Em comemoração aos 70 anos da obra, os professores participam de um evento especial desenvolvido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, realizado hoje, 07-05-2026, às 17h30.
Grande Sertão: Veredas completa 70 anos com um ar de modernidade sem igual. Sua contemporaneidade atravessa o tempo a mantendo firme no título de um dos melhores livros do mundo. Ao orquestrar sua poesia guiada por temas como sexualidade, provação e fé, a história do sertão se mantém viva nas discussões em meio ao imaginário coletivo.
No mundo contemporâneo, marcado por incertezas éticas, crises de identidade e deslocamentos simbólicos, a travessia de Riobaldo ecoa como uma metáfora persistente da condição humana. Seu sertão já não é apenas geográfico, mas sim um espaço psicológico e social, onde o bem e o mal se embaralham, na qual as decisões nunca são simples e a busca por respostas e por manter sua fé inabalável permanece urgente.
Riobaldo, narrador e jagunço, é o homem moderno em contradição, sendo um ser dividido, reflexivo e inquieto. Sua dúvida sobre a existência do diabo é menos teológica e mais existencial, um questionamento que hoje em sua singularidade poderia ser traduzido em termos de responsabilidade, culpa e escolha.
Diadorim, por sua vez, surge como uma figura que rompe fronteiras de gênero, afeto e destino. Sua presença amorosa e intensa introduz uma dimensão profundamente contemporânea em seu romance com Riobaldo, antecipando debates sobre identidade e todas as formas de amor.
Segundo a professora e coordenadora pedagógica Márcia Lopes Duarte, "o romance de Guimarães Rosa evidencia alguns dos dilemas éticos/morais que constituem as sociedades ocidentais: o dilema de Aquiles [1], na Ilíada de Homero, que precisa escolher entre uma vida longa e apagada e uma vida curta e representativa, é o dilema de Reinaldo/Diadorim, que escolhe morrer jovem, no auge de sua força, tanto física como simbólica, para não ser relegado ao esquecimento".
Em seu depoimento, o jesuíta prof. José Roque Junges traz a reflexão de que "as descrições e os personagens situam muito bem o sertão que não é tanto um lugar geográfico, mas um contexto existencial, porque o desenrolar das ações e atividades dos jagunços apontam para esse contexto formado de veredas e sendas que é necessário trilhar, que não estão traçadas de antemão, mas que é necessário descobrir e nessa descoberta acontecem os embates e se apresentam os dilemas que é necessário enfrentar. Essa é uma metáfora da vida humana que a modernidade procura negar, porque pensa ter tudo previsto e controlado".
Os professores concederam entrevista por e-mail sobre o romance de Guimarães Rosa para o Instituto Humanitas Unisinos – IHU e hoje, 07-05-2026, participam do nosso evento "70 anos de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa", que será transmitido às 17h30min.
A poesia desta obra transcende o tempo e se faz presente e necessária dentro das universidades, no âmbito das discussões diárias e intelectuais. É com essa proposta de manter o livro nos debates contemporâneos que o Instituto Humanitas Unisinos – IHU tem realizado eventos sobre o tema ao longo dos anos, tendo também desenvolvido matérias e uma revista especial que traz diversas reflexões sobre a obra, revelando a essência da história de forma teológica e filosófica.

Márcia Lopes Duarte (Foto: Arquivo Pessoal)
Márcia Lopes Duarte possui graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992), mestrado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1995) e doutorado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1999). Leciona na Universidade do Vale do Rio dos Sinos e é coordenadora pedagógica em um cursinho popular PRÉ-ENEM.

José Roque Junges (Foto: Susana Rocca | IHU)
José Roque Junges possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1973), especialização em História do Brasil Contemporâneo pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (1978), mestrado em Teologia pela Pontificia Universidad Católica de Chile (1980) e doutorado em Teologia Moral pela Pontificia Università Gregoriana de Roma, Itália (1985). Atualmente é professor das disciplinas de bioética no curso de medicina e professor/pesquisador do PPG em Saúde Coletiva da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS).
IHU – Grande Sertão: Veredas está na lista dos melhores livros do mundo. O que torna esta obra tão renomada?
Márcia Lopes Duarte – A fim de justificar o renome que Grande Sertão: Veredas alcançou mundialmente, podemos apresentar dois dos principais elementos trabalhados de forma inovadora por Guimarães Rosa nesta obra. Em primeiro lugar, é fundamental considerar a linguagem utilizada pelo autor mineiro, uma vez, que além de redesenhar o potencial da linguagem falada nos confins do Brasil, ele também sustenta o fôlego por mais de 500 páginas, ou seja, não se trata apenas de criar uma comunidade linguística, mas de transformar esta comunidade em um universo consolidado e verossímil.
