Depois de 50 anos, “A Teologia da Libertação” de Gutiérrez ainda está em curso

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22 Dezembro 2021

 

“Cinquenta anos é muito tempo, e a história da Teologia da Libertação está repleta de altos e baixos. Ela foi elogiada e adotada em todo o mundo. Também foi criticada e caricaturada. Muitos mártires pagaram o preço final por seguir seu chamado do Evangelho. Às vezes, seus 'amigos', que afirmavam se inspirar nela, entendiam menos do que seus oponentes. Sua morte foi declarada prematuramente muitas vezes. No entanto, uma coisa permanece clara: “A Teologia da Libertação” demonstra o poder da fé quando aborda com honestidade e coragem o que está acontecendo”, escreve Michael E. Lee, professor de Teologia Sistemática na Fordham University, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 20-12-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

É tentador, enquanto refletimos sobre “A Teologia da Libertação””, o livro de 1971 do padre peruano Gustavo Gutiérrez, compará-lo a dois musicais do mesmo ano: a estreia de “Jesus Cristo Superstar” na Broadway e a estreia de “Godspell” nos pequenos teatros.

Afinal, Jesus figura com destaque em todas essas obras. Porém, enquanto os musicais serviam de interpretações modernizadas de Jesus e de seus seguidores, se a ideia é que o texto de Gutiérrez fosse simplesmente uma forma de atualizar um Jesus latino-americano – o filho de Deus com uma camiseta do Che Guevara – então falhou muito, pois foram enormes as contribuições deste marcante trabalho.

Não, a melhor metáfora cultural de 1971 é o álbum de Marvin GayeWhat's Going On?”. Pois assim como Gaye rompeu com a máquina de sucesso da Motown para explorar temas como a guerra do Vietnã, a pobreza e a crise ecológica, Gutiérrez forçou os cristãos a ouvir a voz de Deus em meio ao sofrimento do mundo e a perguntar se o discurso da Igreja sobre salvação significava qualquer coisa para sua libertação.

O fato de este livro gerar talvez o movimento teológico mais influente e mais controverso da última metade do século é um tanto surpreendente. O livro não contém passagens inflamatórias. Não exige uma rebelião armada. Nem se envolve no tipo de ataques polêmicos que hoje passam por discurso público. No entanto, da maneira como oferece um diagnóstico dos males do nosso mundo e uma visão de como a Igreja pode ajudar a transformá-los, “A Teologia da Libertação” continua tão relevante hoje quanto era há meio século.

Gutiérrez, um padre dominicano agora com 93 anos, escreveu o livro depois do Concílio Vaticano II, quando grande parte da teologia católica estava se afastando do estilo dedutivo de uma geração anterior (como o Catecismo de Baltimore) para um indutivo que levava em consideração a experiência humana. No entanto, ainda faltava algo. Embora o concílio tenha feito muito para reconhecer pessoas de outras religiões e, na verdade, sem religião alguma, ele apenas vagamente percebeu a situação das “não-pessoas” que hoje ainda constituem a maioria da população do planeta. “A Teologia da Libertação” desafia todo discurso sobre Deus, colocando suas experiências no centro da reflexão.

Se há uma coisa que aprendemos nos últimos anos é que os grandes problemas que enfrentamos, como o racismo, a pobreza e a crise climática, são de natureza estrutural. Eles têm uma longa história e estão inseridos socialmente de maneiras que muitas vezes são mascaradas na vida cotidiana. “A Teologia da Libertação” leva esse insight estrutural para se envolver e aprofundar a teologia cristã.

Considere, por exemplo, o pecado. Se o pecado conota meramente violações da conduta moral pessoal e interpessoal, então ele não pode explicar a Shoá, o tráfico de escravos ou a conquista das Américas. Não é que os pecados pessoais não existam ou não sejam importantes, mas se os cristãos não respondem por esses grandes pecados sociais, então eles não são capazes de abordar as maneiras significativas pelas quais o mundo contradiz a vontade de Deus para o florescimento humano e planetário.

Infelizmente, enquanto Gutiérrez pesquisava a história e a teologia do Cristianismo desde a chegada de Colombo, ele percebeu que a mensagem de salvação da Igreja muitas vezes não abordava esse profundo senso de libertação humana. Na verdade, a história mostrou uma Igreja que ignorou totalmente o sofrimento mundano ou o considerou apenas um vale de lágrimas na jornada para a eternidade. Nesse tempo, protegeu-se legitimando elites poderosas no interesse de manter o status quo.

