Um testemunho mais forte que a violência. Artigo Jean-Marc Aveline

Irmãos trapistas do Tibhirine | Foto: Aleteia

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07 Mai 2026

"Somos os herdeiros dessa história e desse testemunho. Com o sangue derramado, a pequena Igreja da Argélia, missionária na simplicidade de uma vida oferecida pessoalmente, humilde na oração entre os que oram, ensina-nos a estreita ligação entre santidade e amizade, entre o dom da vida, mesmo até o martírio, e a cotidianidade de uma fidelidade atenta ao próximo."

O artigo é de Jean-Marc Aveline, Cardeal Arcebispo de Marselha e Presidente da Conferência Episcopal Francesa, publicado por L'Osservatore Romano, 05-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Por ocasião da comemoração litúrgica dos 19 mártires da Argélia, em 8 de maio será inaugurada a exposição dedicada a eles no Forum Paris, organizada pelo Encontro pela Amizade entre os Povos e com curadoria da Libreria Editrice Vaticana (LEV) e da Fundação Internacional Oasis. Durante a exposição, que se encerra em 10 de maio, será realizada uma conferência sobre essas testemunhas da fé — o rito de beatificação foi celebrado em 8 de dezembro de 2018 — na presença do Cardeal Arcebispo de Argel, o dominicano Jean-Paul Vesco, do postulador Thomas Georgeon, trapista, e a teóloga Marie-Dominique Minassian, especialista no legado dos sete monges da Ordem Trapista de Tibhirine. Publicamos abaixo o prefácio escrito pelo Cardeal Arcebispo de Marselha para o livro Appelés deux fois. Dix-neuf hommes et femmes morts pour Dieu et l'Algerie (Bayard religion, Paris 2026), a versão francesa de Chiamati due volte. I 19 martiri d'Algeria (Chamados duas vezes. Os 19 mártires da Argélia), catálogo da exposição.

Naquela manhã de 8 de dezembro de 2018, Oran estava envolta na névoa. É comum ser assim no inverno, quando o mar traz um pouco de umidade para esta ensolarada terra de Oran, sobre a qual Albert Camus cantou tão belamente. No dia da beatificação dos "mártires da Argélia", uma alegria carregada de emoção habitava os corações de todos os argelinos e daqueles que, como eu, atravessaram o Mediterrâneo para comunicar a mesma esperança: uma esperança que não ignora as feridas do passado, mas acolhe das mãos de Deus a promessa de uma paz, ainda que em gestação, de uma comunhão confiada às frágeis mãos de homens e mulheres de boa vontade. Enquanto subíamos a colina de Santa Cruz, com o nevoeiro que começava a dissipar-se, curva após curva, descobríamos assombrados a planície de Oran e o porto de Mers el-Kébir, eu pensava na minha família, que no final do século XIX desembarcou nessas costas vinda da Andaluzia em busca de trabalho, numa época em que os fluxos migratórios no Mediterrâneo se deslocavam predominantemente de norte para o sul.

De longe, devem ter vislumbrado a pequena capela erguida nessa colina em 1850, um ano após o milagre da chuva que havia posto fim à terrível epidemia de cólera que devastara a cidade e a região. Em 1873, uma torre foi construída em frente à capela, no topo da qual foi colocada uma estátua da Virgem para velar pela cidade, assim como outras Nossas Senhoras ao redor do Mediterrâneo ainda velam por Argel, Beirute, Éfeso ou Marselha — um frágil rosário de laços marianos entre costas, entre povos, entre religiões!

A graça daquele dia era palpável. E eu murmurava baixinho o hino de louvor: "Como uma névoa que se dissipa / e revela um pico, / este dia nos revela, indizível, / outro dia que já se vislumbra."

Na noite anterior, em uma catedral mais lotada do que nunca, já havíamos sido profundamente tocados ao ouvir diversos testemunhos de uma fraternidade desarmante. A irmã de Pierre (Claverie) e a mãe de Mohamed (Bouchikhi), o irmão de Christian (de Chergé) e o filho de Mohamed, o idoso Jean-Pierre e o incansável Henri, e tantas outras histórias, cristãs e muçulmanas, unidas pela dor e transfiguradas pela amizade. Assim, diante de nossos olhos, os beatos realizaram inúmeros milagres, permitindo que o Espírito nos fizesse experimentar o poder do amor, mais poderoso do que todas as nossas divisões.

"Acreditar no sentido da nossa presença hoje na Argélia — escreveu Christian Chessel (padre branco assassinado em Tizi Ouzou em 27 de dezembro de 1994) — talvez não seja nada mais do que acreditar no poder do amor." Naquela noite, na catedral, a luz frágil de nossas velas, figura viva da aurora eterna, parecia abrir caminho através dos meandros de nossas sombras interiores para nos fazer saborear a paz que vem de Deus, uma paz palpável e ao mesmo tempo fugidia, que havia atravessado os sofrimentos e os lutos, as vinganças e os medos, e que inspirava de forma desmedida as nossas orações, muçulmanas e cristãs, para abrir nossos corações para a obra da graça. As palavras de Pierre Claverie ressoavam em mim: "A santidade é, acima de tudo, uma grande paixão. Há uma loucura na santidade, a loucura do amor, a própria loucura da cruz, que zomba dos cálculos e da sabedoria dos homens."

