“Os povos indígenas são guardiões de conhecimentos essenciais para toda a humanidade”. Entrevista especial com Caroline Hilgert e dom Neri José Tondello

Assessora jurídica do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e bispo da Diocese de Juína refletem sobre os desafios da cultura do encontro entre indígenas e não indígenas na sociedade brasileira e relembram a memória do jesuíta Vicente Cañas, que viveu com povos isolados na década de 1970, entre eles, os Enawenê-nawê, no Mato Grosso

Arte: Mateus Dias | IHU / Imagens: Pe. Renan Dantas

Por: Patricia Fachin | 18 Abril 2026

Neste domingo, 19-04-2026, o Brasil celebra o Dia dos Povos Indígenas. A data dá visibilidade para a diversidade, a cultura e a resistência dos 391 povos que vivem no país e traz à tona as inúmeras dificuldades e preconceitos enfrentados por eles diariamente. Uma delas é o acesso à terra. Não à toa, a reivindicação central dos participantes da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) foi a demarcação das terras indígenas. O evento, organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), aconteceu entre os dias 05 e 11 de abril em Brasília.

“Há centenas de anos esses povos estão brigando por condições dignas de vida e de acesso à terra. Corremos tanto na sociedade ocidental, criamos tantas formas de burlar o tempo, temos tantas máquinas para fazer tantas atividades, mas quando a questão é a terra, parece que não há pressa para a resolução dos problemas. Quando é para os outros continuarem numa vida indigna, o tempo fica parado. Me assusta passar todo esse tempo e ouvir sempre o mesmo discurso”, sublinha Caroline Hilgert, assessora jurídica do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que acompanha processos envolvendo as demarcações das terras indígenas no país.  

Apesar dos impedimentos que dificultam a aplicação dos direitos das comunidades, dom Neri José Tondello, bispo da Diocese de Juína, no Mato Grosso, frisa que “a presença dos povos indígenas no Brasil é anterior à colonização e marca profundamente a identidade do país”. No entanto, pontua, “desde a chegada dos europeus, esses povos enfrentam violências, expulsões de suas terras, tentativas de apagamento cultural e inúmeras injustiças. Ainda assim, resistem”.

Recentemente, Caroline Hilgert e dom Neri José Tondello participaram da celebração da Páscoa do Ir. Vicente Cañas na Diocese de Juína e na Terra Indígena dos Enawenê-nawê, no Mato Grosso. O jesuíta espanhol viveu com a comunidade entre 1974 e abril 1987, quando foi assassinado. 

Ir. Vicente Cañas (Foto: Cimi)

Natural de Alborea, na Espanha, Vicente Cañas ingressou na Companhia de Jesus aos 21 anos, em abril de 1961. Chegou ao Brasil em 19-01-1966 e, dois anos mais tarde, recebeu a missão de atuar na Prelazia de Diamantino, no Mato Grosso, onde viveu, juntamente com os padres jesuítas Antonio Iasi, Adalberto Holanda Pereira e Thomaz Lisboa, com os Tapaiúna, os Paresi, os Mÿky. Entre 1973 e 1974, eles participaram de várias expedições para contatar outros povos isolados.

Na entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Caroline Hilgert e dom Neri José Tondello recordam a celebração da Páscoa do Ir. Vicente Cañas e o enterro da calota craniana e dos últimos pertences do religioso na Terra Indígena Enawenê-nawê em 06-04-2026 e comentam a situação dos indígenas que vivem na bacia do rio Juruena, no nordeste do Mato Grosso. 

Caroline Hilgert e dom Neri José Tondello na celebração da Páscoa do Ir. Vicente Cañas (Foto: Renan Dantas)

Caroline Hilgert é advogada e assessora jurídica do Cimi e da Congregação das Irmãs de Santa Cruz (IISC), mestra em Antropologia Social e doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Dom Neri José Tondello é formado em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) e em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), mestre em Filosofia e em Teologia e doutor em Doutrina Social da Igreja pela Universidade de Granada, na Espanha.

Confira a entrevista.

IHU – No dia 06-04-2026, a Igreja celebrou a Páscoa do Ir. Vicente Cañas na Diocese de Juína, no Mato Grosso, e a calota craniana dele foi enterrada na aldeia dos Enawenê-nawê. Como foi este momento?

