01 Mai 2026
• A pesquisa “Amazônia sob ataque: como o crime e a militarização ameaçam os povos indígenas” avalia como as economias ilícitas estão transformando a dinâmica nesses territórios.
• Também estuda os impactos das ações militares utilizadas pelos Estados para combater o crime sobre os povos indígenas.
• A pesquisa da Amazon Watch foi realizada em sete territórios indígenas de cinco países da região: Colômbia, Equador, Peru, Brasil e Venezuela.
• Entre as consequências estão a violação dos direitos territoriais, a violência contra crianças, adolescentes e mulheres, e os impactos na saúde, entre outros.
A reportagem é de Yvette Sierra Praeli, publicada por Mongabay, 29-04-2026. A tradução é do Cepat.
O relatório, Amazônia sob ataque: como o crime organizado e a militarização ameaçam os povos indígenas, examina os impactos das economias ilegais e das respostas militarizadas do Estado sobre os territórios indígenas. Por meio de sete estudos de caso realizados em cinco países da Amazônia — Colômbia, Equador, Peru, Brasil e Venezuela — o documento descreve como atividades ilícitas e a repressão estatal transformam o modo de vida e a cultura dos povos indígenas, afetando sua autodeterminação e seus direitos coletivos.
“A mineração ilegal de ouro, o narcotráfico, a extração ilegal de madeira e as redes de tráfico evoluíram para sistemas interconectados que controlam a terra, remodelam as economias locais e alimentam uma violência sem precedentes”, afirma o relatório.
Como consequência dessa espiral de violência, desde 2012, pelo menos 296 defensores foram assassinados na Amazônia, sendo a Colômbia e o Brasil os países mais perigosos para aqueles que a defendem. Segundo este estudo, as redes criminosas afetam 67% dos municípios amazônicos e colocaram 32% dos territórios indígenas em disputa entre grupos armados.
O relatório também aponta que as estratégias estatais baseadas em ações militarizadas para enfrentar o crime organizado têm falhado repetidamente. “A resposta dos Estados muitas vezes piora a situação. Quando optam pela militarização e pela repressão, acabam se apropriando de territórios e gerando outros tipos de violência e controle, em vez de fortalecer as respostas dos próprios povos indígenas”, explica Raphael Hoetmer, diretor do Programa Amazônia Ocidental da Amazon Watch e um dos autores do relatório.
O estudo foi apresentado na segunda-feira, 20 de abril, no Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas, realizado em Nova York, EUA. O relatório foi elaborado pela Amazon Watch com a participação de 15 organizações indígenas de cinco países amazônicos e uma rede de jornalistas e pesquisadores independentes.
As conclusões nos territórios
“O modo de vida dos povos indígenas na Amazônia está sendo drasticamente alterado por essas atividades ilícitas”, comentou Hoetmer em entrevista à Mongabay Latam. Nesse sentido, destacou três questões-chave que vieram à tona por meio deste estudo.
A primeira questão diz respeito à violência que as mulheres enfrentam devido ao tráfico de pessoas e à violência sexual, mas também porque precisam lidar com problemas de saúde em suas comunidades, acesso à água e outros desafios. Uma segunda questão fundamental aborda a situação de crianças e adolescentes. “Em todos os casos, vimos recrutamento, trabalho forçado e até escravidão”, comenta Hoetmer.
O mapa mostra a localização de territórios indígenas com presença de economias ilegais na Amazônia | Fonte: cortesia da Amazon Watch
A análise também destaca os impactos específicos sobre os povos indígenas isolados. “Estamos vendo que os espaços que protegem os povos indígenas isolados se tornaram áreas ocupadas pelo crime organizado, como está acontecendo, por exemplo, com o povo Kakataibo e comunidades transfronteiriças”, afirma o pesquisador.
