A vocação feminina na Igreja: entre esperança e exclusão. Artigo de Merce Saiz

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29 Abril 2026

"É imperativa uma mudança que reconheça a vocação feminina em sua totalidade, superando preconceitos anacrônicos e permitindo que todos os chamados, sem distinção de gênero, floresçam plenamente a serviço da Igreja e do mundo", escreve Merce Saiz, em artigo publicado em seu Facebook, 25-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A recente eleição de uma mulher como Arcebispa de Canterbury representa um ponto de virada significativo, não apenas para a superação das barreiras de gênero, mas também pelas profundas qualificações e experiência de vida da candidata.

Sua trajetória como enfermeira oncológica, profissão que a expôs às realidades mais duras e humanitárias da vida, conferiu-lhe excepcional sensibilidade e empatia.

Esses momentos cruciais, vivenciados pela proximidade com o sofrimento e a fragilidade humana, são um testemunho da capacidade de serviço e de amor que emana de sua pessoa, qualidades intrínsecas a qualquer vocação de profundo serviço.

Embora a acolhida do Papa no Vaticano seja um gesto de abertura apreciado, não pode ofuscar a profunda tristeza que surge da impossibilidade de um diálogo sincero e honesto para as mulheres dentro da Igreja Católica Romana.

A vocação ao ministério, a ação do Espírito Santo em nós e as razões pelas quais muros são erguidos diante desse chamado divino permanecem em um limbo de incompreensão e silêncio.

Não se trata de uma mera aspiração, mas de uma vocação profundamente sentida e vivida, que muitas vezes precisa ser cultivada em segredo, enfrentando indiferença ou — nos piores casos — excomunhão e punição, infligindo imensa dor. Apesar de nossa formação acadêmica em teologia, filosofia e antropologia, somos relegadas a um quarto escalão, pois nos consideram indignas.

A Igreja, em sua recusa em considerar a ordenação feminina, parece ignorar princípios fundamentais dos direitos humanos. Somos reconhecidas como mães, como colaboradoras em tarefas litúrgicas ou de manutenção, mas nos é negada a plenitude de nossa vocação ministerial. As respostas que sugerem a fundação de uma nova igreja ou a adesão a outras denominações que permitem a ordenação feminina, ou as ofensas que nos definem como "loucas" ou que afirmam que Jesus escolheu apenas homens, ignoram a complexidade do chamado divino e a ação do Espírito Santo, que transcende as limitações humanas e as interpretações literais.

O paradoxo de Deus ter precisado de uma mulher, Maria, para a encarnação de Jesus, evidencia a centralidade e a capacidade das mulheres no plano divino.

Embora a vida religiosa ofereça um caminho de consagração, não representa a vocação de todas as mulheres que se sentem chamadas ao ministério sacerdotal, sem tirar nenhum valor em relação a esse aspecto e reconhecendo a sua importância.

Não buscamos o poder, mas a possibilidade de viver plenamente o nosso chamado. No entanto, a Igreja parece disposta a ceder em outras frentes, como a ordenação de homens casados, em vez de considerar a ordenação feminina, perpetuando uma discriminação baseada na anatomia e não na idoneidade espiritual.

Será possível que nossa vocação para seguir o Evangelho, anunciar o Reino e trabalhar às margens da sociedade é menos válida simplesmente por sermos mulheres?

Espero fervorosamente que as esferas de tomada de decisão eclesiástica, inspiradas pelo exemplo da Arcebispa de Canterbury, possam se abrir para ouvir a nossa voz.

Que se entenda que a nossa vida de dom não é uma quimera, mas a manifestação autêntica da ação do Espírito Santo.

É imperativa uma mudança que reconheça a vocação feminina em sua totalidade, superando preconceitos anacrônicos e permitindo que todos os chamados, sem distinção de gênero, floresçam plenamente a serviço da Igreja e do mundo.

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