Caroline Hilgert – Foi um momento importante e muito simbólico, que nos permitiu sentir, na aldeia, como ele era amado, querido e como realmente morreu como Enawenê-nawê. 

Comecei a atuar no processo envolvendo o caso do Ir. Vicente há 15 anos e, felizmente, o processo foi encerrado e o delegado [Ronaldo Osmar] foi preso. O juiz autorizou que Michael Nolan [religiosa da Congregação das Irmãs de Santa Cruz, assessora das Pastorais Sociais e assessora jurídica do Cimi] e eu transportássemos o crânio e outros pertences dele de volta para a aldeia, para serem sepultados com os restos que já haviam sido sepultados anos atrás. A celebração reuniu várias pessoas, entre os jesuítas, o Cimi, a família de sangue dele, que veio da Espanha, e a família que ele escolheu, que são os Enawenê-nawê. 

Familiares do Ir. Vicente Cañas, vindos da Espanha, em frente ao barraco onde o religioso morava, na Terra Indígena Enawenê-nawê (Foto: Renan Dantas)

No primeiro sepultamento, a família espanhola não esteve presente. Dessa vez, apesar da presença dos Enawenê-nawê, a família Enawenê-nawê mais próxima dele não participou. Ao mesmo tempo, por conta do uso do uso dos celulares e da internet, todos da aldeia ficaram sabendo da celebração, porque os indígenas filmaram o encontro e divulgaram nos grupos deles. Foi algo inédito também na cultura Enawenê-nawê porque, na cultura deles, quando alguém morre, se enterra não somente o corpo, mas todos os pertences da pessoa e se fica um tempo sem falar nela. 

39 anos depois de perderem o Kiwxi, os Enawenê estiveram em contato com os pertences dele de novo, como a maleta de couro marrom que ainda estava inteira. Ele a utilizava no transporte do barraco onde vivia para a aldeia, onde levava anzóis, peixes etc. O momento em que os Enawenê viram a maleta foi muito simbólico. Expressaram uma saudade intensa. 

O enterro da calota craniana do Vicente foi feito no barraco dele e, conforme a cultura Enawenê-nawê, enterramos todos os pertences, inclusive o rosário, a maleta e a faca dele. Para os indígenas, ainda ficou faltando a presença da família Enawenê-nawê mais próxima. Se, para nós, o enterro da calota craniana encerrou esse processo, para eles, não. Ainda vão fazer um ritual com fogo. 

Visito os Enawenê-nawê todos os anos desde 2016, com a ajuda de Fausto Campoli [integrante do Cimi que atua há décadas com os Enawenê-nawê], que foi a testemunha-chave que nos permitiu ganhar o processo jurídico em 2017. Passei muitos anos indo para a aldeia, trabalhando com os Enawenê-nawê no processo criminal e no projeto do Kiwxi, mas essa foi a primeira vez que estive ali sem o Fausto, que é quem fala a língua Enawenê muito bem. Intermediei o contato entre os jesuítas, as quatro mulheres da família dele que participaram da celebração, e os Enawenê-nawê, entendendo que o Kiwxi escolheu os Enawenê-nawê e os Enawenê-nawê escolheram ele como parte do grupo. O maior desafio ali foi conciliar todas as culturas, mas continuar respeitando a cultura Enawenê-nawê como Kiwxi quis e como deve ser quando estamos na casa de alguém.

Dom Neri José Tondello – A celebração da Páscoa do Irmão Vicente Cañas constituiu-se como um momento de profunda densidade espiritual, histórica e eclesial. Não se tratou apenas de uma recordação, mas de um verdadeiro memorial pascal, no qual contemplamos a atualização do mistério de Cristo na vida de um missionário que configurou sua existência à lógica do Evangelho.

A missão da Igreja encontra sua raiz no mandato do próprio Cristo: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). Vicente Cañas viveu essa palavra de maneira radical, não apenas anunciando, mas encarnando o Evangelho na convivência concreta com o povo indígena.

À luz da Evangelii Gaudium, compreendemos que a Igreja é chamada a ser “em saída”, próxima das periferias existenciais. Vicente realizou isso de forma exemplar, assumindo uma presença profundamente inculturada junto ao povo Enawenê-nawê. Foi um momento marcado pela oração, pela escuta e pela comunhão, vivido no próprio território indígena, em sintonia com a exortação apostólica Querida Amazônia.

