Quem quer ser um Milton Santos? Artigo de Sebastião Cerqueira Neto

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09 Mai 2026

"Milton Santos não era um intelectual populista que deseja arrebanhar seguidores. Um pensador que elaborou críticas sobre a hierarquização das ciências no Brasil; poucos têm a coragem de reclamar e denunciar o porquê de alguns departamentos receberem mais verbas que outros. Um geógrafo que contestou a geografia que se ampara em métodos de outras ciências, sobretudo, as ciências duras para se garantir o seu caráter cientifico", escreve Sebastião Cerqueira Neto, professor e pesquisador da Geografia no Instituto Federal da Bahia e professor no Programa de Pós-graduação em Estado e Sociedade da Universidade Federal do Sul da Bahia.

Eis o artigo.

Pensar o papel do geógrafo deve ser um exercício constante principalmente para aqueles que se dedicam a Geografia Humana, uma geografia mais crítica, mais intelectualizada. Daí ser fundamental fazer o resgate e releituras das nossas referências acadêmicas que contribuíram com a formação do pensamento crítico sobre o Brasil e mundo. Por isso, considero fundamental a atitude do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos SinosUnisinos, propor uma homenagem ao Professor Milton Santos, que em 2026 marca os cem anos do seu nascimento.

A capacidade intelectual, teórica e metodológica que Milton Santos demonstrou através de seus inúmeros livros e artigos, nas suas apresentações em palestras e conferências e, sobretudo, a sua postura intransigente na defesa dos pobres são um legado para a geografia bem como para outras ciências que se aventuram a fazer interpretações tendo o território como palco das atividades humanas.

O que faço nesse texto é um pequeno exercício de tentar enxergar a partir de algumas reflexões elaboradas por Milton Santos, a tarefa árdua de enfrentar um cenário mundial e nacional onde o globalitarismo está vencendo a guerra contra a adoção de uma globalização mais humanizada.

Não há como pensar a geografia proposta por Milton Santos dissociando-a do vigor de suas palavras em direção para a construção de um Brasil e mundo com menos injustiça espacial. E um dos lugares mais férteis para semear essas ideias são os territórios dos pobres. Sendo um pesquisador/intelectual acadêmico, o seu legado está, mormente, dentro dos departamentos de Geografia Humana de todo o país.

Portanto, cabe à universidade fazer essa semeadura, ainda que Milton Santos estivesse percebendo que as nossas instituições de ensino superior estavam se deteriorando a partir do momento em que ela caminhava para o abandono o seu objetivo maior que, segundo ele, seria o de produzir pesquisas onde o ser humano fosse a preocupação central das pesquisas; não a serventia total ao capitalismo brutal que é a mola propulsora da face mais perversa da globalização. Dessa forma, é preciso que nós, pensadores da “nova geografia” defendida por Milton Santos, sejamos os responsáveis na produção pensar o nosso papel nesse mundo que cada vez mais se robotiza, automatiza, fica mais virtual, mais financeiro.

Milton Santos teve a coragem de produzir severas críticas sobre a ciência, sobre a universidade, sobre o papel da intelectualidade brasileira. Uma postura que não se vê nos dias atuais tendo em vista que se está reproduzindo, dentro das universidades e institutos federais, um tipo de política que se espelha na política partidária profissional que é amiúde criticada pela elite intelectual e da ciência brasileira. Nesse cenário, a possibilidade de quem produz críticas sobre essa dinâmica acadêmica em nosso país acaba por correr sérios riscos de retaliações como, por exemplo, ter boicote na produção e na concorrência de bolsas para pesquisa. E a produção intelectual fica ainda mais comprometida com o crescimento da extrema-direita no país, que odeia os intelectuais e que de uma certa forma é a continuidade histórica de um país que nunca teve a cultura de ouvir uma palavra crítica; como bem pontuava Milton Santos.

Ao seguir nesse caminho a tendência é que nossas instituições federais de ensino, pesquisa e extensão percam seu caráter social, o que pode significar um sinal da falência total do último reduto de enfrentamento ao alargamento das linhas abissais entre pobres e ricos (territórios) e consequentemente a maior produção de lugares opacos. Assim, a produção do conhecimento crítico vai perdendo espaço para uma produção inovadora que tem o compromisso mais com o mercado do que com o ser humano.