As conclusões do estudo são baseadas em uma análise de sete cenários territoriais que abrangem Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, bem como em depoimentos coletados durante o Encontro Internacional de Defensores dos Direitos Humanos do Brasil, Colômbia, Equador e Peru, realizado em fevereiro na cidade de Pucallpa, na Amazônia peruana.
“Sete casos distintos em cinco países diferentes foram escolhidos para fazer uma análise sistemática das violações dos direitos humanos, do papel dos Estados, dos desafios em suas políticas e das respostas dos povos indígenas a tudo isso”, explica Hoetmer.
Por meio desses casos, foram identificados padrões de violência e mudanças que ocorrem nos territórios étnicos. Em relação aos direitos dos povos indígenas às suas terras, territórios e recursos, estes são sistematicamente violados por grupos armados, redes criminosas e atividades extrativistas, tanto legais quanto ilegais. “Defender o território muitas vezes tem um alto custo, incluindo ameaças e violência”, afirma o relatório.
O deslocamento forçado, o confinamento e o controle territorial que restringe a mobilidade em territórios indígenas também são consequências da presença de economias ilegais que fragmentam a vida comunitária e minam a autogovernança indígena.
“Nossos territórios são territórios de vida, territórios de bem-viver. Conservamos nossos territórios porque eles são a grande força da vida humana”, afirma Josefina Tunki, líder indígena equatoriana e vice-presidente do Conselho Diretor da Rede de Territórios de Vida (TICCA) da América Latina.
Tunki também menciona outros impactos sobre os territórios, como o deslocamento das populações e a poluição dos rios. “Na Cordilheira do Condor [na fronteira entre Equador e Peru], os rios estão poluídos. E nós, líderes, resistimos para proteger a biodiversidade, mas somos perseguidos para sermos silenciados. Os povos indígenas estão sendo deslocados de seus territórios por grupos organizados no Equador”.
Entre os casos analisados no relatório está o do povo indígena Munduruku, no Brasil, cujo território se tornou um importante polo de mineração ilegal de ouro na última década, com atuação de redes criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Um segundo caso no Brasil, na fronteira com o Peru, expõe a situação dos povos indígenas do território transfronteiriço Yuruá-Juruá-Alto Tamaya, que enfrentam ameaças crescentes, como a expansão das economias ilícitas, incluindo o narcotráfico, o cultivo de coca e a extração ilegal de madeira.
O território dos povos indígenas de Putumayo, na Colômbia, na fronteira com o Equador e o Peru, é outro caso apresentado. Trata-se de um importante centro de economias ilícitas, particularmente para a produção e o tráfico de cocaína, com atuação de grupos armados como os Comandos de Fronteira (CDF), a Frente Carolina Ramírez e a Frente Raúl Reyes.
Para o Equador, foi escolhido o caso Nacionalidade Kichwa de Napo, uma área com mineração ilegal de ouro e cujos rios servem como corredores logísticos para operações de mineração, tráfico de drogas, exploração madeireira e outras atividades ilícitas, com a presença de grupos criminosos como Los Lobos e Los Choneros.
Dois casos do Peru são contemplados no estudo. O primeiro diz respeito ao povo Kakataibo, que sofre crescente pressão devido ao narcotráfico, à extração ilegal de madeira, à grilagem de terras e à mineração ilegal de ouro. O segundo é o território da Nação Wampis, que enfrenta pressão crescente da mineração ilícita, da extração ilegal de madeira e de atividades associadas ao narcotráfico, com a presença de grupos criminosos como os Trujillanos e os Huanuqueños.
O último caso é o das terras indígenas dos povos Pemón, Kariña, Akawayo, Piaroa e Warekena, no sul da Venezuela. Esses territórios, ricos em ouro, coltan e outros minerais estratégicos, tornaram-se importantes epicentros de economias ilícitas, com a presença de grupos armados colombianos como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e facções dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
A violência nos territórios indígenas
Jackeline Odicio, presidenta da Federação de Mulheres Kakataibo (Femuka) no Peru, pediu o fim da violência e da criminalização dos povos indígenas durante a apresentação do estudo no Fórum Permanente. “Não somos violentas; estamos apenas defendendo nossos territórios. Venho de um território onde seis pessoas foram assassinadas, e nós também somos criminalizadas e ameaçadas”.
