A cautela de Leão sobre as bênçãos para casais do mesmo sexo hoje deixa a porta aberta para o amanhã

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05 Mai 2026

Igreja Católica não é uma entidade estática, total e perfeitamente formada. Constantemente, aquilo que era imutável se dobra e se transforma. Talvez Leão esteja nos mostrando o caminho.

O editorial é publicado por National Catholic Reporter, 04-05-2026.

Eis o editorial.

A resposta recente do Papa Leão XIV, durante um voo, a uma pergunta sobre a bênção de casais do mesmo sexo, demonstrou uma preferência por não exacerbar as divisões dentro da Igreja, em vez de ultrapassar os limites em questões polêmicas.

Sua resposta, contudo, não ocorreu isoladamente, nem no avião e certamente não no contexto de outros pronunciamentos feitos ao longo do primeiro ano de seu pontificado. Em uma perspectiva mais ampla, pode-se dizer que Leão XIV está conduzindo um seminário contínuo sobre dois temas significativos: como a mudança ocorre na Igreja e que as questões de moralidade abrangem muito mais do que apenas alguns temas relacionados à sexualidade.

Sobre esse último ponto, Leão disse: "Antes de mais nada, acho muito importante que a unidade ou divisão da Igreja não gire em torno de questões sexuais. Tendemos a pensar que, quando a Igreja fala de moralidade, a única questão moral envolvida é a sexual. E, na realidade, acredito que existem questões maiores e mais importantes, como justiça, igualdade, liberdade entre homens e mulheres, liberdade religiosa, que teriam prioridade sobre essa questão específica."

Intencional ou não, a resposta de Leão representa um grande desafio para um segmento do catolicismo estadunidense que usa questões sexuais — a oposição ao aborto e às iniciativas LGBTQ+, para citar duas — como prova de legitimidade católica. Isso deixa "justiça, igualdade, liberdade de homens e mulheres, liberdade religiosa", sem mencionar deportações em massa, guerras de escolha, disparidades econômicas e outras questões de necessidade humana a serem tratadas como questões de julgamento prudente. Em outras palavras, cada um é livre para considerar essas questões de justiça como uma categoria separada que não exige a mesma urgência que as questões de sexo.

Já mencionamos isso antes, mas vale a pena retomar o assunto.

Embora papas anteriores tenham levantado questões como guerra, desigualdade econômica e outras questões de justiça com frequência e em linguagem fortemente crítica, os comentários de Leão XIV têm maior ressonância e autoridade aqui porque ele fala em inglês com sotaque típico do interior dos Estados Unidos, com conhecimento em primeira mão das mais elevadas aspirações e das falhas mais profundas de seu país natal.

Suas observações também ressoam com um senso de urgência incomum, porque as condições atuais nos Estados Unidos — deportações em massa, assassinatos de cidadãos americanos por agentes mascarados, invasões imprudentes de países soberanos, guerras por escolha e ameaças de aniquilação de uma civilização — são extremamente alarmantes e representam uma ameaça tanto à estabilidade nacional quanto à global.

Ser cristão e católico nos Estados Unidos assumiu um novo significado nesta era turbulenta. Leão deixou claro, em suas condenações à guerra e ao tratamento cruel de refugiados e imigrantes vulneráveis, que tais questões não são periféricas ao trabalho da Igreja. Elas representam responsabilidades essenciais para todos aqueles que se dizem seguidores de Cristo.

Leão está desafiando os católicos de todo o espectro, do liberal ao conservador, a darem o que pode ser um passo desconfortável: o de se envolverem com a plenitude do Evangelho.

Embora tenha respondido negativamente a uma pergunta sobre se apoiaria bênçãos formais para casais do mesmo sexo, uma possibilidade levantada por bispos alemães, ele defendeu as bênçãos informais aprovadas por seu antecessor, o Papa Francisco.

Talvez seja um pequeno consolo para aqueles que têm esperado pacientemente que a Igreja reflita sobre sua interpretação atual das Escrituras, que pouco aborda tais questões, e também sobre sua compreensão das ciências humanas, que têm muito a dizer sobre nossos irmãos e irmãs cuja sexualidade, sem que tenham tido a intenção de realizá-la, não se conforma à da maioria. Vemos à mente Galileu e sua luta para convencer os líderes da Igreja sobre um universo heliocêntrico. Nossa esperança é que, no caso atual, não sejam necessários mais 500 anos para que a realidade da comunidade LGBTQ+ seja reconhecida.

