O discernimento deve acompanhar a fé movida pela emoção. Artigo de Consuelo Vélez

Foto: K. Mitch Hodge/Unplash

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30 Abril 2026

"A absolutização da emoção é uma das características definidoras da pós-modernidade. 'Penso, logo existo' está sendo substituído por 'Sinto, logo existo'. Mas a emoção por si só leva à imediatidade e ao momento presente, e no contexto da fé isso pode levar à dependência dos sentimentos – frequentemente fortalecida em ambientes de grupo. A emoção é facilmente manipulada e pode até mesmo levar ao abuso espiritual", escreve Consuelo Vélez, teóloga colombiana, em artigo publicado por Global Sister Report, 29-04-2026.

Eis o artigo.

Recentemente, na Espanha, tem-se falado de uma conversão ao catolicismo entre os jovens, visível na música de inspiração religiosa e em grupos que atraem um número significativo de jovens que se reúnem para rezar, cantar, adorar a Eucaristia e participar de outras expressões que tornam visível a sua fé.

Esse fenômeno não se limita à Espanha. Na América Latina (e provavelmente em outras partes do mundo), grupos semelhantes surgiram — não apenas entre jovens, embora com forte participação juvenil — oferecendo retiros de fim de semana marcados por testemunhos de conversão e diversas práticas de oração ou expressões litúrgicas que geram forte impacto emocional nos participantes. Como resultado, muitos permanecem conectados aos grupos que promovem essas experiências e as igrejas (ou pelo menos suas comunidades) veem uma participação crescente, e as práticas religiosas são revitalizadas de maneiras que parecem confirmar essa chamada virada católica que vem sendo discutida atualmente.

Pessoalmente, tenho dúvidas sobre essas experiências. Elas me lembram a ascensão dos chamados "novos movimentos eclesiais", fortemente apoiados pelo Papa João Paulo II, alguns dos quais, com o tempo, revelaram uma falta de coerência entre o que afirmavam viver e o que foi posteriormente observado. Alguns fundadores e membros desses movimentos ou comunidades religiosas mais recentes foram considerados culpados de pedofilia, abuso sexual e abuso psicológico contra seus membros ou aqueles a quem serviam. Não todos os grupos, mas muitos. Muitos desses movimentos ainda existem hoje (apenas alguns foram dissolvidos), o que me custa a entender. É difícil compreender por que um carisma continuaria a ser seguido quando está associado a abusos tão graves. No entanto, é assim que as estruturas funcionam — sejam civis ou eclesiais: uma vez consolidadas, são muito difíceis de desmantelar, mesmo quando seus fundamentos são questionáveis.

O que mais me preocupa nos grupos atuais é o tradicionalismo doutrinal que muitas vezes demonstram, o qual parece estar muito distante do espírito do Concílio Vaticano II e da visão sinodal através da qual o Papa Francisco — e agora o Papa Leão XIV — procuram renovar a Igreja.

Uma nota doutrinal publicada recentemente pela Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola, intitulada Cor ad Cor Loquitur ("O coração fala ao coração"), sobre o papel das emoções no ato de fé, responde precisamente a essas experiências.

O documento não menciona explicitamente o tradicionalismo doutrinal, que acredito acompanhar essas experiências, mas enfatiza a "emocionalidade" como um elemento definidor dessas novas expressões religiosas. Também destaca a necessidade de uma espiritualidade que integre todas as dimensões da pessoa humana e apela ao discernimento em relação a tais experiências — discernimento exercido pela autoridade eclesial como garante da autenticidade da fé e dessas novas iniciativas.

A nota se refere explicitamente a experiências centradas na "proclamação inicial" da fé, que, embora pareçam frutíferas, suscitam preocupações devido à sua parcialidade em relação às emoções e à dificuldade de integração na vida mais ampla da igreja.

O documento está dividido em duas partes principais. A primeira explica a importância das emoções na experiência da fé e a necessidade de incluir todas as outras dimensões humanas. A segunda oferece critérios para discernir esses tipos de experiências espirituais.

