Entre as ruínas industriais de uma modernidade exausta e os ecos melancólicos de uma cultura que perdeu a capacidade de imaginar o futuro, emerge o pensamento de Mark Fisher como uma cartografia filosófica das patologias do presente. Em seus escritos, em específico no ensaio Ricochete niilista: Joy Division, publicado na edição 392 dos Cadernos IHU Ideias com tradução de Bráulio Rodrigues, Fisher diagnostica um tempo histórico em que o capitalismo deixou de operar apenas como sistema econômico para converter-se em atmosfera ontológica, em condição totalizante da experiência. Já não se trata apenas de exploração material, mas de uma colonização da própria sensibilidade: o horizonte do possível foi confiscado, e o imaginário contemporâneo parece condenado a girar em torno de si mesmo, repetindo incessantemente os destroços de promessas fracassadas. O presente transforma-se, então, em um labirinto sem saída, um corredor infinito de espelhos onde o futuro surge apenas como simulacro, eco distante de algo que morreu antes mesmo de nascer. Nesse cenário de esgotamento afetivo e clausura existencial, a música do Joy Division aparece não apenas como expressão estética de uma época, mas como sintoma privilegiado de uma civilização atravessada pelo vazio, pela estagnação e pela lenta erosão do sentido.
Há, nesse universo, uma afinidade profunda com a tradição filosófica e literária do niilismo que atravessa os escritos de Friedrich Nietzsche e Fiódor Dostoiévski. Contudo, se em Nietzsche o niilismo ainda preservava uma potência ambígua — aquela da destruição dos antigos valores e possibilidade trágica de criação de novos modos de vida — e se em Dostoiévski ele surgia como tormento metafísico vivido no interior dilacerado de personagens à beira do colapso espiritual, em Fisher o niilismo assume uma forma mais difusa e inquietante: torna-se ambiente, normalidade, administração cotidiana do desespero. O vazio já não irrompe como crise; ele se sedimenta como hábito. Não há mais a vertigem escandalosa diante da morte de Deus, tampouco a esperança de transvaloração. O que resta é uma melancolia sem objeto, uma depressão socialmente funcional, uma humanidade anestesiada que continua a mover-se mecanicamente pelos corredores de um mundo sem transcendência e sem exterior. É nesse ponto que a paisagem cinzenta de Manchester, a voz grave e espectral de Ian Curtis e a crítica cultural de Fisher convergem numa mesma tonalidade gótica: a percepção de que o século XXI talvez não tenha produzido uma nova utopia, mas apenas formas cada vez mais sofisticadas de administrar os fantasmas que herdou.
A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
Há algo de espectral no pensamento de Mark Fisher: uma atmosfera em que o mundo não termina, apenas se repete, como um eco que não encontra mais origem. No texto Ricochete niilista: Joy Division, publicado na edição 392 dos Cadernos IHU Ideias, com tradução de Bráulio Rodrigues, atravessado pelo conceito de "realismo capitalista", Fisher descreve uma condição histórica na qual o capitalismo deixou de ser apenas um sistema entre outros para tornar-se o próprio horizonte do pensável. Não se trata apenas de dominação econômica, mas de uma captura da imaginação: tornou-se mais fácil conceber o colapso total do mundo do que o fim desse sistema. O presente, assim, endurece-se como uma noite interminável, um tempo sem exterior, sem ruptura, sem aurora. Um tempo sem sentido. Um mundo sem sentido.
Essa condição não opera apenas nas estruturas macropolíticas: ela infiltra-se na vida psíquica. Fisher observa como o sofrimento contemporâneo — expresso em patologias como depressão, ansiedade e exaustão — é frequentemente privatizado, tratado como falha individual, enquanto suas causas estruturais permanecem intactas. O sujeito, isolado, é convocado a se adaptar ao insuportável. Há aqui uma forma peculiar de assombração: não a do passado que retorna, mas a de futuros que nunca chegaram, que morrem antes do alvorecer. Uma cultura "hauntológica", onde tudo parece já ter sido vivido, reciclado, neutralizado. Aqueles quatro rapazes que perambulavam pelos subúrbios de Manchester e que integraram a lendária banda de pós-punk com um pé no gótico, o Joy Division, eram a personificação de um mundo que se esfacelava, enquanto um outro, novo, ainda não havia surgido dos seus escombros.
