05 Mai 2026
"Do ponto de vista do ativismo em direitos humanos, rejeitamos a ideia de que a tecnologia seja um campo neutro. A visita de Peter Thiel e a possível assinatura de contratos entre a Palantir e o governo argentino representam uma escolha política clara: a de um modelo social onde a privacidade é um luxo e a dissidência é um padrão detectável por um algoritmo", escreve Juan Carlos Lara, em artigo publicado por Página|12, 04-05-2026.
Juan Carlos Lara é o co-diretor executivo da Digital Rights.
Eis o artigo.
A recente chegada de Peter Thiel a Buenos Aires, envolta na aura de mística tecnológica que cerca o Vale do Silício, não deve ser interpretada como uma mera visita de um investidor estrangeiro. No contexto do governo Milei, a chegada do cofundador do PayPal e da Palantir marca um preocupante marco na configuração da infraestrutura digital pública da Argentina. Não se trata de um filantropo digital, mas sim do principal arquiteto de um modelo tecnocêntrico libertário que vê as instituições democráticas como um obstáculo à implantação do poder computacional e ao controle autoritário. A narrativa da "modernização" tenta camuflar a entrega da soberania digital a uma das empresas mais opacas e perigosas do setor global de defesa e inteligência.
O ideólogo por trás da vigilância: a democracia como obstáculo
Para entender o risco que a Palantir representa, primeiro precisamos entender Peter Thiel. Ao contrário de outros CEOs do Vale do Silício que mantêm uma fachada de progressismo liberal, Thiel é explícito sobre suas convicções. Em seu ensaio A Educação de um Libertário, ele afirmou inequivocamente: “Não acredito mais que liberdade e democracia sejam compatíveis”.
Essa premissa não é uma abstração filosófica ou uma posição política tão ousada quanto vazia, mas sim o fundamento operacional de seus negócios. Para Thiel, a tecnologia não deve servir à política, mas transcendê-la. Sua visão propõe um mundo onde os Estados são geridos como corporações e onde os direitos dos cidadãos são substituídos pela eficiência algorítmica ditada por elites tecnológicas. Um Estado sem mecanismos democráticos de controle e equilíbrio é, além disso, o cliente ideal para quem vende infraestrutura de vigilância. Que um governo libertário acolha de braços abertos alguém que considera a democracia um experimento fracassado é, no mínimo, algo que deveria preocupar qualquer pessoa que defenda os valores democráticos na Argentina, independentemente de sua orientação política.
A influência de Thiel não começa nem termina na indústria de tecnologia; ela se estende ao próprio âmago do poder político. O atual vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, é uma criação política do próprio Thiel. Ele o orientou, financiou sua carreira em capital de risco e injetou os milhões de dólares necessários para sua ascensão ao Senado. Isso demonstra claramente que o projeto de Thiel não é voltado apenas para os negócios. Sua visita a Buenos Aires segue a mesma lógica de construção de poder. Ao se aliar ao governo de Milei, a Palantir busca um campo de testes regional para aplicar suas estratégias de controle social sob o disfarce de uma afinidade ideológica que despreza o setor público. Os encontros entre representantes da Palantir e agentes de inteligência sugerem que a presença da empresa não se trata de vender planilhas, mas sim de infiltrar o sistema de segurança nacional.
Sua empresa principal, a Palantir Technologies, leva o nome das pedras videntes de O Senhor dos Anéis. É uma metáfora clara: seu negócio é a visão abrangente, alcançada por meio da análise massiva de Big Data. Esta não é uma empresa de software convencional, mas sim a principal fornecedora de infraestrutura de vigilância e inteligência para as forças armadas e agências de espionagem mais poderosas do planeta. Seus contratos multimilionários com o exército americano, a CIA, o FBI e o ICE (a agência de imigração responsável por deportações em massa), entre outros, demonstram que sua especialidade é a classificação de pessoas. Além disso, seus estreitos laços operacionais com o exército israelense ressaltam que sua tecnologia é projetada para cenários de conflito e ocupação, onde a privacidade da população ocupada não é uma preocupação e onde a presunção de inocência é completamente desconsiderada.
Recentemente, a empresa publicou um manifesto de 22 pontos nas redes sociais que, em essência, é uma declaração de guerra fria digital, baseada no pensamento de seu atual CEO, Alex Karp. O manifesto argumenta que as grandes empresas de tecnologia têm uma “dívida moral” com os Estados Unidos e que o “poder duro” baseado em software é necessário para manter a hegemonia global ocidental. Essa postura mina qualquer alegação de neutralidade tecnológica. Quando uma empresa declara que sua ferramenta é uma arma para uma superpotência específica, qualquer outro Estado que contrate seus serviços não está adquirindo um software técnico objetivo, mas sim integrando um cavalo de Troia ideológico em sua infraestrutura crítica. Como a Argentina pode garantir sua soberania se suas decisões de inteligência ou segurança nacional dependem de um sistema projetado para servir aos interesses geopolíticos do governo Trump?
A soberania digital da Argentina está em risco
A pergunta que o governo Milei precisa responder com urgência é: a que tipo de acesso a dados sobre cidadãos argentinos e o Estado argentino está sendo oferecido? A Palantir é especializada em conectar bancos de dados anteriormente isolados (saúde, antecedentes criminais, imigração, atividades financeiras) para criar perfis preditivos. Em um país com um histórico de perseguição política e abusos por parte das forças de segurança, entregar essas capacidades a uma empresa estrangeira com esse histórico é uma irresponsabilidade histórica.
Implementar tecnologias como as vendidas pela Palantir em um contexto de poder concentrado e órgãos reguladores frágeis é o cenário ideal para qualquer regime autoritário. Nenhuma eficiência administrativa justifica a criação de uma infraestrutura de vigilância total que, uma vez instalada, é praticamente impossível de desmantelar.
Do ponto de vista do ativismo em direitos humanos, rejeitamos a ideia de que a tecnologia seja um campo neutro. A visita de Peter Thiel e a possível assinatura de contratos entre a Palantir e o governo argentino representam uma escolha política clara: a de um modelo social onde a privacidade é um luxo e a dissidência é um padrão detectável por um algoritmo.
Uma empresa que justifica publicamente a militarização da IA e a superioridade civilizacional de um bloco sobre outro nada tem a oferecer a uma democracia que aspira à justiça e à soberania. Os direitos digitais são direitos humanos, e a infraestrutura que sustenta nossa vida pública não pode ser deixada nas mãos daqueles que declaram guerra aos valores democráticos. A sociedade civil e o Congresso devem exigir transparência imediata em relação a esses acordos. O futuro da liberdade, da privacidade e da segurança digital de todos os argentinos está em jogo.
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