Calor extremo coloca em risco alimento e renda de 1,2 bilhão de pessoas

Foto: Quang Nguyen Vinh | Pexels

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08 Mai 2026

Relatório da ONU mostra perdas em lavouras, estresse térmico em animais e aumento de riscos para trabalhadores rurais.

A informação é de Priscila Pacheco, publicada por Observatório do Clima, 07-05-2026. 

Na primavera de 2025, o Quirguistão e outros países da Ásia Central enfrentaram uma explosão no número de gafanhotos. Com condições ótimas para reprodução, devido ao aumento anormal da temperatura e da seca, as populações do inseto cresceram em número e em área atacada, e encontraram nas lavouras da região o banquete perfeito. A produção caiu, o problema escalonou. E não foi só nessa parte do globo. Relatório produzido pela ONU mostra que as mudanças climáticas têm provocado perdas significativas na produtividade e já representam risco para segurança alimentar global e para os meios de subsistência de mais de 1,2 bilhão de pessoas ao redor do globo.

O trabalho, produzido em conjunto pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), compila as principais evidências científicas e estudos de caso sobre o impacto das mudanças climáticas na agricultura e as consequências do fenômeno. Ele mostra, por exemplo, que os rendimentos de plantações de alimentos básicos como milho e trigo caíram 7,5% e 6%, respectivamente, a cada aumento de 1°C na temperatura.

Além disso, em cenários de altas emissões, quase metade do rebanho mundial poderá estar exposta a níveis perigosos de calor até 2100, com perdas anuais próximas de 40 bilhões de dólares. Nos sistemas aquáticos, ondas de calor marinhas já causaram eventos recorrentes de mortalidade em massa e estão forçando populações de peixes a migrar em busca de águas mais frias. Animais de água doce também vêm sendo atingidos pelo aquecimento.

Árvores frutíferas, culturas de nozes e florestas também estão sujeitas a perdas de produção e ao aumento do risco de incêndios florestais mais frequentes e intensos. Isso sem falar da proliferação de pragas e doenças em plantações, como foi o caso do Quirguistão.

Em conjunto, essas perdas criam um ciclo de retroalimentação perigoso, diz o trabalho: quedas na produção podem levar à expansão agrícola para compensar, aumentando as emissões de gases de efeito estufa que, por sua vez, intensificam ainda mais as mudanças climáticas.

“Este estudo destaca como o calor extremo é um importante fator de multiplicação de riscos, exercendo uma pressão crescente sobre as colheitas, o gado, a pesca e as florestas, bem como sobre as comunidades e economias que dependem delas”, disse QU Dongyu, diretor-geral da FAO.

Impactos internos

O Brasil aparece no relatório como um estudo de caso. Ao analisar os impactos das ondas de calor que atingiram o país em 2023 e 2024, FAO e OMM observaram morte de flores e redução no número de vagens no amendoim, aumento de pragas e doenças em culturas como milho, batata, soja, cana-de-açúcar e feijão, e outros impactos em plantações perenes de café arábica, azeitona, caju e ipê.

O setor pecuário brasileiro também sofreu abalos. Os suínos, um dos animais mais sensíveis ao calor, enfrentaram estresse térmico severo em grande parte do país ao longo de 2023 e 2024. No Centro-Oeste, os rebanhos passaram por esse tipo de estresse por 20 dias ou mais a cada mês durante boa parte do período analisado.

O gado leiteiro também registrou impactos significativos na saúde e na produtividade, especialmente no Sudeste, onde se concentra cerca de um terço da produção nacional de leite. Períodos prolongados de exposição ao calor extremo em ambas as espécies podem causar danos fisiológicos duradouros e gerar descendentes com desempenho reduzido. “O período de 2023-2024 no Brasil serve como um exemplo marcante da amplitude e da severidade dos impactos desencadeados pelo calor extremo”, afirma o relatório.