Outro ponto importante que justifica a inserção da obra no cânone ocidental é a temática a partir da qual o autor inclui os dilemas universais num espaço físico que historicamente não comportava estes dilemas, visto que se apresentava como um espaço onde a vida era simplificada por conta das matrizes rígidas de comportamento e atuação. O fato de instituir um narrador como Riobaldo/Tatarana/Urutu Branco, sertanejo jagunço que revê seu percurso de vida com o objetivo de compreender suas questões intrínsecas, dá ao texto de Guimarães Rosa uma dimensão filosófica que não fazia parte do espaço físico do sertão, até então compreendido como um lugar fixo. A partir destes dois aspectos, linguagem e temática, é evidente que GSV é um texto fundante e, portanto, digno de se colocar como um marco da literatura ocidental.
José Roque Junges – Todas as obras literárias de grande renome internacional souberam conjugar uma linguagem situada com uma abordagem antropológica universal, isto é, tratam de uma questão humana que é de todos, mas expressa com linguagem regional. A obra Grande Sertão: Veredas é tipicamente mineira em seu modo de falar e nas tradições que acompanham os personagens, mas o problema humano que esses personagens vivem é universal: viver é perigoso, repete Riobaldo, e aparece no próprio título da obra quando acrescenta "veredas", sendas a serem descobertas quando trilhadas, nada é claro ao entrar na trilha.
Guimarães Rosa queria, por outro lado, resgatar o sertão ao nível da linguagem, porque o sertão não é uma realidade a ser superada pela modernidade, mas preservada por expressar a própria originalidade do Brasil. O sertão não é a desgraça do Brasil como tentou mostrar Euclides da Cunha em sua obra Os sertões, mas a riqueza cultural a ser resgatada na linguagem. Essa foi a intenção de Guimarães Rosa em sua obra Grande Sertão: Veredas. Ele se contrapõe a Euclides da Cunha.
IHU – Qual é a importância de revisitar Grande Sertão: Veredas setenta anos depois de sua publicação?
Márcia Lopes Duarte – Grande Sertão: Veredas é uma obra que se consolidou, desde os primeiros anos, como uma leitura importante para compreender o Brasil (e, talvez, o mundo). Desse modo, é sempre significativa uma nova leitura desta obra que abarque aquilo que aconteceu nestes 70 anos. Assim, reler Grande Sertão hoje nos possibilita reelaborar algumas das questões que foram sendo debatidas ao longo desses anos. O fato de o livro de Guimarães Rosa contemplar uma reflexão sobre a existência humana a partir do ponto de vista de um sertanejo jagunço faz com que o leitor de hoje, já familiarizado às temáticas da fragmentação das identidades, possa entender que esta é uma construção que já vem sendo pensada faz algum tempo.
José Roque Junges – Antes de mais nada, porque Guimarães Rosa representa, ao lado de Machado de Assis, um dos literatos brasileiros de grande renome internacional, pois sua obra Grande Sertão: Veredas, traduzida para várias línguas ocidentais, significou um trabalho ingente e original para os tradutores que fizeram essas traduções, no caso da versão alemã e italiana, em contato com o próprio autor, que contribuiu para sua tradução. As correspondências dos dois tradutores (Meyer-Clason e Bizzarri) com Guimarães Rosa expressam muito bem esse trabalho de ourivesaria entre quatro mãos na tradução, cujas publicações ajudaram a entender melhor o sentido de muitas expressões típicas.
Isso aponta para outro ponto importante da obra de Guimarães Rosa, a alquimia da linguagem ao resgatar o sertão na linguagem. Sabemos que ele acompanhou durante um tempo os vaqueiros que condiziam o seu gado em Minas Gerais para conhecer e investigar a linguagem que eles usam nas suas conversações. Tomava nota de tudo. Introduziu essa língua contextuada em sua obra. A cadência das frases e a lógica do discurso nos diálogos recolhe essa alquimia na linguagem. Mas não só isso, pois, ao ter compreendido muito bem a química que continha essa linguagem, deu-se ao trabalho de criar palavras que expressavam essa alquimia. Elas estão presentes em muitas páginas da obra.
IHU – Qual é a atualidade de Grande Sertão: Veredas hoje?
