Este ano, a temporada global de incêndios começou muito rápido", afirmou nesta terça-feira (13/05) Theodore Keeping, pesquisador de clima extremo do Imperial College London, que faz parte da rede de cientistas climáticos World Weather Attribution (WWA).
Os incêndios florestais causaram uma devastação 50% maior do que a média para esta época do ano, e a área queimada por incêndios florestais em todo o mundo é mais de 20% maior do que o recorde anterior estabelecido desde o início do monitoramento em 2012, afirmou Keeping.
Áreas queimadas recordes foram observadas em quase todos os países da África Ocidental e da região do Sahel, no norte do continente.
"No geral, 85 milhões de hectares foram queimados na África este ano, em comparação com o recorde anterior de 69 milhões de hectares", disse o cientista.
Fortes chuvas fornecem mais combustível para incêndios
Durante a última estação de crescimento, essas áreas receberam chuvas sazonais excepcionalmente altas, alimentando o crescimento da grama que, por sua vez, serviu como combustível para os incêndios.
"Além disso, as secas severas e as ondas de calor que vimos nos últimos meses significam que os incêndios têm maior probabilidade de ocorrer em áreas mais exuberantes e geralmente menos propensas a incêndios", acrescentou Keeping.
Essa oscilação entre períodos úmidos e secos, chamada de efeito chicote hidroclimático, está aumentando na África Ocidental.
O outro grande contribuinte para a temporada global de incêndios tem sido a Ásia, com grandes surtos de incêndios florestais na Índia, no Sudeste Asiático e no nordeste da China. Os incêndios florestais asiáticos queimaram até agora quase 40% mais do que no ano recorde anterior.
Os Estados Unidos e a Austrália também registraram áreas queimadas excepcionalmente altas até agora em 2026.
Cientistas preveem "super El Niño" para 2026
Tudo isso acontece antes de um potencial "super El Niño" que deve ocorrer ainda este ano. O fenômeno climático El Niño é a fase quente de um padrão climático natural no Oceano Pacífico e nos ventos alísios que afeta o clima global.
As previsões indicam que há 61% de chance de o El Niño surgir durante o período de maio a julho e permanecer pelo menos até o final do ano, ou até mais.
"A probabilidade de incêndios extremos prejudiciais pode ser a mais alta que vimos na história recente se um El Niño forte se desenvolver", disse Keeping.
Isso é realmente alarmante, principalmente do ponto de vista da saúde, afirma Jemilah Mahmood, médica e diretora executiva do Centro Sunway para Saúde Planetária da Universidade Sunway, na Malásia. "A fumaça dos incêndios florestais não é uma poluição comum", disse a especialista, acrescentando que as partículas finas (PM2,5) provenientes da fumaça dos incêndios podem ser 10 vezes mais prejudiciais à saúde do que as emissões do tráfego.
Um estudo de 2024 da revista médica britânica The Lancet descobriu que 1,5 milhão de mortes por ano estavam ligadas à poluição do ar. O estudo afirmou que o número de mortes deve aumentar nos próximos anos, à medida que as mudanças climáticas levam a incêndios florestais mais frequentes e intensos.
O clima global está mais desequilibrado do que em qualquer outro momento da história observada. As concentrações de gases de efeito estufa, liberadas principalmente pela queima de petróleo, carvão e gás, estão impulsionando o aquecimento da atmosfera e do oceano, e o derretimento do gelo, alertou a Organização Meteorológica Mundial (OMM) em março.
"As mudanças climáticas não vão desaparecer a menos que façamos algo a respeito", disse Mahmood.
El Niño encontra linha de base climática mais quente
"Embora o El Niño possa levar a condições muito extremas ainda este ano, não é motivo para pânico", disse a cofundadora da WWA, Friederike Otto, professora de ciências climáticas do Imperial College London.
O El Niño vem e vai como parte de um ciclo natural, mas agora está acontecendo em uma linha de base cada vez mais quente em um clima que está mudando drasticamente, afirmou a pesquisadora.
As temperaturas da água no Oceano Pacífico equatorial central devem atingir ou ultrapassar 3º C acima da média no segundo semestre deste ano.
"Isso é o El Niño se somando a décadas de aquecimento acumulado. A intensificação é o ponto principal", disse Mahmood.
O último El Niño, em 2023-2024, atingiu seu pico como um dos cinco mais fortes já registrados. O fenômeno atuou como um turbocompressor, potencializando as mudanças climáticas induzidas pelo homem, tornando 2024 o ano mais quente já registrado e levando a ondas de calor e outros eventos climáticos extremos devastadores.
Nos mais de 100 eventos climáticos extremos que os cientistas da WWA estudaram até agora, Otto disse que as mudanças climáticas induzidas pelo homem tiveram uma influência muito maior na probabilidade e intensidade desses eventos.
Ela cita casos como os incêndios florestais extremos na Europa no ano passado, eventos de chuva extrema em todo o mundo ou as secas extremas em curso na Síria e no Irã, onde o El Niño não desempenhou nenhum papel.
Mas o aquecimento global vai piorar enquanto não pararmos de queimar combustíveis fósseis, disse a especialista.
Ondas de calor sem precedentes apesar do La Niña?
A Austrália também registrou ondas de calor recordes e sem precedentes, mesmo com o La Niña, o fenômeno climático que, em teoria, teria um pequeno efeito de resfriamento nos verões australianos. "A mudança climática induzida pelo homem superou o sinal", disse Otto.
Isso ocorre enquanto governos têm recuado silenciosamente de seus compromissos climáticos, alerta Mahmood, com alguns se comportando "como se a crise climática fosse um capítulo isolado".
"A mudança climática é motivo para pânico", acrescentou a professora. Para ela, o ideal seria agir mais rapidamente para reduzir as emissões globais e se adaptar ao aquecimento que já ocorreu.
"Nós sabemos o que fazer a respeito. Temos o conhecimento e a tecnologia para nos afastarmos muito, muito do uso de combustíveis fósseis", disse Otto, se referindo às energias renováveis e às tecnologias de armazenamento.
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