Trabalhadores rurais ao redor do globo

O relatório reúne também mais de uma dezena de estudos que apontam os efeitos do calor extremo na saúde e na produtividade de trabalhadores do setor agrícola. Uma análise realizada nos Estados Unidos constatou que esses trabalhadores têm 35 vezes mais probabilidade de morrer por exposição ao calor ocupacional do que profissionais de outras áreas. Já um relatório de 2025 publicado pela OMM e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) indicou que a produtividade cai de 2% a 3% para cada grau adicional acima de 20 °C.

Há evidências de que a exposição ao calor afeta principalmente trabalhadores agrícolas em países de baixa renda. Migrantes, refugiados, gestantes e crianças estão entre os grupos mais vulneráveis ao estresse térmico. Segundo o relatório, isso ocorre, sobretudo, devido à falta de autonomia e ao desequilíbrio de poder entre trabalhadores e supervisores, o que limita o acesso a água, pausas, instalações sanitárias e sombra. O documento não detalha a questão da exploração infantil.

As mulheres são destacadas como especialmente afetadas. De acordo com a análise, muitas trabalhadoras agrícolas recebem por produção, o que as leva a evitar pausas para ir ao banheiro, reduzir a ingestão de água e adiar a micção, aumentando o risco de doenças renais.

O calor extremo também pode afetar a saúde mental. O relatório cita uma análise de 2025 que avaliou 1,2 bilhão de postagens em redes sociais de 157 países. Os pesquisadores observaram que temperaturas acima de 35 °C tornam a percepção das pessoas 25% mais negativa em países de baixa renda e 8% mais negativa em países mais ricos.

Outro ponto de destaque é uma revisão que mostra que trabalhadores ao ar livre em regiões tropicais e subtropicais, em diversas partes do mundo, muitas vezes não têm conhecimento sobre estratégias de adaptação e intervenções para prevenir e aumentar a resiliência ao estresse térmico.

Adaptação precisa ser feita com mitigação avançada

A FAO e a OMM destacam que lidar de forma duradoura com o calor extremo exige uma abordagem baseada em adaptação proativa, governança integrada e mitigação ambiciosa das mudanças climáticas.

Um dos pontos ressaltados no relatório é o alerta do Painel Intergovernamental (IPCC) sobre Mudanças Climáticas de que muitos sistemas estão se aproximando ou já ultrapassaram seus limites adaptativos. Por isso, reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa é essencial.

“Ações de adaptação e redução de riscos são urgentemente necessárias e continuarão sendo no futuro previsível. No entanto, as ações de mitigação também devem ser intensificadas para desacelerar e, eventualmente, reverter o aumento persistente das temperaturas globais e a maior ocorrência e gravidade de eventos climáticos extremos”, diz o relatório.

O documento também aponta que algumas práticas de adaptação podem contribuir diretamente para a mitigação das mudanças climáticas, como: melhorar a alimentação do gado para reduzir o calor metabólico e as emissões de metano; reduzir o revolvimento do solo e adotar práticas de conservação de água e solo, diminuindo o uso de insumos sintéticos e aumentando o sequestro de carbono; e reduzir o uso de combustíveis fósseis na aquicultura, substituindo-os por fontes de energia renováveis para manter a qualidade da água.

As ações de adaptação devem envolver compensações, além da identificação e do gerenciamento de novas vulnerabilidades. A introdução da irrigação, por exemplo, pode reduzir o estresse hídrico durante ondas de calor, mas também traz riscos como o esgotamento de aquíferos e a salinização do solo. A adoção de espécies mais resistentes ao calor pode diminuir a diversidade genética, aumentando a vulnerabilidade a perdas em larga escala. Já a migração de plantações para novas áreas, como regiões de maior altitude, pode intensificar o desmatamento.

“Uma política de adaptação eficaz requer um planejamento integrado e bem fundamentado, que reconheça e mitigue possíveis consequências negativas nos âmbitos ambiental, social e econômico”, conclui o relatório.

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