29 Abril 2026
"Dentro da nossa amada Igreja Católica, existem muitas formas de abuso, não apenas aquelas mais graves relatadas pela mídia. A Igreja tem uma enorme responsabilidade porque atua na esfera mais delicada da existência humana: a consciência", escreve Ramón Fandos, professor, em artigo publicado por Religión Digital, 26-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Quando falamos de clericalismo, sempre pensamos em bispos, padres e assim por diante. No entanto, existe uma forma mais sutil e danosa de clericalismo praticada por leigos. Em meus mais de vinte anos nas Comunidades Neocatecumenais, às quais me juntei com apenas 17 anos, testemunhei a transformação do carisma original em uma estrutura de dominação absoluta. O que descrevo neste artigo aconteceu exatamente como descrevo. Levei anos para entender e superar o impacto psicológico que essa "teologia" teve sobre mim. Minha intenção não é acusar nem reivindicar nada, especialmente porque nunca houve má intenção. Compartilho essa experiência porque essas práticas existem e é importante trazê-las à luz.
Sei também que muitas pessoas vivenciam esses processos sem perceber nada de problemático, e fico feliz que seja assim. Meu objetivo é trazer clareza, não apontar o dedo contra culpados. Compartilhar minha experiência permite que outros reconheçam o que sentem e permite a esse movimento, criado por Kiko Argüello, revise práticas que afetam a consciência e a liberdade interior de muitas pessoas.
O "sistema" neocatecumenal é organizado em pequenas comunidades lideradas por uma Equipe de Catequistas. Embora sejam leigos, dentro do movimento operam segundo uma "hierarquia espiritual", pois acredita-se que possuam um "carisma de discernimento" muito superior ao dos demais "irmãos". Atribui-se a eles uma autoridade conferida pelo Espírito Santo para interpretar a vontade de Deus, o que os "habilita" a julgar e decidir sobre a vida privada dos outros.
Os Segundos Escrutínios: a manipulação em estado puro
O ponto crítico desse sistema ocorre nos Segundos Escrutínios, uma espécie de "tribunal de consciência".
De acordo com o Direito Canônico, a privacidade e a consciência de cada crente são sagradas. No entanto, nesses escrutínios os catecúmenos questionam o catecúmeno perante toda a comunidade sobre assuntos extremamente íntimos — sexualidade, finanças, relacionamentos de casal ou problemas familiares — e depois o corrigem ou advertem com a "autoridade que lhes é conferida pelo Espírito Santo", o que garante que o que eles dizem nesses momentos seja precisamente "a vontade de Deus para a sua vida". Nas palavras por eles usadas, "o Espírito Santo fala por meio deles". Portanto, o catecúmeno deve obedecer ou viverá como um pecador fora da vontade de Deus. E, claro, tudo o que é dito e ouvido nesse contexto está sob o sigilo da confissão, sob a ameaça de pecado grave em caso de violação.
Uma das coisas que mais me chocou foi uma afirmação dirigida a um casal que acabara de explicar que queria dar um tempo antes de ter mais filhos porque o médico os havia alertado seriamente de que a vida da mãe correria grave perigo se ela engravidasse novamente. A catequista, claramente indignada e movida por um suposto "zelo pelo Evangelho", disse-lhes que, caso se recusassem a ter filhos, "suas mãos se teriam manchado de sangue". Como se o simples fato de não querer todos os filhos que "Deus queria e havia planejado" fosse uma espécie de assassinato antecipado. E nem mesmo importava que a mãe pudesse morrer durante o parto.
Se alguém duvida ou resiste a uma "ordem", é acusado de ter um "coração de pedra" ou de estar "fechado à vontade de Deus". E dia após dia, sofre uma pressão tão negativa — tanto da comunidade quanto dos catequistas — que acaba por obedecer por medo ou, se decidir sair, o faz com sérios remorsos de consciência e traumas difíceis de curar depois. Exige-se uma “obediência aos catequistas como a Cristo”. Isso anula a liberdade individual, constringindo as pessoas a tomarem decisões para a vida (deixar um emprego, ter mais filhos, vender propriedades) sob pressão psicológica.
Dentro da nossa amada Igreja Católica, existem muitas formas de abuso, não apenas aquelas mais graves relatadas pela mídia. A Igreja tem uma enorme responsabilidade porque atua na esfera mais delicada da existência humana: a consciência. E nesse âmbito, o abuso moral e psicológico é particularmente difícil de identificar e quantificar. Além disso, sempre há o inconsciente de plantão que minimiza os fatos: "Não é tão grave assim", "Se você estava lá, foi porque quis", "Você era livre", "Poderia ter ido embora". Com o tempo, ouvindo essas frases repetidamente, a pessoa acaba acreditando na própria culpa por não ter conseguido evitar a manipulação a que foi submetida. Enquanto isso, o verdadeiro responsável pelo dano é desculpado e deixando livre para continuar agindo.
Muitos de nós, católicos praticantes, entendemos até que ponto a Igreja precisa de uma mudança profunda. Não podemos continuar permitindo que a mensagem de Jesus, que cura e doa vida, seja usada por pessoas esclarecidas que se consideram uma categoria especial para decidir sobre a vida dos outros, independentemente de serem um leigo, um padre, um bispo ou um papa.
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