"Igrejas evangélicas e pentecostais também sofrem forte recuo institucional e fecham-se a qualquer teologia mais aberta. Algumas defendem claramente o sionismo. A cultura gospel tenta ressuscitar o judaísmo do templo de Jerusalém e não dos profetas do Primeiro Testamento. Criam um Cristo-rei para ser adorado e aplaudido, mas não para ser seguido."
O artigo é de Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e escritor, publicado em abril de 2026. Barros assessora movimentos sociais e comunidades eclesiais de base e é membro da Comissão Teológica da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo.

Marcelo Barros (Foto: Arquivo pessoal)
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
A Teologia da Libertação está tão bem, que se diversificou em várias. Hoje, existe ampla produção de Ecoteologia, teologias negras, indígenas, feministas, queers e outras, pensadas a partir da comunhão com os povos empobrecidos e construídas em um método, como o ver, julgar e agir. Portanto, objetivos e métodos, fiéis à natureza da primeira teologia da libertação. E essas teologias formam uma família com a Teologia Pública, Teologias Decoloniais, Teologia da Missão Integral e outras que interpretam a fé como compromisso de "libertação de toda humanidade e de cada ser humano, em toda a sua integralidade, ou seja, por inteiro" (Med 5, 15).
O bispo Pedro Casaldáliga insistia que, enquanto houver pessoas empobrecidas e a iniquidade da opressão social e política, sempre haverá teologias da libertação. Como no mundo atual a desigualdade econômica é muito maior e a realidade das classes oprimidas muito pior, as teologias da libertação são mais necessárias e mais atuais do que nunca.
De fato, apesar de marginalizadas e ignoradas por parte de amplos setores das instituições eclesiásticas, as teologias da libertação já não são apenas latino-americanas, mas mundiais. Desde 2003, o Fórum Mundial de Teologia e Libertação tem acompanhado cada sessão do Fórum Social Mundial e reúne teólogos e teólogas dos mais diversos continentes.
Na América Latina, desde os séculos da colonização, cristãos e cristãs sempre se engajaram em lutas de libertação. No entanto, faziam isso como cidadãos, conscientes de que as hierarquias de suas Igrejas ficavam sempre do lado do opressor. Em 1961, o Conselho Mundial de Igrejas realizou sua primeira assembleia geral no mundo dos pobres (Nova Délhi) e propôs às Igrejas-membros o cuidado de sempre unir fé e justiça social. Do mesmo modo, em 1965, em Roma, o Concílio Vaticano II propunha às comunidades católicas situar-se no mundo de forma solidária com todas as dores da humanidade. A partir de então, amplos setores de Igrejas relacionam espiritualidade e compromisso social.
De fato, as teologias da libertação só surgiram porque, antes — aqui e ali —, vivia-se o que Michael Lowy chama de "Cristianismo da Libertação" [1]. Nos escritórios e academias podem até surgir teologias sobre a libertação, e essas podem ser boas e úteis, mas teologia da libertação só brota das experiências de base e a partir da práxis libertadora do povo oprimido.
Isso é, hoje, um desafio enorme, porque, nas últimas décadas, o mundo em torno de nós — e com ele as estruturas eclesiásticas — tornaram-se sempre mais conservadoras e autorreferentes. Apesar de que o Papa Francisco insistia que o modelo de Igreja-Cristandade morreu, não conseguiu convencer disso a maioria dos bispos, padres e grupos católicos. A cada dia, esses eclesiásticos agem como se entrassem na máquina do tempo do professor Pardal, personagem dos gibis de Pato Donald, para viver no século XIX. Como se, diante da crise estrutural das Igrejas, a solução fosse refugiar-se no passado e nas aparências externas de poder sagrado.
É claro que esse tipo de dioceses, paróquias, conventos, mosteiros e grupos católicos não precisa de teólogos — nem da libertação e nem tradicionais. Para que pensar? Qual a teologia dos padres e religiosos da madrugada, das associações católicas "independentes" e da maioria dos padres cantores e de alguns mosteiros que conhecemos?
Igrejas evangélicas e pentecostais também sofrem forte recuo institucional e fecham-se a qualquer teologia mais aberta. Algumas defendem claramente o sionismo. A cultura gospel tenta ressuscitar o judaísmo do templo de Jerusalém e não dos profetas do Primeiro Testamento. Criam um Cristo-rei para ser adorado e aplaudido, mas não para ser seguido.
