14 Mai 2026
"A política precisa voltar a lidar com a realidade. As novas gerações estão em pior situação do que as anteriores; 60% dos americanos vivem um dia de cada vez, lutando para colocar comida na mesa e pagar pelo plano de saúde. Mesmo assim, os Estados Unidos são sempre vistos como um país rico. Só chamando as coisas pelos seus nomes conseguiremos derrotar Donald Trump." Bernie Sanders, de 84 anos, cativa o público pelo Zoom com a mesma veemência de seus comícios. Senador por Vermont, no Congresso há 35 anos, defensor da luta contra a desigualdade econômica e ícone da esquerda americana, ele concorreu duas vezes às primárias do Partido Democrata, tentando chegar à Casa Branca em 2016 e 2020. As derrotas não diminuíram sua influência. No ano passado, a turnê Fighting Oligarchy, com Alexandria Ocasio-Cortez, mobilizou milhares de pessoas nos Estados Unidos. Agora, os conceitos que galvanizam seus apoiadores se tornaram um panfleto, Contro l'oligarchia, publicado na Itália pela editora Chiarelettere. Ele fez a apresentação no sábado, na Feira do Livro de Turim.
A entrevista é de Anna Lombardi, publicada por La Repubblica, 14-05-2026.
Eis a entrevista.
Quem são os oligarcas americanos?
Aquele 1% da população que possui mais riqueza do que os 93% restantes. Um punhado de bilionários que hoje exerce um poder sem precedentes. Os Elon Musks, os Jeff Bezos, os Mark Zuckerbergs e alguns outros que influenciam a economia e a política, aprofundando a desigualdade e caminhando rumo ao autoritarismo. Trump é um deles e conta com o apoio deles.
No livro, você lista uma longa série de promessas não cumpridas de Trump. Uma delas está faltando por razões temporais: a de que não haveria mais guerras.
Ele é um presidente muito perigoso: com Benjamin Netanyahu, iniciou uma guerra inconstitucional, ilegal e destrutiva, tal como Vladimir Putin fez na Ucrânia. Ele está nos forçando a viver numa espécie de anarquia onde o direito internacional não tem mais importância. Podemos fazer melhor do que isso. Gastando esses bilhões de dólares para fornecer comida e remédios aos necessitados, em vez de nos matarmos uns aos outros.
Trump está na China. O que ele espera das conversas com Xi?
Espero que Pequim use sua influência para pôr fim a esta guerra. Mas também espero que abordem uma questão que me é muito cara: a Inteligência Artificial. Precisamos de regras internacionais para impedir que ela elimine milhões de empregos e que seu desenvolvimento escape ao controle humano, colocando a humanidade como um todo em risco.
Você, um judeu, foi o primeiro senador a usar o termo "genocídio" contra os palestinos.
Israel sempre foi uma sociedade liberal no sentido tradicional. Netanyahu e seu governo racista de direita a transformaram em algo completamente diferente. O Hamas cometeu um ato horrível, matando 1.200 pessoas inocentes e fazendo centenas de reféns. Israel tinha o direito de se defender. Mas o que fez foi desencadear uma guerra total contra os homens, mulheres e crianças de Gaza, violando o direito internacional. Hoje, cada vez mais americanos pedem ao governo que pare de gastar dinheiro matando palestinos. E eu estou trabalhando para fazer exatamente isso.
Trump também está tentando usar a religião a seu favor, chegando a atacar o Papa.
Admiro o Papa Leão XIV. Aprecio sua reafirmação de que os migrantes devem ser tratados com dignidade e respeito. E gosto da maneira como ele se manifesta contra aqueles que afirmam travar guerras em nome de Deus. Ele respondeu bem a Trump, com um tom condizente com seu papel.
Você escreve que "as inúmeras mentiras de Trump minaram o processo democrático e político americano". Ainda é possível restaurá-lo?
Trump é um demagogo. Em vez de enfrentar as crises que assolam os Estados Unidos, ele tenta se manter no poder através do ódio. E há tantos para odiar que perdemos a conta: imigrantes ilegais, pessoas transgênero, estrangeiros. E depois a China, o Irã, o México, até mesmo o Canadá. Como progressistas, temos o dever de fazer o oposto: unir as pessoas em torno de projetos de solidariedade e empatia pelo próximo.
Na Itália, você se encontrará com Elly Schlein, líder do Partido Democrático.
Fico feliz com isso. Digo-lhe que vocês também, na Itália e na Europa, precisam se concentrar mais nas necessidades da classe trabalhadora. Os resultados das eleições no Reino Unido também sugerem isso: o Partido Trabalhista sofreu uma grande derrota porque ignorou a imensa crise econômica que está sufocando as pessoas. Precisamos começar por aí para vencer.