Celebração da Páscoa do Ir. Vicente Cañas na Diocese de Juína, Mato Grosso (Foto: Renan Dantas)

IHU – Quem esteve presente nas celebrações?

Dom Neri José Tondello – Estiveram presentes representantes da Companhia de Jesus, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Operação Amazônia Nativa (OPAN), missionários, agentes pastorais e membros da Igreja local.

De modo especial, contamos com a presença dos familiares de Vicente Cañas, vindos da Espanha. Sua participação foi profundamente significativa, tanto pelo vínculo afetivo quanto pelo testemunho histórico que preservam, oferecendo à Igreja uma dimensão concreta da memória e da humanidade do missionário.

No âmbito jurídico, esteve presente a assessora do Cimi, Caroline Hilgert, cuja atuação ao longo dos anos foi determinante no acompanhamento do caso, expressando a articulação entre memória, justiça e compromisso institucional.

Também participou o Pe. Aloir Pacini, jesuíta, doutor em antropologia e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), cuja presença une reflexão acadêmica e experiência missionária, oferecendo uma leitura aprofundada do significado eclesial e antropológico deste acontecimento.

No campo educacional, destacou-se a presença do professor Josemir Paiva Rocha, do Instituto Federal de Mato Grosso – Campus Juína, evidenciando a importância do diálogo entre o saber científico e os conhecimentos tradicionais.

Participei como bispo diocesano e, entre os presbíteros da Diocese de Juína, esteve presente exclusivamente o Pe. Renan Dantas, que, além de seu ministério presbiteral, atuou como jornalista e fotógrafo profissional, assegurando o registro documental deste momento histórico. 

Também esteve presente o Pe. Rafael, da Companhia de Jesus, que atua diretamente junto aos povos indígenas da região. 

IHU – Qual o significado do gesto de enterrar a calota craniana do Ir. Vicente, quase 40 anos depois do assassinato dele? 

Dom Neri José Tondello – Trata-se de um gesto de profunda densidade simbólica, espiritual e histórica. Durante décadas, a calota craniana permaneceu como prova material do assassinato. Sua devolução ao território indígena representa um ato de restituição, reconciliação e encerramento de um ciclo.

À luz da Laudato Si’, compreendemos que a terra não é apenas espaço físico, mas lugar de identidade, memória e pertencimento. Restituir seus restos mortais ao território é reconhecer sua pertença plena àquele povo. É, portanto, um gesto pascal: a memória da morte integrada na esperança da vida.

Celebração do enterro da calota craniana e dos últimos pertences do Ir. Vicente Cañas na Terra Indígena Enawenê-nawê (Foto: Renan Dantas)

IHU – A comunidade Enawenê-nawê se recorda do Ir. Vicente?

Dom Neri José Tondello – Sim, de forma profundamente viva. Para o povo Enawenê-nawê, Vicente é lembrado como Kiwxi  aquele que se doa por inteiro. Sua vida foi plenamente inculturada, a ponto de ser reconhecido como parte do próprio povo, inclusive em sua dimensão espiritual e cosmológica. Essa realidade encontra consonância com o Documento de Aparecida, que destaca a importância da evangelização inculturada, respeitosa e dialogal.

IHU – Ele também é recordado entre os mato-grossenses? 

Dom Neri José Tondello – Nos ambientes eclesiais, missionários e acadêmicos, Vicente é reconhecido como testemunho profético. Contudo, sua memória ainda precisa ser mais difundida na sociedade em geral. Sua vida permanece como interpelação às estruturas sociais, sobretudo no que se refere à justiça e à dignidade dos povos indígenas.

IHU – Qual é a situação atual dos Enawenê-nawê? 

Dom Neri José Tondello – Houve avanços, especialmente no reconhecimento territorial. Contudo, permanecem desafios significativos, sobretudo diante das pressões externas e das mudanças ambientais. A exortação apostólica Querida Amazônia recorda que é necessário preservar não apenas a terra, mas também os modos de vida.

IHU – O que mudou na vida dos Enawenê-nawê ao longo da última década em que você os acompanhou?