Se os filósofos da geografia “morrerem”, e há uma política inclusive educacional para que isso aconteça, de onde sairão as análises/críticas com embasamentos teóricos sobre a política brasileira se grande parte da intelectualidade se aliou afetivamente a candidatos da direita e da esquerda? Não há problema na opção política partidária dos intelectuais, a questão é que suas análises podem ter apenas um caminho. E uma análise que segue apenas uma via é contrário a tudo que Milton Santos propunha para um intelectual do território.

Vamos ser apenas expectadores das análises de jornalistas dos grandes grupos de mídia? Caso esse seja o caminho a nossa atividade pedagógica em sala de aula será retransmitir os programas de telejornalismo em sala de aula. Cada dia fica mais difícil pensar o Brasil como Milton Santos, que não se preocupou se teria algum prejuízo financeiro ou político. Daí ele dizer que era satisfeito com o seu salário de professor; e que por isso não faria questão de participar do establishment.

Caminhamos (a academia) para ser substituídos por ativistas estéreis e rebeldes incompetentes, porque estes passaram a dominar as redes sociais? Há que ressaltar um dos equívocos do ativismo estéril que está contaminando o meio acadêmico, que é a santificação de quem estuda sobre minorias; inclusive tentam assumir uma identidade cultural que não lhes pertence. Pessoalmente, convivi num centro de pesquisa onde as pessoas não se olhavam, nem sequer sorriam, mas faziam parte de um grande grupo de pesquisa que estudava causas das minorias. Isso parecia lhes conferir uma armadura contra qualquer crítica. Afinal, todos que estudam as minorias parecem receber uma espécie de beatificação acadêmica. Mas eram pesquisadores/as secos/as, sem alegria, pareciam viver e estarem prontos para iniciar qualquer “guerra” ou repelir aqueles que não participavam de suas ideologias.

No Brasil há uma certa hipocrisia no meio acadêmico; meio este tanto criticado por Milton Santos, por ser um meio impermeável que não deixa os jovens florescer com suas ideias, mas que ao mesmo tempo se sucumbe ao poder da mídia. Por exemplo: como você escreve livros e artigos, faz palestras, e de repente se torna uma celebridade midiática combatendo o racismo e faz propaganda de uma marca de carro cuja a origem do país foi um dos focos históricos, e continua sendo até hoje, de racismo? Como você que escreve sobre viver bem, sobre autoajuda e faz propaganda para um grande banco particular? Como você elabora críticas sobre a falta de serviços públicos de saúde, e faz propaganda para um plano de saúde, inclusive um dos mais caros do país? Como você defende o meio ambiente e lucra com dinheiro ilícito para suas pesquisas ou está a serviço de governos antidemocráticos? É imaginável pensar Milton Santos fazendo campanha publicitária sem que ele compreendesse as características das empresas envolvidas.

Onde estão os intelectuais que pensam o Brasil, independentemente se seus posicionamentos serão aceitos ou não? Milton Santos falava que a força do intelectual está na prática de defender as suas ideias até que elas floresçam. Será que foram seduzidos pela grande mídia e se tornaram estrelas/comentaristas de TV? Aliás, o grande número de comentaristas das principais redes de televisões, sejam canais abertos ou fechados, é composto por pessoas formadas em Economia e no Direito. No início da globalização, Milton Santos já nos alertava para essa combinação nefasta entre a mídia e os economistas que utilizam um vocabulário repleto de fórmulas que seque a maior parte da população universitária não compreende. E, então o que dizer dos pobres que estão morando nas favelas e nas ruas com o mínimo ou quase nenhuma formação escolar? Milton Santos dizia que essa amálgama da mídia com o mercado financeiro não era ingênua.

Basta observarmos como, aos poucos, o chamado mercado forçou a saída dos economistas acadêmicos das decisões políticas do país, “impondo” seus economistas forjados dentro de um sistema financeiro perverso onde o que mais importa é salvar a econômica e não o ser humano. Essa era uma das críticas mais severas feita por Milton Santos quanto ao abandono da sociedade e a adoração ao dinheiro. Não se fala mais na economia pensada por Paul Singer, Celso Furtado e Maria da Conceição Tavares. E, no que concerne a presença constante de pessoas formadas em Direito estarem todos os dias, em todos os telejornais fazendo análises, significa que o país sempre está em algum “tribunal”.