"O que impressionava e perturbava no Joy Division era a natureza fixada na negatividade. 'Inabalável' não era a palavra. Sim, Lou Reed, Iggy, Morrison e Jagger haviam flertado com o niilismo — mas, mesmo com Iggy e Reed, isso fora atenuado por algum momento bizarro de exultação, ou, pelo menos, havia alguma explicação para a sua miséria (frustração sexual, drogas)", escreve Fisher. Entretanto, havia diferenças marcantes em relação a outros grupos musicais: "O que separava o Joy Division de qualquer um de seus predecessores, mesmo os mais sombrios, era a falta de todo e qualquer aparente 'objeto-causa' para sua melancolia (foi isso que a tornou melancholia em vez de apenas melancholy — esta última sempre tendo sido um deleite aceitável e sutilmente sublime para os homens desfrutarem)".
Nas palavras de Fisher, "o Joy Division sempre soou como se tivesse experimentado um desses esvaziamentos desoladores vezes demais, de modo que não podiam mais ser atraídos de volta para o carrossel." Arrancada a máscara da realidade, era impossível recolocá-la e fingir que nada havia acontecido, ou que nada havia sido descoberto. Fitar os olhos do Nada cobra um preço alto, já o sabemos desde as profundezas dos escritos de Poe, Baudelaire, Nietzsche, Cioran, Schopenhauer.
É nesse ponto que o pensamento de Friedrich Nietzsche emerge como um eco ancestral, mas não menos sombrio. O niilismo, nos escritos do filósofo alemão, é o processo pelo qual os valores supremos perdem sua força, deixando o mundo esvaziado de sentido. Contudo, o niilismo nietzschiano ainda guarda uma ambivalência trágica: ele é, ao mesmo tempo, decadência e possibilidade. A "morte de Deus" abre um abismo, mas também a chance de criar novos valores. Há ainda, no fundo do abismo, um lampejo de criação. Da destruição pode emergir o novo, o estranhamento, os estilhaços de mundos outros, possibilidades de outras formas de vida que não se dobram à hegemonia, à normatividade, à engrenagem descontrolada da utilidade.
Já em Fisher, essa possibilidade parece bloqueada. O niilismo não é mais um momento de transição, mas uma espécie de clausura. O capitalismo, ao absorver todas as alternativas, neutraliza o próprio impulso de superação. O niilismo torna-se administrado, funcional, integrado ao sistema. Inescapável, a clausura do fora — para retomar o título da obra do filósofo húngaro Peter Pál Pelbart — paralisa, emudece, bloqueia, aplasta. Não há transvaloração, apenas adaptação. O deserto cresce, mas ninguém mais acredita ser possível atravessá-lo.
A literatura de Fiódor Dostoiévski, por sua vez, antecipa esse cenário sob a forma de personagens que habitam o limite entre fé e dissolução. Em figuras como Kirillov ou Ivan Karamázov, o niilismo aparece como vertigem existencial: se Deus não existe, tudo é permitido, mas essa liberdade absoluta conduz à angústia, ao delírio, à autodestruição. Em Dostoiévski, o niilismo é vivido como drama interior, uma luta dilacerante entre sentido e vazio. Fisher radicaliza esse drama ao deslocá-lo do interior do indivíduo para a própria estrutura do mundo social. Seus sujeitos já não enfrentam o niilismo como crise: eles o respiram como ar cotidiano. Não há mais o escândalo metafísico de Dostoiévski, nem a promessa trágica de Nietzsche. O que resta é uma espécie de apatia espectral: um niilismo sem intensidade, sem ruptura, sem catarse.
Em meio à bruma úmida daquela cidade operária que, anos mais tarde, entre o final dos anos 1980 e início dos 1990, seria apelidada de "Madchester", os quatro integrantes da banda cujo nome retoma um famigerado evento ligado ao exército nazista juntavam os cacos do presente. É aqui que a tonalidade gótica se impõe. Como nas canções do Joy Division, marcadas pela voz soturna de Ian Curtis, o mundo descrito por Fisher parece suspenso entre presença e ausência, entre vida e esgotamento. Não há explosão, apenas desgaste. Não há grito, apenas reverberação. Se Nietzsche ainda podia anunciar o advento do além-do-homem e Dostoiévski podia dramatizar a luta pela fé em meio ao abismo, Fisher nos coloca diante de algo mais inquietante: um mundo em que o niilismo venceu silenciosamente, não como catástrofe, mas como normalidade, como forma de vida introjetada até o esquecimento. Um mundo onde os fantasmas não assustam mais, porque já aprendemos a viver com eles, ou porque finalmente nos convertemos em seus iguais. Para Fisher, "como o desolamento do Joy Division não possuía uma causa específica, eles cruzaram a linha entre o azul da tristeza e o preto da depressão, atravessando para os 'desertos e terras devastadas' onde nada traz nem alegria nem dor. Afeto zero."