Caroline Hilgert – Depois que Kiwxi foi assassinado, Fausto Campoli foi para a aldeia e deu continuidade à autodemarcação das terras. Mas, naquela época, a estrada não era tão perto da aldeia nem existia o pedágio, e a região do Rio Preto ficou de fora da demarcação. Apesar de a terra dos Enawenê-nawê estar demarcada e este ser um povo de recente contato, hoje eles estão cercados pela soja. Além disso, no rio Juruena tem cerca de 11 pequenas centrais hidrelétricas. Então, nos últimos anos e, mais especificamente de 2008 para cá, eles foram drasticamente impactados pela sociedade.

Apesar de o contato ter sido feito décadas atrás, até 2010 só era possível chegar na aldeia de barco, o que causava um distanciamento. Agora, com a estrada, a situação é diferente. A primeira estrada foi aberta por causa dos interesses do prefeito Hermes Bergamim, que faleceu na pandemia, soterrado no garimpo, porque ele tinha interesse no garimpo e era associado ao Blairo Maggi, produtor de soja. Em decorrência desses empreendimentos, os indígenas começaram a ser assediados. Venderam carros roubados para eles, sem eles terem consentimento da situação. Os Enawenê-nawê passaram um período de muita criminalização local porque eram apresentados como os grandes selvagens da história, homens que andavam armados e com carros roubados, quando na verdade não era nada disso. 

Comunidade Enawenê-nawê (Foto: Pe. Renan Dantas)

Posteriormente, foram instalados dois pedágios na estrada, que passaram a afetar outras parcelas da população e, num conflito, duas pessoas morreram. Relato tudo isso para dizer que de 2010 para cá, com a abertura da estrada, os Enawenê-nawê passaram a ser muito assediados e ameaçados novamente por agentes do entorno. Na época em que mataram Kiwxi houve muitos conflitos na região. Em 2010, esses conflitos voltaram. 

Ainda tem a questão da demarcação do Rio Preto, que é uma região que hoje é ocupada por uns 100 fazendeiros – todos ligados ao agronegócio e à soja. A situação entre eles parece estar mais tranquila, porém, ao mesmo tempo, se mexerem no processo da demarcação para a inclusão da região do Rio Preto no território indígena, tudo pode acontecer.

IHU – Do que trata esse processo? 

Caroline Hilgert – Rio Preto é uma região que ficou de fora da demarcação quando foi feito o processo de demarcação da terra indígena Enawenê-nawê. Várias são as razões para isso ter acontecido. Pode estar relacionado ao fato de que, à época, as pessoas não entendiam bem o idioma. Por outro lado, essa é a parte mais fértil do território. A terra indígena Enawenê-nawê é areia de cerrado. Então, o solo de todo o território demarcado não é fértil; é solo arenoso. A parte do Rio Preto é uma parte sagrada para a comunidade, mas ficou de fora da demarcação. A questão é saber se ficou de fora de propósito por ser uma área fértil ou não. 

Mas o fato é que ficou de fora e os Enawenê-nawê e os antropólogos que atuaram na região fizeram um processo de revisão da demarcação para incluir a região do Rio Preto na demarcação da terra Enawenê-nawê. O prefeito, à época, entrou com uma ação para anular a possibilidade de anexação de Rio Preto na terra indígena. A prefeitura ganhou o processo na primeira instância, mas a comunidade indígena nunca tinha sido escutada. Assim, o processo foi encaminhado para o Tribunal Regional Federal (TRF), em Brasília. Nesta época, comecei a frequentar os Enawenê-nawê e tomei conhecimento dessa situação e, junto ao Cimi, entramos com uma ação judicial em nome da comunidade. 

Por fim, o TRF decidiu que o processo era nulo porque a comunidade indígena não foi ouvida e devolveu o processo para a Justiça de Juína. Hoje, há um processo de revisão em Juína que está aguardando a decisão judicial. Além dessa ação, há uma ação criminal contra três indígenas Enawenê-nawê acusados de matar três homens num conflito que ocorreu no pedágio. O mesmo juiz vai julgar os dois casos porque nas cidades do interior é assim, um juiz julga vários processos. 

IHU – Com base na sua atuação no Cimi, o que mais chama sua atenção na forma como as questões indígenas são tratadas pelos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário? 