Uma crítica que você também dirigiu a Kamala Harris.
Eu a respeito; nos conhecemos há muito tempo. Mas é evidente que ela falhou em abordar os problemas dos trabalhadores e as questões que lhes importavam. Trump entendeu isso, capitalizou-se em cima do descontentamento deles e os enganou sobre suas intenções. Ele venceu e, em seguida, traiu a própria classe trabalhadora a quem devia tudo.
Quem vai se candidatar à Casa Branca?
É prematuro falar sobre isso. Espero, no entanto, que seja alguém com a coragem de desafiar os interesses das grandes empresas, interpretando a raiva do povo, a raiva que agora alimenta o consenso da direita trumpista. Alguém capaz de reconhecer a realidade e mobilizar as massas: incluindo os voluntários que vão de porta em porta, convencendo as pessoas pelo boca a boca em vez de anúncios bilionários. Não é impossível. Em Nova York, fizemos isso com Zorhan Mamdani.
Será que você vai apostar em Alexandria Ocasio-Cortez?
Candidatar-se à presidência é uma decisão muito pessoal. Ela terá que tomar essa decisão sozinha; eu não posso e não quero me envolver.
Mas será que os Estados Unidos estão prontos para uma presidente mulher? Porque ainda não demonstraram isso.
A questão é diferente. Seja o candidato à presidência uma mulher, uma pessoa negra ou gay, ele terá que ser capaz de transcender sua identidade e representar verdadeiramente o povo americano. Nós podemos fazer isso.
Uma crítica frequente à esquerda americana é que ela tem se concentrado demais em questões de identidade. Você concorda?
Não, nós, progressistas, acreditamos firmemente que o preconceito em todas as suas formas deve acabar. E os democratas, nas últimas décadas, abriram caminho para os direitos de todos. Mas, na minha opinião, o objetivo agora é focar na crescente desigualdade entre os super-ricos e o resto da população. Nos Estados Unidos, temos um sistema corrupto de financiamento de campanhas. Bilionários gastam milhões para "comprar" eleições. Portanto, devemos combater o preconceito e, ao mesmo tempo, unir as pessoas em torno do sonho de criar uma sociedade que atenda às necessidades dos trabalhadores.
Muitos temem que não haverá eleições livres em novembro...
Trump certamente está tentando minar a democracia através do que chamamos de gerrymandering: a manipulação dos distritos eleitorais para favorecer candidatos republicanos, dificultando o voto de pessoas pobres, com deficiência e negras. Mas as eleições acontecerão. E se formos inteligentes, se conseguirmos expor suas manipulações, podemos ganhar não apenas a Câmara, mas talvez até mesmo o Senado.
Em seu livro, você observa que, na América, assim como na Europa, a mídia está cada vez mais nas mãos de poucos privilegiados. Por que é importante expor essa situação?
Trump frequentemente acusa jornalistas de "notícias falsas". Mentiras. Mas, pela minha experiência, jornalistas raramente mentem. Agora, porém, a mídia está cada vez mais nas mãos de pessoas muito ricas. Elon Musk é dono da X. Mark Zuckerberg tem a Meta. Jeff Bezos é dono do Washington Post. Larry Ellison comprou a CBS. O perigo reside no que eles escolhem enfatizar e no que escolhem ignorar. Eles agora decidem qual será a principal notícia do dia. E nunca será a desigualdade de renda e riqueza. É aqui que devemos intervir na política, voltando a falar sobre a vida das pessoas.
O livro é dedicado aos seus netos e a todos os jovens do mundo. Que tipo de mundo estamos deixando para eles?
Com toda a tecnologia à nossa disposição, deveríamos ser capazes de deixar para eles uma democracia justa, onde a voz de todos seja ouvida, e um planeta saudável e limpo. E isso só pode ser alcançado através da união. Sei que as pessoas perderam a fé na política e dizem: "Não adianta votar, nada muda". Mas é exatamente para isso que nós, progressistas, estamos trabalhando. Queremos reconstruir o Partido Democrata, ajudando a moldar uma nova classe política. Com a nossa organização, apoiamos pessoas que têm paixão e argumentos para se candidatar: mulheres, negros, jovens. Porque incluí-los no sistema político significa representar de forma mais eficaz as muitas facetas da realidade americana. Para aqueles que perderam a esperança e estão pessimistas em relação ao futuro, eu digo: arregaçem as mangas. Não há transformação sem comprometimento. Envolvam-se.
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