Márcia Lopes Duarte – O ponto principal, que podemos destacar, para comprovar a atualidade do livro, é o que se refere ao comportamento humano. Riobaldo, o narrador do romance, ao questionar o mundo no qual está inserido, apresenta ao leitor/ouvinte a perspectiva de um jagunço que reflete sobre os principais temas que mobilizam o ser humano. Desse modo, algumas das questões que estão colocadas hoje para a sociedade já estavam claramente delimitadas na obra magistral de Guimarães Rosa. Uma delas diz respeito à sexualidade. A dúvida de Riobaldo com relação ao seu amor por Diadorim (que ele conhece como o menino Reinaldo), que perpassa o livro, é bastante atual, bem como a atuação de Maria Deodorina, que assume o papel masculino, a fim de caracterizar-se como o filho que Joca Ramiro não teve.
José Roque Junges – Guimarães Rosa poderia ser definido como um antirracional por admitir e privilegiar o irracional, o trágico e o intuitivo, mas essa percepção é totalmente equivocada, porque ele defende uma racionalidade diversa, inspirada em Heráclito, Platão e Plotino, centrada na realidade cambiante, totalmente contrária e oposta à racionalidade abstrata, da assim chamada, por ele mesmo, de megera cartesiana, caracterizada pela quadratura que não considera os aspectos qualitativos mutantes, reduzindo e simplificando a realidade, impedindo de captar a sua complexidade. Contra essa racionalidade unívoca, Guimarães Rosa contrapõe a racionalidade cambiante da linguagem, porque, segundo ele, "o que é para ser – são palavras!" (Grande Sertão: Veredas). Assim o referente da racionalidade não é o ser abstrato, mas as palavras concretas.
Guimarães Rosa escrevia ao seu tradutor alemão: "Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada realidade, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o obscuro que o óbvio, que o frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de inevitável verdade. Precisamos também o obscuro".
Portanto, para o autor a linguagem não é puro instrumento semiótico para expressar o real, mas, essencialmente, o meio pragmático onde a realidade obscura se transfigura. Num tempo em que linguagem está sempre formatada pela linguagem matemática dos algoritmos, essa afirmação é central. Os algoritmos nunca conseguirão expressar essa realidade cambiante do trágico e intuitivo.
IHU – O sertão descrito por Guimarães Rosa é um espaço geográfico ou uma metáfora da condição humana?
Márcia Lopes Duarte – O sertão que se constitui na obra é o ponto principal do romance. Representa, ao mesmo tempo, o espaço geográfico que desestrutura a vida dos sertanejos, por conta das dificuldades que representa, e a simbologia da resistência, da resiliência e da força. Dois episódios do livro podem exemplificar esta questão: o primeiro é a passagem do Liso do Sussuarão, na qual, além do lugar ser extremamente inóspito, representado pela planície desértica que embrutece os sentidos, temos a vontade exacerbada de Riobaldo, que precisa provar para si mesmo e para os demais, que conhece os caminhos; o segundo é o pacto realizado (?) nas Veredas-Mortas, espaço mítico e real, no qual se cristaliza a visão do "diabo na rua no meio do redemunho" [2], que é o princípio e o fim de tudo.
José Roque Junges – O sertão não é simplesmente uma região localizada em Minas Gerais, mas um contexto existencial em que a vida é um contínuo desafio não previsível em que é necessário tomar decisões ao calor do momento. O personagem central Riobaldo é a expressão acabada dessa não previsibilidade da vida, pois se depara com situações em que não sabe como agir, conversa com personagens mais insignificantes que o acompanham e reflete interiormente para não ser dominado pelo demo em sua decisão, para saber como deveria agir nesta situação determinada. Vive a tensão entre seguir a velha tradição do jagunço Joca Ramiro, máxima expressão da cultura do sertão, ou a liderança mais moderna de Zé Bebelo que aponta para os novos tempos culturais que se avizinham. Riobaldo vive esta tensão em sua liderança dos jagunços, mas nele se expressa a tensão cultural que o Brasil vivia naquele momento entre o Brasil tradicional, expresso pelo sertão, e o Brasil moderno que se configurava, naquele momento, na construção de Brasília.
IHU – Como Grande Sertão: Veredas continua a dialogar com os dilemas éticos do Brasil contemporâneo?
Márcia Lopes Duarte – O romance de Guimarães Rosa evidencia alguns dos dilemas éticos/morais que constituem as sociedades ocidentais: o dilema de Aquiles [3], na Ilíada de Homero, que precisa escolher entre uma vida longa e apagada e uma vida curta e representativa, é o dilema de Reinaldo/Diadorim, que escolhe morrer jovem, no auge de sua força, tanto física como simbólica, para não ser relegado ao esquecimento.
