30 Abril 2026
No domingo, 26 de abril, na cidade caribenha de Santa Marta, na Colômbia, católicos se reuniram para a Missa na Basílica Catedral de Santa Marta para rezar pelos trabalhos em andamento a seis milhas costa adentro, com o objetivo de desenvolver um caminho justo e realista para um mundo sem combustíveis fósseis, o principal motor das mudanças climáticas.
A reportagem é de Brian Roewe, correspondente de meio ambiente do National Catholic Reporter, publicada em 28-04-2026.
A 1ª Conferência sobre a Transição para Além dos Combustíveis Fósseis começou em 24 de abril no histórico porto carbonífero do norte da Colômbia, que coorganiza o encontro com os Países Baixos. No centro das discussões está como viabilizar e acelerar a transição do carvão, do petróleo e do gás como fonte de energia. Quando queimados, esses combustíveis liberam emissões de gases de efeito estufa que aprisionam o calor e são as principais responsáveis pelo aumento de tempestades extremas, ondas de calor, secas, inundações e elevação do nível do mar em todo o mundo.
Mais de 50 países, denominados uma "coalizão dos dispostos", participam de dois dias de reuniões de alto nível. A Santa Sé deverá participar dessas discussões como observadora, e mais de duas dezenas de organizações católicas têm representantes em Santa Marta.
"O clima é incrível", disse Lisa Sullivan, diretora sênior de programas em ecologia integral do Maryknoll Office for Global Concerns, que participou da liturgia. "Há uma quantidade enorme de esperança."
Embora planejada meses antes da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, o encontro de 24 a 29 de abril ocorre em um momento em que esse conflito bloqueou 20% do fornecimento global de petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz e perturbou os mercados de energia, os preços da gasolina, dos fertilizantes, dos alimentos e de outros bens em todo o mundo.
"Acho que isso ajudou a trazer uma clareza incrível para a questão, porque os combustíveis fósseis não são apenas a causa das mudanças climáticas, mas também da insegurança extrema, de crises nacionais, de guerras etc.", disse Sullivan ao EarthBeat.
Os Estados Unidos, que redobraram a aposta na expansão dos combustíveis fósseis sob o governo Trump, não foram convidados para Santa Marta, assim como a China e outros países que bloquearam os esforços internacionais para sequer propor um plano de eliminação dos combustíveis fósseis na última década desde a adoção do Acordo de Paris. Apesar dessas ausências, os países reunidos na Colômbia representam um terço da demanda global de petróleo e um quinto da produção de combustíveis fósseis — entre eles Austrália, Brasil, Canadá, França, Alemanha, Nigéria e o Reino Unido — além de numerosos Estados insulares na linha de frente das mudanças climáticas.
"É um espaço que está mudando a conversa do 'se' para o 'como'", disse Madeleine Alisa Wörner, conselheira de política climática e energética internacional da Misereor, organização de desenvolvimento dos bispos alemães.
"A Conferência de Santa Marta é um ponto de inflexão moral", disse Yeb Saño, presidente do conselho do Movimento Laudato Si', em uma declaração. "Como pessoas de fé, não podemos permanecer neutros enquanto a expansão contínua dos combustíveis fósseis aprofunda o sofrimento dos pobres, prejudica comunidades vulneráveis e coloca em perigo nossa casa comum. Este é o momento de transformar nossa fé em ação, de nos solidarizarmos com os mais afetados e ajudar a construir um futuro enraizado na justiça, na paz e no cuidado da criação."
Autoridades colombianas e holandesas deixaram claro que a Conferência de Santa Marta é um primeiro passo e uma primeira tentativa formal de uma discussão mais matizada que esteve quase completamente ausente das cúpulas anuais de mudança climática das Nações Unidas. A conferência está centrada em três tópicos principais: superar a dependência econômica dos combustíveis fósseis, transformar a oferta e a demanda de energia em direção às renováveis, e aumentar a cooperação internacional.
Autoridades afirmaram que o encontro visa complementar, e não substituir, os processos climáticos oficiais da ONU. Também esclareceram que não se trata de um espaço de negociação para um tratado proposto de eliminação dos combustíveis fósseis — embora representantes desse esforço estejam presentes e um acordo internacional já tenha sido levantado como um caminho possível.