As controvérsias iniciaram com o próprio nome Joy Division (Divisão da Alegria), de origem deliberadamente perturbadora e profundamente ligada à memória sombria do século XX. Ele foi inspirado no romance House of Dolls (1955), do escritor sobrevivente do Holocausto Yehiel De-Nur, que atuou sob o pseudônimo Ka-Tzetnik 135633. Joy Division era o nome dado a unidades de mulheres judias em campos de concentração nazistas, forçadas à escravidão sexual para oficiais alemães durante o Holocausto.
A escolha pela nomenclatura da banda não foi casual, nem ingênua. Surgida em Manchester no fim dos anos 1970, ela buscava provocar, confrontar e explorar temas ligados ao controle, à desumanização e ao colapso psicológico, elementos que também atravessam suas canções. O nome carrega, portanto, uma tensão deliberada: a justaposição brutal entre “alegria” e violência extrema.
No entanto, essa escolha sempre foi controversa. Ao longo do tempo, o grupo precisou lidar com acusações de mau gosto ou exploração de uma tragédia histórica. Seus integrantes afirmaram repetidamente que não havia intenção de glorificar o nazismo, mas sim de evocar o desconforto e a reflexão, algo coerente com a estética sombria e inquietante que marcava suas composições.
Assim, o nome Joy Division funciona quase como um manifesto negativo: um lembrete de que, sob certas condições históricas, até mesmo as palavras mais luminosas podem ser corrompidas, e de que a arte, às vezes, escolhe habitar exatamente esse território incômodo e inominável.
Após o suicídio de Ian Curtis em maio de 1980, a trajetória do Joy Division chegou a um fim abrupto, mas não a um silêncio completo. Os três membros restantes — Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris — decidiram não continuar sob o mesmo nome. Havia um pacto implícito: o Joy Division existia inseparavelmente ligado à presença de Curtis.
Pouco tempo depois, os remanescentes se reorganizaram sob um novo nome: New Order. A mudança não foi apenas nominal, foi também estética. Se o Joy Division habitava uma paisagem sonora densa, sombria e introspectiva, o New Order da então rebatizada "Madchester" passou a explorar uma fusão entre pós-punk, música eletrônica e dance music. Essa transformação foi decisiva para o surgimento de um novo som britânico nos anos 1980. A entrada de Gillian Gilbert (parceira de Morris) consolidou a formação. Com o tempo, New Order alcançou enorme sucesso, especialmente com faixas como Blue Monday, uma das músicas mais influentes da história da música eletrônica, em uma nova cena musical que conotaria um curto-circuito histórico no qual música, cidade e juventude colidiram, produzindo algo ao mesmo tempo vibrante e efêmero, como uma noite longa demais, que inevitavelmente termina ao amanhecer.
Ainda assim, a sombra do Joy Division nunca desapareceu completamente. O passado permaneceu como uma espécie de eco, não apenas pela tragédia, mas pela intensidade artística que a banda havia alcançado em tão pouco tempo. Desse modo, o New Order não foi uma continuação direta, mas uma metamorfose: menos abismo, mais movimento; menos clausura, mais pulsação. Em certo sentido, o que aconteceu depois foi uma transição rara: de um som marcado pela iminência do colapso para outro que, sem negar a melancolia, encontrou formas de fazê-la dançar.
Mark Fisher (1968-2017) foi um escritor, crítico, teórico cultural e pesquisador visitante na Goldsmiths, University of London. Ele escreveu os livros Capitalist Realism: Is There No Alternative? (2009), Ghosts of My Life (2014) e The Weird and the Eerie (2017), entre outros. Inicialmente, ganhou reconhecimento por seu blog k-punk no início dos anos 2000 e por seus escritos sobre política radical, música e cultura popular. Contribuiu para publicações como The Wire, Fact, New Statesman e Sight & Sound. Em 1995, participou da criação do grupo estudantil Cybernetic Culture Research Unit.
Nesta edição, os Cadernos IHU Ideias apresentam "Ricochete niilista: Joy Division", de Mark Fisher, em tradução de Bráulio Rodrigues. O texto retoma a trajetória e a força cultural da banda para pensar sua sonoridade sombria, seu impacto no pós-punk e as imagens de niilismo que atravessam sua obra. A partir dessa leitura, Fisher articula memória, música e crítica cultural para mostrar como a experiência do Joy Division continua reverberando na história do rock e nas formas de imaginar o mal-estar moderno.
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