Entretanto, o grande dilema da obra é o dilema de Riobaldo, o dilema daqueles que precisam escolher entre o pacto, que concede o poder quase absoluto, e a vida pacata, subserviente e intocada. Quando se reverte em Urutu Branco, a cobra mitológica que enfeitiça a todos, Riobaldo/Tatarana assume o peso de ter vendido a alma. Ainda que o narrador reafirme, no fim, sua crença de que "o diabo não há!" [4], Riobaldo sabe que fez o pacto, mesmo que tenha sido com ele mesmo. Sua travessia foi ultrapassar os limites do racional, em nome da crença de que era o único "homem humano" [5] capaz de enfrentar o Hermógenes, também ele um pactário. O preço a pagar foi o sacrifício de seu maior parceiro, Diadorim.
José Roque Junges – Guimarães Rosa, em sua época, foi um crítico ferrenho da modernidade e sua racionalidade correspondente, pois nivela e reduz a riqueza da linguagem, universalizando a sua configuração. Todos passam a falar a mesma língua e usando as mesmas expressões disseminadas pelo processo de globalização dos meios de comunicação da mídia. Guimarães Rosa, ao resgatar a linguagem do sertão, apontou para esse crescente nivelamento da linguagem que esvazia a originalidade da cultura, reduzindo-a à cultura massificada da técnica que ele denominaria a megera técnica. Hoje assiste-se um novo momento desse nivelamento ao reduzir tudo à linguagem matemática dos algoritmos que passam a orientar as decisões humanas que são esvaziadas de sua tragicidade que os dígitos numéricos não conseguem expressar. Os dilemas éticos são reduzidos a dilemas algorítmicos que não conseguem assumir a complexidade das situações humanas cambiantes e sinuosas como veredas. Guimarães Rosa teve a intenção de resgatar a linguagem em sua dimensão simbólica, porque estava preocupado com a mediação dos significados, não dos números.
IHU – Como o livro antecipa discussões contemporâneas sobre identidade e subjetividade?
Márcia Lopes Duarte – O romance escrito pelo escritor mineiro João Guimarães Rosa é, exatamente, um romance sobre (des)identidades. Quem é Riobaldo? Quem é Diadorim? Quem é o Hermógenes? O diabo existe? É na troca constante de personas que se consolida a estrutura da narrativa de Grande Sertão: Veredas. Nesse sentido, o texto é visceralmente atual, pois instaurou, 70 anos atrás, a temática hoje recorrente do câmbio de subjetividades. A liquidez da qual nos fala Bauman já está enraizada no sertão mineiro apresentado por Riobaldo a seu ouvinte/leitor. Tanto do ponto de vista da sexualidade, do encontro amoroso, das relações pessoais, como no que se refere às relações de poder, de comando, hierarquia e subalternidade.
O mundo apresentado na obra é um mundo em que, apesar da rigidez sociopolítico-cultural, as pessoas se modificam constantemente, pois esta é a marca da humanidade, gravada a fogo nos/nas/nes personagens rosianos. Se há uma característica primordial da obra de Guimarães Rosa, presente não apenas no Grande Sertão, é o fato de que o autor mineiro conseguiu demonstrar que toda identidade é construção, é fruto visceral do espaço-tempo no qual o sujeito está inserido e que, portanto, é móvel, é mutável, dependendo de quem/onde e quando nos (re)visitamos.
José Roque Junges – A identidade e a subjetividade do personagem central Riobaldo atravessam toda obra. Ele encontra-se, no desenvolvimento de sua liderança como jagunço, entre a velha tradição do sertão configurada pela moral da honra que obrigava a levar às últimas consequências, mesmo com a morte de quem se atravessava no caminho, para cumprir uma promessa feita, como destino fixado, e a nova cultura moderna da cidade representada pela moral da responsabilidade que delibera sobre a decisão mais adequada levando em consideração as dinâmicas do contexto. Riobaldo encontra-se a todo momento nesse dilema, porque vive entre esses dois mundos, o sertão e a cidade, representados pelos seus dois ídolos, Joca Ramiro e Zé Bebelo.