Sobre o primeiro ponto, faz afirmações importantes para viver a fé de forma autêntica. A fé deve envolver a pessoa por inteiro: as dimensões afetiva, intelectual e volitiva. Portanto, se a emotividade for enfatizada em excesso, corre-se o risco de nos tornarmos "consumidores de experiências emocionalmente intensas e insaciáveis ​​buscadores de sentimentos espirituais", em vez de testemunhas de Cristo, conformadas à Sua vida. O centro da mensagem cristã é o mistério pascal, que transformou a história e é capaz de transformar toda vida humana. Por essa razão, todo "impacto emocional" deve também ser expresso em ação concreta.

A absolutização da emoção é uma das características definidoras da pós-modernidade. "Penso, logo existo" está sendo substituído por "Sinto, logo existo". Mas a emoção por si só leva à imediatidade e ao momento presente, e no contexto da fé isso pode levar à dependência dos sentimentos — frequentemente fortalecida em ambientes de grupo. A emoção é facilmente manipulada e pode até mesmo levar ao abuso espiritual.

Uma experiência de fé baseada unicamente na emoção pode levar as pessoas a acreditarem que estão tendo experiências místicas. No entanto, essa não era a experiência dos grandes místicos. Eles também conheceram a noite escura da fé e integraram todo o seu ser na jornada da crença.

Ao mesmo tempo, a nota não nega a importância dos sentimentos na vida espiritual ou, em outras palavras, a necessidade de recuperar a centralidade do "coração" na pessoa humana — o lugar da decisão, da verdade, do encontro e da aliança. De fato, documentos magisteriais recentes como Caritas in Veritate (Bento XVI, 2009) e Dilexit Nos (Francisco, 2024) apelam a uma renovada valorização do coração na vida cristã, uma vez que este integra as dimensões afetiva, corporal, racional, intelectual e volitiva, juntamente com o compromisso. Desta forma, a fé torna-se um evento totalizante na vida do crente.

Por todas essas razões, a Comissão para a Doutrina da Fé propõe os seguintes critérios teológico-pastorais para discernir tais experiências espirituais:

  • Nossa fé é trinitária, o que liberta os fiéis do individualismo e os abre para a comunidade.

  • A fé tem uma dimensão pessoal que vai além de regras e envolve um encontro com a pessoa de Jesus. Esse encontro traz alegria, mas também o chamado para carregar a cruz com Cristo.

  • Além da sua dimensão pessoal, a fé possui uma dimensão objetiva, que exige uma formação doutrinal mais profunda. A formação torna-se essencial para a integração da verdade e do amor. A experiência emocional da fé deve estar fundamentada na verdade objetiva do querigma, contida na Palavra de Deus, tal como transmitida e interpretada pela Igreja.

  • Pela própria lógica da encarnação, nosso encontro com Deus é sempre mediado pela Igreja. Uma autêntica experiência eclesial de fé não absolutiza o carisma de um grupo específico, mas reconhece a riqueza do todo. Novos grupos necessitam de discernimento quanto à sua autenticidade e de supervisão adequada por parte das autoridades eclesiais. O papel destas não é extinguir o Espírito, mas sim prová-lo e manter-se firmes no que é bom. Um verdadeiro sinal de vida eclesial é a disposição de submeter essas práticas ao discernimento dos bispos e dos órgãos diocesanos competentes.

  • A dimensão ética e caritativa é sinal de um verdadeiro encontro com Cristo — um encontro que não só transforma a vida interior do crente, mas também o impulsiona a um compromisso concreto dentro da Igreja e no mundo. A fé deve tomar forma na caridade para com os mais pobres, no testemunho e no serviço que ajudam a transfigurar o mundo, tornando presentes nele os valores do Reino.

  • Finalmente, a experiência da fé requer uma dimensão celebratória que não pode ser reduzida à oração individual ou ao mero devocionalismo, mas inclui necessariamente a vida comunitária, objetiva e sacramental da Igreja. A este respeito, a nota adverte contra as chamadas "adorações eucarísticas" quando estas se desvinculam da celebração litúrgica e da pertença de todos os fiéis ao Corpo de Cristo.

Embora esta nota doutrinal seja dirigida à Igreja espanhola, a presença desses grupos — ou de uma espiritualidade mais centrada na emoção — não se limita a um único país. É importante que todos nós discernamos sua relevância e aplicação nos diversos contextos em que estão surgindo. É verdade que não devemos "extinguir" o Espírito, que sempre renova todas as coisas. Contudo, é também uma responsabilidade moral discernir suas manifestações, especialmente à luz das experiências muito recentes com tantos lobos em pele de cordeiro.

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