A academia parece estar sendo seduzida pelo ativismo radical onde não se aceita o contraditório. Como dizia Milton Santos é nos exigido um comportamento standard, e caso tentemos escapar dele logo somos massacrados. Um exemplo está na discussão sobre as mudanças climáticas (área que não domino teoricamente) onde a intolerância com os cientistas que pensam e fazem estudos diferentes do IPCC acabam por serem demoniados dificultando o debate acadêmico inclusive para a sociedade. O professor Luiz Carlos Molion (não conheço pessoalmente), que contesta veementemente a teoria de que o homem é responsável pelo aquecimento global, recebe várias críticas e até mesmo é desprestigiado pela academia e por grande parte da mídia que repercute os estudos do Painel Intergovernamental para estudos de Mudanças Climáticas.

Não se trata de dizer que o professor Molion esteja certo ou equivocado, mas, o que chama a atenção é como a grande parte da academia não consegue aceitar uma palavra contrária. Aliás, se aprende na academia que a dialética, o contraditório, a falta de consenso são características contidas num trabalho acadêmico independentemente da área de conhecimento.

Sendo assim, os algozes da ciência e do pensamento crítico no Brasil não estão somente dentro de uma ideologia política extremista. Por mais que possa parecer uma grande contradição, esses algozes podem ser encontrados estão dentro dos laboratórios, nas agências de fomento, nas universidades, nos institutos federais. O ativismo, que não é um ato ingênuo, que está presente em todas as colorações partidárias, está substituindo a leitura, a política e também deseja matar os intelectuais. Os atos físicos, xingamentos, palavras grosseiras ganham maior visibilidade do que palavras críticas elaboradas a partir de pesquisas acadêmicas. E, o pior, há professores, mestrandos, doutorandos, como maior ocorrência nas áreas de humanidades, trocando o comportamento acadêmico por ativismo incompetente. A academia ainda deveria se inspirar na réplica que Lévi Strauss deu ao seu colega Jean Pierre Vernant[1], quando este criticou seus escritos; responder através de outro texto de forma educada e pedagógica. É isso que se espera de quem teve a oportunidade de estar numa instituição de ensino superior gratuita que foi criada para fazer parte do desenvolvimento social do país.

Porque Milton Santos ainda devemos continuar semeando o pensamento de Milton Santos, mesmo que alguns queiram o seu apagamento das escolas? 1) Ele é um risco para a extrema direita que sem argumentos vai lhe taxar de comunista. 2) Para a esquerda que se julga intelectual, as ideias de Milton Santos servem apenas como frase no paralama de caminhão, para fazer efeito em discurso, mas com pouca aplicabilidade do que Milton Santos pensou para o Brasil. 3) Ele não optou pela esquerda ou pela direita; optou por reclamar direitos para os indivíduos lentos que habitam em lugares opacos. Entendia que somente os debaixo, os pobres, que fariam a revolução em busca de uma vida melhor. 4) Enxergava o rap como uma cultura e um modo de se fazer política, enquanto a grande mídia tratava esse gênero musical como marginal. 5) Suas ideias também tinham por objetivo causar desconforto entre setores poderosos da sociedade, pois ele acreditava que esse era um papel fundamental de um intelectual. 6) Um homem negro que cobrava do Brasil políticas para a população negra. Sua grande indagação nesse assunto era: o que o Brasil deseja fazer com os seus negros? Pensou a questão negra no Brasil sem estar alinhado a movimentos negros.

Milton Santos não era um intelectual populista que deseja arrebanhar seguidores. Um pensador que elaborou críticas sobre a hierarquização das ciências no Brasil; poucos têm a coragem de reclamar e denunciar o porquê de alguns departamentos receberem mais verbas que outros. Um geógrafo que contestou a geografia que se ampara em métodos de outras ciências, sobretudo, as ciências duras para se garantir o seu caráter cientifico. Um dos primeiros intelectuais a criticar o processo de globalização perversa pela qual o Brasil estava entrando num momento histórico em que a maioria da elite econômica mundial via na globalização o único meio de uma sociedade sair do subdesenvolvimento.