Outro ponto da identidade subjetiva de Riobaldo é a sua amizade com Diadorim que sempre significou um desafio para sua sexualidade, pois sentia-se atraído por ele, mas, ao mesmo tempo, tinha que reprimir esse sentimento inconcebível para um jagunço. No fim da obra, Diadorim é morto num embate com o assassino de seu pai Joca Ramiro e se descobre que ele não é um homem, mas mulher, só que agora já está morto para total desolação de Riobaldo. Diadorim tinha se travestido de homem jagunço e se aliado a Riobaldo para vingar a morte do seu lendário pai líder jagunço Joca Ramiro. No mundo masculinizado do sertão não havia lugar para uma mulher que tinha que travestir-se de jagunço, esconder a sua feminilidade, para sobreviver e poder vingar o pai. Para se impor Diadorim tinha que ser mais valente e violento que os demais, o que provocava a atração de Riobaldo que se dava conta das feições femininas de seu rosto. Assim a afetividade e a sexualidade de Riobaldo são atravessadas por essa tragédia que o narrador da obra tentará expressar.
IHU – O que mais lhe marcou após a leitura da obra?
Márcia Lopes Duarte – Grande Sertão é uma obra grandiosa e são muitos os impactos causados no leitor. No meu caso, o principal elemento que ficou reverberando após a leitura foi a ambiguidade do narrador. Uma obra narrada em primeira pessoa sempre gera a suspeita de que estejamos sendo enganados por aquele que conta a história, visto que ele nos apresenta o seu ponto de vista. No caso do romance de Guimarães Rosa, esta sensação é ainda mais contundente, pois Riobaldo/Tatarana/Urutu Branco já é, por si só, um narrador multifacetado. Ele se apresenta com as muitas personas que foi construindo ao longo de sua trajetória. Se já é difícil confiar em um narrador que sustenta a mesma unidade ao longo de um texto, mais ainda neste caso, em que o próprio narrador desconfia de si mesmo – "A vida da gente nunca tem termo real" [6] – uma vez que precisou se metamorfizar a fim de garantir sua sobrevivência e a dos demais. Em uma narrativa como esta, intrincada, complexa, longa, o narrador é o fio que sustenta a tênue certeza que podemos construir. E Riobaldo rompe o fio da narrativa diversas vezes, por conta das incertezas que permeiam, de um lado, seus caminhos, de outro, sua construção narrativa.
José Roque Junges – Quando se começa a ler a obra, ela inicia: "Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade". Assim continua nas próximas 20 ou 30 páginas sem entender de que está falando, mas se você for fiel e continuar lendo, sentir-se-á aos poucos enfeitiçado pela cadência dessa linguagem e não conseguirá parar de ler. Isso foi o primeiro que me marcou na leitura da obra.
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O segundo ponto que chama atenção é a ambientação do sertão que o desenvolvimento da linguagem consegue criar. As descrições e os personagens situam muito bem o sertão que não é tanto um lugar geográfico, mas um contexto existencial, porque o desenrolar das ações e atividades dos jagunços apontam para esse contexto formado de veredas e sendas que é necessário trilhar, que não estão traçadas de antemão, mas que é necessário descobrir e nessa descoberta acontecem os embates e se apresentam os dilemas que é necessário enfrentar. Essa é uma metáfora da vida humana que a modernidade procura negar, porque pensa ter tudo previsto e controlado. Não está aberta ao imprevisto e ao novo não controlável. Essa patologia cultural é a origem de muito sofrimento mental na atualidade.
[1] Aquiles, herói grego cujo dilema perpassa a Ilíada, obra épica de Homero que trata dos episódios finais da guerra de Troia. Por ser filho da nereida Tétis com o Rei Peleu, Aquiles pode escolher entre ter uma vida longa, mas ser esquecido por todos, e uma vida breve, mas heroica. Ele escolhe a segunda opção e, após assassinar e vilipendiar o cadáver de Heitor, príncipe de Troia, é abatido com uma flechada na única parte de seu corpo que é vulnerável, o calcanhar.
[2] ROSA. João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 22 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 3.
[3] Aquiles, herói grego cujo dilema perpassa a Ilíada, obra épica de Homero que trata dos episódios finais da guerra de Troia. Por ser filho da nereida Tétis com o Rei Peleu, Aquiles pode escolher entre ter uma vida longa, mas ser esquecido por todos, e uma vida breve, mas heroica. Ele escolhe a segunda opção e, após assassinar e vilipendiar o cadáver de Heitor, príncipe de Troia, é abatido com uma flechada na única parte de seu corpo que é vulnerável, o calcanhar.
[4] ROSA. João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 22 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 435.
[5] Idem, ibidem, p. 435.
[6] Idem, ibidem, p. 428.