Se isso soa muito como a religião “ópio do povo” criticada por Karl Marx, então começamos a entender as afinidades entre o marxismo e a teologia da libertação. No entanto, é errado igualá-los. Embora Gutiérrez se empenhasse em alguns dos diagnósticos políticos e econômicos de certos pensadores marxistas da época, seu trabalho se baseia em outra fonte – a Bíblia.

Como observou o teólogo Gaspar Martinez, “A Teologia da Libertação” cita 45 livros diferentes da Bíblia para um total de 405 referências. Embora o rótulo “comunista” servisse como um epíteto conveniente, a oposição veemente e frequentemente violenta à teologia da libertação originou-se das verdades incômodas que essa virada nas escrituras revelou. Como a oposição à teoria crítica da raça hoje, é perturbador ter a história e a realidade de uma instituição questionada desde dentro. Como Moisés, os profetas e o próprio Jesus, a teologia da libertação denunciou tiranias que significaram escravidão para tantos.

Por mais poderosa que seja sua crítica profética, “A Teologia da Libertação” também apresenta uma visão positiva resumida em uma definição mais básica de salvação – comunhão com Deus e com os outros. No entanto, essa frase simples produz implicações profundas quando leva a sério o que está acontecendo no mundo e como isso pode afetar a maneira como as crenças cristãs centrais são compreendidas.

A Teologia da Libertação” seria fácil de descartar se simplesmente abandonasse a tradição cristã. Mas não é uma questão de Jesus como um libertador contra Jesus como Deus-humano. O desafio da teologia da libertação é entender Jesus como Deus feito carne e então perguntar como a Igreja pode ser mais parecida com Jesus e se encarnar no mundo. Não, não nos centros de poder e riqueza, mas nas periferias que anseiam por boas notícias.

Na verdade, por tanto falar sobre a secularização como o grande desafio para a fé hoje, uma teologia da libertação sugere que é a idolatria, mais do que a descrença, o nosso grande desafio. O catolicismo que mima as elites corporativas e políticas é muito mais uma pseudo-religião do que uma que marcha em protesto contra as violações dos direitos humanos e o racismo sistêmico.

Isso sinaliza outro grande insight no livro de Gutiérrez: há uma conexão estreita entre a autocompreensão da Igreja e como ela age no mundo. Esta não é uma ideia meramente abstrata. Se o mundo não importa, ou pior ainda, se ele deve ser desprezado, então não há razão para a Igreja mostrar misericórdia ou resolver seus problemas. Pode proclamar arrogantemente que “fora da igreja não há salvação” e se ocupar com seu próprio poder e interesses.

Gutiérrez reconheceu que a compreensão da Igreja (eclesiologia) está intimamente ligada à doutrina, culto e prática pastoral. É por isso que, por exemplo, devemos ver que a missa tridentina em língua latina não é apenas um item em um menu litúrgico de opções hoje. É parte de uma teologia e visão de mundo mais amplos que a Igreja não mais mantém.

Embora Gutiérrez pudesse se basear em várias imagens da Igreja saindo do Vaticano II, como “povo de Deus”, ele desenvolve a imagem da Igreja como o “sacramento da salvação”. A chave para essa imagem é a maneira como um sacramento não apenas aponta para algo mais profundo, mas o torna presente.

Jesus pregou e tornou presente o Reino de Deus. A Igreja deve então, em solidariedade, fé, esperança e amor, fazer o mesmo. Como sacramento de salvação, a Igreja empenha-se em tornar presente a comunhão com Deus e com os outros. Não é uma cancela. Não busca excluir. Em vez disso, deve se esforçar para superar as barreiras e ser um veículo de inclusão e comunhão entre todas as pessoas.

Cinquenta anos é muito tempo, e a história da Teologia da Libertação está repleta de altos e baixos. Ela foi elogiada e adotada em todo o mundo. Também foi criticada e caricaturada. Muitos mártires pagaram o preço final por seguir seu chamado do Evangelho.

Às vezes, seus “amigos”, que afirmavam se inspirar nela, entendiam menos do que seus oponentes. Sua morte foi declarada prematuramente muitas vezes. No entanto, uma coisa permanece clara: “A Teologia da Libertação” demonstra o poder da fé quando aborda com honestidade e coragem o que está acontecendo.

 

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