"Precisamos avançar da discussão sobre se precisamos ou não fazer a transição para a fase de implementação" de como tornar possível, viável e equânime uma mudança global dos combustíveis fósseis, disse Daniela Durán, assessora do Ministério do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia.
Sob o Acordo de Paris, os países se comprometeram a reduzir drasticamente as emissões a zero líquido até meados do século. Mas esse pacto não ditou como eliminar as emissões e omitiu inteiramente as palavras "combustíveis fósseis". Em 30 anos de conferências climáticas da ONU, apenas uma vez — em 2023, na COP28 em Dubai — foi reconhecida a necessidade de transição dos combustíveis fósseis.
Estudos científicos concluíram repetidamente que reduções rápidas e substanciais no uso de combustíveis fósseis são necessárias para evitar os piores impactos das mudanças climáticas. Cada um dos últimos 11 anos foi o mais quente já registrado. O aumento médio de temperatura deverá chegar a 2,3 a 2,8 graus Celsius até o final do século — uma melhora em relação às previsões de 4°C antes da adoção do Acordo de Paris em 2015, mas muito acima do limite de 1,5°C.
Organizações católicas que trabalham em questões climáticas e ambientais aguardaram com expectativa a Conferência de Santa Marta desde seu anúncio em novembro, na COP30 em Belém. Antes da conferência, as conferências episcopais continentais da África, Ásia e América Latina manifestaram seu apoio e convocaram os países a adotar um tratado de eliminação dos combustíveis fósseis "como um imperativo moral e político".
"Um mundo livre de combustíveis fósseis, justo e em paz, é possível e necessário", escreveram os três cardeais-presidentes do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM), do Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar (SECAM) e da Federação das Conferências Episcopais da Ásia (FABC).
Uma declaração conjunta de 20 organizações de fé presentes na Colômbia lançou um apelo próprio por um tratado sobre combustíveis fósseis e se comprometeu a educar suas comunidades e pressionar os parlamentares eleitos para apoiar tal acordo. Entre as 24 organizações católicas presentes em Santa Marta estão o CELAM, a Caritas Internationalis, o Movimento Laudato Si', a Pax Christi Internacional, a CIDSE, a Rede Eclesial Pan-Amazônica e a Rede Eclesial Ecológica Mesoamericana. A delegação da Santa Sé inclui Monsenhor In Je Hwan, encarregado de negócios da Nunciatura Colombiana, e Dom Juan Carlos Barreto, bispo presidente da Caritas Colômbia.
Uma declaração conjunta organizada pela CIDSE — a rede europeia de organizações católicas de justiça social — e assinada por mais de 30 outras organizações católicas propôs um conjunto de princípios orientadores e recomendações para uma transição justa e equitativa dos combustíveis fósseis. Esses princípios incluem: redirecionamento das finanças globais dos combustíveis fósseis para fontes de energia renovável; minimização da necessidade de minerais críticos; garantia de que os direitos humanos façam parte das estratégias de transição; e envolvimento de todas as partes interessadas — incluindo comunidades indígenas e locais e trabalhadores da indústria de combustíveis fósseis — na tomada de decisões.
Além da Missa de domingo, os católicos realizaram ao longo do fim de semana um dia de ação, com foco nos impactos da extração de combustíveis fósseis nas comunidades de três dioceses colombianas. Também participaram de discussões com outras organizações de fé, da sociedade civil e comunidades indígenas.
Wörner disse que os primeiros dias da conferência de Santa Marta foram livres dos debates que têm travado as conferências climáticas da ONU. Ela afirmou que era importante a presença dos católicos para trazer clareza moral e enquadrar a transição dos combustíveis fósseis não apenas como um desafio econômico ou tecnológico, mas em termos de justiça, dignidade e responsabilidade para com as gerações presentes e futuras.
Na abertura da conferência, as Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo dos EUA e do Canadá realizaram uma vigília virtual para rezar pelos participantes e por um avanço rumo ao fim da era dos combustíveis fósseis. Em certo momento, os participantes foram convidados a imaginar como seria um mundo futuro livre de combustíveis fósseis. Suas respostas teceram um quadro de panoramas claros e límpidos, menos dutos, e carregadores elétricos superando em número os postos de gasolina.
Com a guerra em andamento no Oriente Médio em mente, a irmã Regina Bechtle, das Filhas da Caridade, do Bronx, Nova York, apresentou sua própria visão: "Armas em moinhos de vento."
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