Odicio também falou sobre as consequências para crianças, jovens e mulheres em comunidades indígenas. “O estupro de crianças indígenas em nossos territórios, a gravidez na adolescência, a prostituição, o recrutamento forçado — tudo isso afeta nossos territórios. As consequências são muito graves”, afirmou.
As diferentes formas de violência contra mulheres, crianças e adolescentes indígenas se refletem nas dinâmicas de recrutamento forçado, exploração sexual, trabalho forçado e coerção. “Esses abusos têm origem nas desigualdades estruturais de gênero e nos padrões históricos de desapropriação, agora exacerbados pela expansão do crime organizado”, afirma o relatório.
O recrutamento e a exploração de crianças e adolescentes são estratégias fundamentais para a manutenção de grupos armados e economias ilícitas. Em toda a Amazônia, menores são recrutados para atividades de mineração, tráfico de drogas e controle territorial, frequentemente por meio de coerção, engano ou pela ausência de alternativas econômicas viáveis.
Hoetmer comenta que a falta de oportunidades econômicas é um dos motivos pelos quais jovens acabam envolvidos em economias ilegais. “Muitas vezes, trabalhar no cultivo de coca ou na mineração é a única oportunidade que eles têm, o que leva muitos jovens a serem atraídos para essas atividades”. No entanto, essas transformações nas novas gerações, afirma Hoetmer, afetam as formas de transmissão cultural e espiritual intergeracional. “Restrições à circulação dentro dos territórios podem impedir o acesso a locais sagrados e rotas territoriais que são essenciais para a sobrevivência das comunidades”.
Gestão territorial
O estudo menciona as operações em larga escala realizadas pelo crime organizado em territórios de toda a região. O relatório também menciona intervenções policiais e militares para desmantelar infraestruturas de mineração ilegal, bem como apreensões e prisões, mas sem abordar as causas estruturais que estão por trás das economias ilícitas.
Ricardo Soberón, ex-presidente executivo da Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Vida Sem Drogas (Devida), do Peru, destaca que “a retórica com que muitos atores descrevem a expansão das economias extrativistas contribui para uma visão criminalista ou militarista dessas economias ilícitas. Isso distorce qualquer possibilidade de abordar os problemas subjacentes aos acampamentos de mineração, às fossas de maceração e ao desmatamento das florestas”.
Soberón afirma que “encontramo-nos numa situação em que o uso de respostas repressivas é exagerado, como no caso da erradicação e criminalização dos cultivadores de coca, ou em que se mantém uma postura tímida e passiva como Estado de direito”.
Para Hoetmer, é preciso propor uma perspectiva diferente sobre segurança em territórios indígenas. “O caminho a seguir é uma necessária transformação territorial para conter as economias ilegais, porque a história mostra que respostas exclusivamente militares não funcionam”.
Hoetmer menciona ainda que a melhor estratégia de segurança em territórios indígenas é o respeito aos seus direitos, à autodeterminação e à participação popular. “Os povos indígenas devem ser vistos como um elemento estratégico central para enfrentar o problema. Mas, obviamente, eles não podem fazer isso sozinhos; precisam ser apoiados, amparados e complementados por atores estatais”.
Herlin Odicio, vice-presidente da Organização Regional Aidesep Ucayali (ORAU), também do Peru, destaca que, entre os mecanismos que desenvolveram para combater as economias ilegais, estão os guardas indígenas. “Dentro do nosso território, não temos outra escolha senão nos proteger para continuar existindo. Os guardas indígenas são irmãos e irmãs das comunidades que zelam por seus territórios. Trabalhamos com aliados na implementação de equipamentos como drones e câmeras que podem ajudar no monitoramento dos territórios, mas precisamos de mais recursos”.
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