No dia seguinte, quando chegamos à grande esplanada de Notre-Dame de Santa Cruz para a missa de beatificação, simplesmente tivemos que nos deixar levar pela graça daquele dia. Bastava acolhermo-nos uns aos outros, nós que jamais ousaríamos chamar-nos "irmãos" se o Espírito Santo não o tivesse pedido e nos dado a coragem e o gosto pela fraternidade. Michel Fleury, aquele sacerdote do Prado que se tornou trapista, aquele elo discreto entre a Argélia e Marselha, entre as montanhas de Tibhirine e o bairro marselhês de La Cabucelle, confidenciou numa de suas cartas: "Se algo acabar nos acontecendo, coisa que não espero, queremos vivenciá-lo aqui, em solidariedade com todos os argelinos e argelinas que já pagaram com a vida, simplesmente em solidariedade com todos esses desconhecidos inocentes... Parece-me que quem nos ajuda a resistir hoje é quem nos chamou. Sinto-me profundamente fascinado."

Era a Festa da Imaculada Conceição, e a leitura do Evangelho da Anunciação me impactou: como Maria, reconfortada pelo anjo diante da estranheza de sua promessa, como os mártires da Argélia que ouviram no silêncio de seus corações um libertador "não tenha medo!", nós também éramos convidados, cristãos e muçulmanos, a reafirmar nossa disponibilidade à obra de Deus: "Faça-se em mim segundo a tua palavra!"

Um grande estandarte trazia os nomes dos novos beatos, misturados com uma série de outros nomes de argelinos, vítimas também daquela Década Negra que mergulhou o país em luto por longos anos e continua, ainda hoje, a pesar sobre o seu presente. Ao virmos prestar graças pelo testemunho de dezenove mártires religiosos, trazíamos em nossas orações também os outros 150 mil argelinos, também mortos pela loucura assassina do terrorismo.

Naquela manhã, na mesquita, havíamos lembrado os cento e quatorze imãs e os cem jornalistas assassinados por se oporem corajosamente à violência e ao ódio. E no ícone criado para a beatificação, figurava em destaque Mohamed Bouchikhi, o jovem motorista de Pierre Claverie, cuja mãe havia oferecido seu testemunho na noite anterior na catedral. A Igreja reconhecia os dezenove beatos, mas associava a eles, nessa misteriosa comunhão de santos, a imensa multidão daqueles que "vêm da grande tribulação" (Ap 7,14) e que "ninguém pode contar" (Ap 7,9)!

Passei um longo tempo meditando sobre esse resumo vertiginoso da minha história familiar e eclesial. Uma história feita de memórias felizes e cicatrizes dolorosas. Uma história agora iluminada, como tantas outras, pela graça dessa beatificação, uma profunda graça de reconciliação que nos permite habitar o sentido invisível das aparentes incongruências da vida! Uma graça para ser vivida juntos, mas que cada um deve receber pessoalmente, como um maná escondido por meio do qual o Espírito de Deus alimenta em todos, mas uns através dos outros, o desejo de viver como irmãos e irmãs na esperança invencível do seu Dia. O essencial, como disse Antoine de Saint-Exupéry, é invisível aos olhos.

"Que o Espírito venha, para nos ensinar / A ver neste dia que avança / O espaço em que amadurece a nossa expectativa / Do dia divino, nossa esperança."

Enquanto nos preparamos para comemorar o trigésimo aniversário da morte dos "mártires da Argélia", desejo expressar minha imensa gratidão à Fundação Internacional Oasis e à Editora Vaticana, que idealizaram a exposição "Chamados Duas Vezes". Ela nos permite compartilhar com todos o que vivenciamos de forma misteriosa e emocionante no dia da beatificação dos mártires da Argélia, essa graça que só pedia para amadurecer, mas que primeiro precisava ser cuidadosamente guardada no coração — esse dom que Deus deu ao mundo com a pequena Igreja da Argélia, fecunda em sua pobreza, livre em sua dependência, alegre em sua precariedade.

Por fotografias, vídeos, textos e objetos, a exposição conta a história e compartilha o testemunho desses homens e mulheres que deram suas vidas por uma dupla fidelidade: a Cristo e ao povo para o qual foram enviados. "Ninguém pode tirar nossas vidas, porque já as doamos. [...] Nada nos acontecerá porque estamos nas mãos de Deus... E se algo tiver que nos acontecer, ainda estaremos em suas mãos", escreveu a Irmã Esther, assassinada em Bab el-Oued em 23 de outubro de 1994.

Somos os herdeiros dessa história e desse testemunho. Com o sangue derramado, a pequena Igreja da Argélia, missionária na simplicidade de uma vida oferecida pessoalmente, humilde na oração entre os que oram, ensina-nos a estreita ligação entre santidade e amizade, entre o dom da vida, mesmo até o martírio, e a cotidianidade de uma fidelidade atenta ao próximo. As palavras de Christian de Chergé, Prior de Tibhirine, que na sua homilia de Pentecostes evocou Henri Vergès e a pequena irmã Paul-Hélène, mortos a 8 de maio de 1994, aplicam-se a todos: "Eles vieram com um coração de pobre, prontos para acolher, e confessaram que receberam tanto dessa multidão de pobres que os choram junto conosco, testemunhando o quanto lhes devem. O Espírito criou assim o 'vínculo da paz', e é Ele quem nos ajuda a viver o seu sacrifício como um Pentecostes, proclamando sobre eles e com eles as maravilhas de Deus."

Pela exposição Chamados Duas Vezes e esse livro que a acompanha, reunimos o legado desse Pentecostes. Os mártires da Argélia são mártires da fé apenas porque são mártires do amor e da esperança. "O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos" (Jo 15,12-13).

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