Caroline Hilgert – O que mais me chama atenção é o tempo das coisas. O nosso tempo é diferente do tempo dos povos indígenas. Demorar 40 anos para encerrar um processo de grande impacto para um povo, como é o caso do processo do Kiwxi, é um desrespeito. Fico muito incomodada com o tempo do judiciário, o tempo das demarcações. Há centenas de anos esses povos estão brigando por condições dignas de vida e de acesso à terra. Corremos tanto na sociedade ocidental, criamos tantas formas de burlar o tempo, temos tantas máquinas para fazer tantas atividades, mas quando a questão é a terra, parece que não há pressa para a resolução dos problemas. Quando é para os outros continuarem numa vida indigna, o tempo fica parado. Me assusta passar todo esse tempo e ouvir sempre o mesmo discurso. 

IHU – Como essa morosidade pode ser enfrentada na prática?

Caroline Hilgert – O tempo de um e de outro só vai se encontrar quando houver mobilização e pressão, porque o tempo da caneta do juiz não é o mesmo tempo dos Enawenê-nawê. Se os Enawenê-nawê se reunirem e fizerem uma manifestação, pode ocorrer o encontro dos tempos. Acompanhei um caso de mineração de calcário em terra indígena e o juiz demorou um ano e meio para interromper a mineração. Sem falar nos casos de degradação ambiental que se arrastam por mais de vinte anos.

IHU – Na semana passada, aproximadamente sete mil indígenas, de mais de 200 povos, participaram do Acampamento Terra Livre (ATL) . A demarcação dos territórios continua sendo a principal reivindicação deles. Por que ainda é difícil avançar mais rapidamente na resolução dessa questão? 

Caroline Hilgert – Por causa das disputas políticas. A distribuição de terras é a grande questão de disputa desde a formação do Brasil. Os estudos mostram que as terras continuam nas mãos de pequenos grupos descendentes das colonizações. Para muitos donos de terras, os indígenas não valem mais do que animais. Esse discurso já é antigo. 

Os interesses capitalistas em torno da terra e da propriedade privada é o que faz com que as terras ainda não tenham sido demarcadas nem que não haja uma formação ambiental e política necessária. Veja bem, o STF derrubou o marco temporal e, na sequência, uma lei do Congresso reintroduziu o marco temporal, e continuamos nessa discussão. Quando os povos indígenas achavam que finalmente o marco temporal cairia por terra, ele ressurge novamente. Muitos são os interesses políticos e econômicos nos territórios preservados pelas comunidades.

IHU – Como o agronegócio impacta os povos indígenas? 

Dom Neri José Tondello – O agronegócio possui relevância econômica, mas, quando desvinculado de critérios éticos, pode gerar impactos socioambientais profundos. A Igreja, inspirada pela Laudato Si’, propõe uma ecologia integral, que harmonize desenvolvimento com respeito à vida.

IHU – Qual é a mentalidade predominante em Juína em relação ao agronegócio e aos indígenas? 

Dom Neri José Tondello – Há uma forte valorização do desenvolvimento econômico, muitas vezes sem a devida consideração pelos povos indígenas. O desafio é promover uma cultura do encontro, conforme propõe a Evangelii Gaudium.

Caroline Hilgert – Existe um preconceito, que é estrutural na nossa sociedade, que diz respeito ao modo como se gostaria que as pessoas indígenas vivessem. Juína sempre foi uma cidade preconceituosa em relação aos indígenas, principalmente em relação aos Enawenê-nawê, porque eles foram os últimos a fazerem contato com a sociedade civil. Os demais indígenas que vivem na região são vistos como pacificados, numa visão colonialista, porque eles, de alguma forma, contribuem para a economia. Os outros povos vão para a cidade, compram e voltam para suas comunidades. 

Em 2015, quando teve um conflito no pedágio, os Enawenê-nawê pararam de frequentar Juína e passaram a frequentar Vilhena, no estado de Rondônia – a terra deles fica entre Juína e Sapezal (MT) e Vilhena (RO). Mas a casa de saúde deles fica em Brasnorte, no Noroeste do Mato Grosso. Ou seja, há uma logística de atendimento e de políticas públicas muito ruim por parte do Estado e o preconceito é grande.

IHU – Como a Igreja se relaciona com os povos indígenas?