Uma espera menor pode estar a caminho.

Um dia antes da publicação da reportagem sobre os comentários de Leão no avião que retornava da África, uma coluna de Francis DeBernardo, diretor executivo do New Ways Ministry, detalhou uma série de encontros privados que incluíram bispos, católicos LGBTQ+, especialistas científicos e outros acadêmicos e teólogos.

O que ficou claro nas décadas de trabalho do ministério em defesa dos católicos LGBTQ+, escreveu DeBernardo, foi que os bispos tinham pouco conhecimento desses membros da comunidade católica.

"Quase todos os documentos sobre pessoas LGBTQ+ emitidos pelo Vaticano, pela Conferência dos Bispos Católicos dos EUA e por diversos bispos americanos refletem um conhecimento incompleto sobre a vida das minorias sexuais e de gênero", escreveu DeBernardo. "Há uma ausência de conhecimento sobre os avanços científicos relacionados a gênero e sexualidade. Também faltam discussões sobre o tema por parte da comunidade teológica."

A New Ways realizou três encontros desse tipo em diferentes partes do país a partir de 2023. Bispos, num total de 17, ouviram as vozes de católicos LGBTQ+, aprenderam com especialistas, teólogos e agentes pastorais.

O arcebispo John Wester, de Santa Fé, Novo México, disse: "As trocas francas me proporcionaram uma compreensão mais profunda das questões enfrentadas pelos membros LGBTQ da Igreja Católica. O ambiente era colegiado e respeitoso, à altura dos ideais da sinodalidade."

O bispo Joseph Kopacz, de Jackson, Mississippi, descreveu uma das reuniões como "uma expressão autêntica do que o Espírito está dizendo à igreja no sínodo mundial". 

Percorremos um longo caminho desde a descrição, não tão distante, da homossexualidade como "objetivamente desordenada" e dos atos homossexuais como "intrinsecamente desordenados" — expressões que, apesar dos esforços de alguns católicos para removê-las dos ensinamentos da Igreja, permanecem teimosamente no Catecismo da Igreja Católica.

Quem poderia imaginar, naquela época, que um papa responderia a uma pergunta sobre seminaristas gays com "Quem sou eu para julgar?" Francisco mais tarde deu sua bênção ao ministério contínuo do padre jesuíta James Martin à comunidade LGBTQ+, assim como Leão XIV.

Talvez o exemplo mais emblemático da possibilidade de mudança tenha sido a visita pessoal cordial e encorajadora que a Irmã Jeannine Gramick, fundadora do Ministério Novos Caminhos, recebeu do Papa Francisco. Aquele momento representou uma mudança radical de atitude em relação às décadas de assédio e punições que ela sofreu por parte de autoridades da Igreja.

Ao discutir mudanças — seja falando dos católicos americanos em geral ou das normas da Igreja que regem as pessoas LGBTQ+ — é importante notar que, em outra entrevista sobre essa possibilidade, Leão disse ser necessário "mudar as atitudes antes de mudarmos a doutrina".

Recentemente, no avião, ao explicar que não apoiaria o plano dos bispos alemães de oferecer bênçãos formais a casais do mesmo sexo, Leão XIV mencionou bênçãos mais abrangentes e disse que "ir além disso hoje" poderia causar desunião. Mas e amanhã? Talvez Leão XIV esteja deixando essa questão em aberto.

Será que os católicos dos EUA conseguirão mudar de atitude o suficiente para confrontar a obscena obsessão que temos pelo militarismo? Será que nós, como Povo de Deus, conseguiremos encarar de frente o terrível número de mortes e destruição em que fomos cúmplices, do Vietnã ao Iraque, do Afeganistão à América Central e agora ao Irã — para mencionar apenas alguns dos exemplos mais óbvios?

Será que o exemplo de alguns bispos nos EUA, juntamente com uma mudança de postura nos mais altos escalões da Igreja, pode começar a conferir plena humanidade às minorias sexuais e de gênero?

A Igreja Católica não é uma entidade estática, totalmente e perfeitamente formada. Constantemente, aquilo que era imutável se dobra e se transforma. Talvez Leão esteja nos mostrando o caminho.

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