10 Fevereiro 2026
A recente decisão do Papa de suspender o tradicional lava-pés, geralmente realizado com prisioneiros e migrantes, gerou um amplo debate sobre os rumos da Igreja Católica no contexto contemporâneo.
O comentário é de Merce Saiz, publicado o Facebook, 04-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Essa cerimônia, símbolo de humildade e serviço, foi um pilar da mensagem pastoral do Papa Francisco, que sempre defendeu uma Igreja que se aproxima dos marginalizados e daqueles que sofrem.
Contudo, a decisão de transferir essa prática para a Basílica de São João de Latrão e limitá-la a um grupo selecionado de pessoas levanta questões sobre a verdadeira missão da Igreja e seu papel na sociedade atual.
O lava-pés, descrito no Evangelho de João (13,1-17), é um ato de humildade realizado por Jesus com seus discípulos antes da crucificação. Esse gesto não apenas simboliza o serviço, mas também estabelece um modelo de liderança baseado na compaixão e no amor ao próximo, especialmente àqueles considerados marginalizados na sociedade.
Ao envolver prisioneiros e migrantes nessa cerimônia, o Papa Francisco havia enfatizado a importância de reconhecer e dignificar aqueles que são frequentemente esquecidos ou rejeitados.
A suspensão dessa prática pode ser interpretada como um afastamento desse ideal, sugerindo que a Igreja está mais interessada em manter tradições cerimoniais do que em viver os ensinamentos de Cristo.
A dualidade entre tradição e modernidade
A decisão de limitar o lava-pés a um contexto mais controlado e cerimonial poderia ser vista como uma tentativa de preservar a solenidade da Missa da Quinta-feira Santa. No entanto, essa ação também reflete uma tensão intrínseca na Igreja entre tradição e modernidade. À medida que a sociedade evolui, as instituições religiosas enfrentam o desafio de se adaptar sem perder sua essência.
A Igreja Católica, em particular, tem lutado com essa dualidade, sendo frequentemente criticada por sua resistência à mudança.
A suspensão do lava-pés pode ser vista como um retrocesso nos esforços para revitalizar a imagem da Igreja como uma entidade atenta aos problemas sociais e àqueles que sofrem.
A desconexão com os marginalizados
O distanciamento da Igreja em relação às margens da sociedade é um tema recorrente no discurso contemporâneo. No momento em que o mundo enfrenta crises migratórias, pobreza e desigualdades, a presença da Igreja nesses espaços torna-se ainda mais crucial.
Ao optar por uma abordagem mais elitista e cerimonial, o Papa parece estar dando as costas à realidade de milhões de pessoas que lutam diariamente. Essa desconexão não apenas afeta a percepção pública da Igreja, mas também mina sua capacidade de cumprir a missão que lhe foi confiada: ser uma luz de esperança e serviço em um mundo ferido.
O cancelamento desse evento e da missa com prisioneiros e migrantes pelo Papa é mais do que uma simples decisão pastoral; reflete uma luta mais ampla dentro da Igreja Católica sobre sua identidade e seu papel no mundo moderno.
À medida que a sociedade evolui, a Igreja deve encontrar maneiras de permanecer relevante e autêntica em sua missão de serviço. A verdadeira grandeza da Igreja reside em sua capacidade de acolher os marginalizados e servir aos mais necessitados. Somente por meio de um autêntico empenho em prol desses valores a Igreja poderá aspirar a ser um agente de mudança e de esperança no mundo atual.