Atualmente, em quase nenhum lugar do mundo, a cultura política é, de fato, laical. Nos Estados Unidos, Trump parece um louco que abusa do poder. No entanto, de fato, ele cumpre, ao pé da letra, um Documento de Segurança Nacional, assinado por autoridades do mais alto nível do executivo do seu país, que expressa a convicção de que a vocação dos Estados Unidos é ser "o novo povo eleito de Deus", com a missão de dominar o mundo, para o bem e para destruir os agentes do mal. Isso interpela-nos como seres humanos do século XXI, como cristãos e cristãs, e desafia as Teologias da Libertação.
Infelizmente, esses desvarios não são apenas expressões fanáticas de fundamentalismo religioso. Sem dúvida, contêm muito disso, mas o pior é que esse modo de ver e expressar a fé é, infelizmente, consequência lógica — embora radicalizada — de uma espiritualidade e uma teologia que legitimou a conquista e a colonização das Américas. Uma teologia que conviveu, tranquilamente, com o estatuto da escravidão e com a guerra contra os povos originários, e ainda está presente na linguagem do Missal, na forma de orar de alguns hinos e nas pregações eclesiásticas que continuam a dividir o sagrado do profano, o terreno e o eterno, e separam as pessoas entre santas e pecadoras.
A violência não acontece de uma hora para outra; sabemos que é um processo cíclico, complexo, que vai enredando tudo e todos, como um vírus que se alastra e gera uma epidemia. É importante perceber que esse vírus se alastra sob a máscara da religiosidade e legitima discriminações sociais e morais. Não contagia apenas os setores mais tradicionais e na extrema-direita. Aparece latente no cotidiano de muitas paróquias, comunidades de esquinas de ruas e praças em nossas cidades. Será que conseguimos perceber onde essa epidemia inicia? Onde esse vírus deposita suas sementes? Atualmente, vivemos em uma realidade eclesial na qual os próprios teólogos e teólogas se autocensuram para conseguir aceitação por parte da hierarquia e do clero. A dificuldade não é só das Teologias da Libertação e sim de toda e qualquer teologia que não seja apenas curial e repetição servil dos documentos eclesiásticos. Criticar governo e estruturas políticas ainda é possível. Criticar a hierarquia e o clero é mais difícil.
Essa realidade de inverno eclesial se prolonga e parece piorar cada vez mais. Isso obriga as Teologias da Libertação a ficarem quase só restritas à academia — o campo da inserção se restringiu muito — e faz com que alguns irmãos e irmãs não consigam escapar de certo academicismo.
Isso é muito grave, porque, ainda no começo dos anos 1980, em um congresso de teologia em Montevidéu, o teólogo Hugo Assmann, um dos pioneiros das Teologias da Libertação, afirmava:
"Se a situação histórica de dois terços da humanidade, com seus milhões de mortos de fome e desnutrição não se converte em ponto de partida de toda teologia cristã hoje, a teologia não poderá aplicar seus temas fundamentais à história concreta. Suas perguntas não serão perguntas reais. É necessário salvar a teologia e a fé do seu cinismo. Porque, realmente, diante dos problemas do mundo de hoje, muitos escritos de teologia se reduzem a um exercício de cinismo." [2]
Nesse tempo pascal, devemos perguntar-nos se continuamos a angustiar-nos com o problema que Gustavo Gutierrez usou como título de um de seus livros mais tocantes: "Onde dormirão os pobres?" [3].
Seja como for e apesar disso tudo, as Teologias da Libertação estão, sim, muito bem, obrigado, porque sobre elas poderíamos cantar como canta a canção argentina "Como la Cigarra", que Mercedes Sosa imortalizou:
Tantas veces me mataron
Tantas veces me morí
Sin embargo, estoy aquí
Resucitando
Gracias doy a la desgracia
Y a la mano con puñal
Porque me mató tan mal
Y seguí cantando
Cantando al Sol como la cigarra
Después de un año bajo la tierra
Igual que sobreviviente
Que vuelve de la guerra [4]
[1] LOWY, Michael. O que é Cristianismo da Libertação. São Paulo: Expressão Popular, 2024.
[2] Em HUGO ASSMANN e JUNG MO SUNG, Deus em nós. São Paulo: Paulus, 2009, p. 12.
[3] GUTIERREZ, Gustavo. Onde dormirão os pobres? São Paulo: Paulus, 1998.
[4] Como la Cigarra é composição argentina de Maria Helena Walsh; no Brasil foi traduzida e adaptada por Renato Teixeira.