Dom Neri José Tondello – A Igreja, em comunhão com o Cimi, busca uma presença próxima, respeitosa e inculturada. Inspirada no Evangelho  “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14)  a missão se realiza na convivência, na escuta e no respeito.

IHU – No dia dos povos indígenas, o que temos a celebrar?

Caroline Hilgert – Temos que celebrar e bater palmas para a resistência dos povos originários e para cada pessoa que percebe sua identidade indígena e consegue ver com coração os povos que ainda estão aqui, em luta e resistindo. Também temos que celebrar a autonomia deles, pois assumiram suas identidades sem medo de serem julgados pela nossa visão colonialista, que tenta enquadrá-los num mundo romantizado e antigo, como se não fosse necessário disputar o futuro como foi disputado o passado. A disputa está aí. Ainda que nossos olhos ocidentais não enxerguem, existe outra forma de ver o mundo, que está presente em cada um dos povos indígenas. A celebração está nesse encontro da diversidade e no respeito, sem tirar as diferenças. 

Dom Neri José Tondello – No Dia dos Povos Indígenas, não celebramos apenas uma data simbólica  celebramos uma história viva de resistência, sabedoria e esperança que atravessa séculos.

A presença dos povos indígenas no Brasil é anterior à colonização e marca profundamente a identidade do país. Desde a chegada dos europeus, esses povos enfrentam violências, expulsões de suas terras, tentativas de apagamento cultural e inúmeras injustiças. Ainda assim, resistem. Mantêm vivas suas línguas, tradições, espiritualidades e modos de viver em equilíbrio com a natureza.

Apresentação cultural dos indígenas Enawenê-nawê (Foto: Renan Dantas)

Inspirados pela exortação apostólica Querida Amazônia, recordamos que os povos indígenas são guardiões de conhecimentos essenciais para toda a humanidade. O Papa Francisco destaca que eles nos ensinam um modo de vida baseado no cuidado com a “casa comum”, na relação respeitosa com a terra e na valorização da comunidade.

Nesse caminho de compromisso, a Igreja no Brasil tem uma atuação importante por meio do Cimi, criado em 1972, durante o contexto da ditadura militar. O Cimi surgiu como resposta às graves violações sofridas pelos povos indígenas, assumindo a missão de estar ao lado deles na defesa de seus direitos, territórios, culturas e autonomia. Ao longo das décadas, o Cimi tem denunciado violências, apoiado a demarcação de terras e promovido a valorização das identidades indígenas.

Celebrar esta data, portanto, não pode ser apenas um gesto simbólico. É um chamado concreto ao compromisso:

Defender a vida diante das ameaças constantes.

Proteger os territórios, que são fonte de identidade e sobrevivência.

Respeitar a dignidade e os direitos dos povos indígenas.

Valorizar suas culturas e saberes, fundamentais para um futuro mais sustentável. 

Aumentar a resposta  isto é, ampliar o nosso engajamento  significa sair da indiferença. É reconhecer que a luta dos povos indígenas também diz respeito a toda a sociedade. Sem eles, perdemos não apenas culturas, mas também caminhos possíveis de convivência mais justa e harmoniosa com o mundo.

Celebrar é, acima de tudo, assumir responsabilidade.

IHU – Desejam acrescentar algo?

Caroline Hilgert – Gostaria de destacar que Kiwxi era enawenê. Isso ficou muito claro na celebração. Ele faz parte do mundo cosmológico dos enawenê. Nós o chamamos de Vicente Cañas, mas ele é o Kiwxi. No encontro se referiam a ele como tio Vicente, Ir. Vicente e Kiwxi, mas ele morreu Kiwxi. Esta foi a escolha e o recado dele para a família e para os jesuítas: ele era mais enawenê e se alguém se metesse com os enawenê, ele tinha um lado. Eu gostaria também de lembrar a Michael Nolan nesse trabalho todo porque ela foi fundamental.

Dom Neri José Tondello – A memória de Vicente Cañas permanece como um chamado permanente. Como nos recorda o Evangelho: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). Vicente testemunhou esse amor até as últimas consequências. Que sua vida continue a iluminar nossa missão e a fortalecer nosso compromisso com uma Igreja fiel ao Evangelho, próxima dos pobres e defensora da vida.

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