Penso que se estivesse vivo o Professor Milton Santo dificilmente seria chamado para pensar o Brasil fora dos muros das universidades. Os grandes encontros, nos dias atuais, são realizados e patrocinados por grandes empresas que não têm afetividade com os territórios, que veem a tecnologia como a salvação do mundo, contudo, uma tecnologia que não serve aos pobres, pois estes não possuem condições financeiras de ter acesso a ela.

É possível que a globalização humanista, tão sonhada por Milton Santos tenha ficado apenas no seu livro. O que vemos é a proliferação da globalização perversa que cada vez mais fabrica territórios luminosos para o uso de poucos, ao mesmo tempo que confina os homens lentos em territórios opacos. Todavia, ao optar por continuar cultivando e semeando as ideias de Milton Santos, prefiro adotar a postura do Professor Darcy Ribeiro: "Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”. Num país com tamanha desigualdade social que é proporcional a sua dimensão territorial, ficar ao lado de Milton Santos, é estar ao lado da ética do pensamento crítico e lutar por aqueles que estão excluídos do chamado “banquete” da globalização.

Ao contrário de programas de TV que procuram pessoas para se tornar milionários, deveríamos nas universidades perguntar: quem quer ser um Milton Santos? A reflexão não é na direção de encontrar um substituto ou um clone do Professor Milton Santos, mas para escolher quem tem a coragem de produzir conhecimento, elaborar críticas e mostrar caminhos que possam diminuir as desigualdades socioeconômicas nadando contra a correnteza representada por uma globalização que é sedutora e fábula ao mesmo tempo.

Se pensarmos na escala nacional e mundial desistiremos de propor em uma aldeia global solidária. Mas, se pensarmos em cada território que vivemos conseguiremos produzir pesquisas que vão dar luminosidade aos lugares opacos. Logo, cada TCC, cada dissertação ou tese de doutorado em Geografia realizados em qualquer parte do Brasil, que se dedicam a pensar criticamente o seu território, significa uma semente a mais em solos áridos de políticas públicas para os pobres.

Minha aproximação com o pensamento de Milton Santos

Desde da minha tese de doutorado venho me dedicando a compreender o pensamento de Milton Santos, o que pode ser comprovado quando insiro o termo “globalização” na minha pesquisa. No pós doutorado em Coimbra (2014 – 2015), como Bolsa Capes, a minha pesquisa resultou em outro livro publicado pela Editora da Universidade Federal da Bahia com o título “Da cientificidade de Milton Santos ao ativismo de Boaventura de Sousa Santos”; esse livro me colocou no site da Capes como pesquisador de destaque. Uma proposta de pesquisa que foi recusada no Brasil.

Em 2024 foi publicado pela Editora do Instituto Federal da Bahia, onde sou professor/pesquisador no campus do município de Porto Seguro, sob minha organização o livro “20 anos sem Milton Santos: o Brasil continua a ser um país distorcido. Na elaboração da capa desse livro contei com a generosidade da Sra. Marie-Helene, em várias trocas de e-mails de agradecimento, viúva de Milton Santos na cessão da foto para a capa do livro.

Essas três obras indicam que venho há algum tempo dedicando a interpretar o pensamento de Milton Santos adaptando parte de suas reflexões para pensar outros caminhos em para a região onde desenvolvo minhas pesquisas e para o Brasil. Minha especialização em estudar Milton Santos também está expressa nos artigos: Dinâmica do território a partir das instituições de ensino: de Milton Santos à Sylvio Bandeira de Mello e Silva (Revista Vozes dos Vales da UFVJM); Globalização, educação, ser negro: é preciso ensinar Milton Santos (Revista Educação Popular da UFU); O que Milton Santos falou e você não leu: um geógrafo, um intelectual corajoso (Cadernos de Geografia da Universidade de Coimbra); Dilemas do ensino da Geografia na pandemia: uma perspectiva Miltoniana (Revista ensino de Geografia da UFPE); Como Milton Santos explicaria o Brasil nesse momento de pandemia? (Revista Interespaço da UFMA); A ciência e a tecnologia na visão de Milton Santos (Revista Geotexto da UFBA).

Notas

[1] Um pequeno texto sobre ética escrito pelo Prof. Roberto Romano, que pode encontrado aqui.

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