16 Abril 2026
"Faltam hoje 1.011 dias para o fim do mandato de Trump. Os atuais equilíbrios políticos no Congresso não permitem um impeachment, e a destituição por 'manifesta incapacidade de exercer as funções do cargo' (a 25ª Emenda) exigiria a assinatura da maioria dos ministros cúmplices. Um sinal crucial poderia vir das eleições parlamentares de novembro."
O artigo é de Luca Celada, jornalista italiano, publicado por il manifesto, 14-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Foi mais um fim de semana desatinado para Donald Trump, o presidente que está perdendo o controle daquela que talvez seja a guerra mais imprudente da história militarista nacional. Primeiro, ele ordenou um bloqueio naval do Estreito para não ficar atrás do arqui-inimigo iraniano. Depois, o comandante-em-chefe divulgou novos projetos para seu arco do triunfo e, enquanto as negociações "fracassavam", dividiu-se entre o golfe e uma luta de MMA da UFC, após a qual expressou admiração pela força física e beleza do campeão brasileiro Paulo Costa.
Seu ostensivo desinteresse pela guerra que desencadeou foi seguido pelo ataque ao Papa. As declarações de Leão tiveram a simples força de descrever um mundo tornado irreconhecível, de nomear o "delírio de onipotência" e a blasfêmia da guerra e do genocídio — de escancarar a opressiva normalização criada pelo silêncio geral.
O ataque frontal de Trump ("Não quero um papa que critique o presidente dos Estados Unidos eleito num plebiscito...") foi motivado precisamente por essa capacidade de dar nome à caótica imoralidade do "comandante-em-chefe". Suas palavras sobre a "blasfêmia da guerra e a brutalidade dos negócios" verbalizaram uma evidência sobre a qual gente demais permanece em silêncio, rompendo o silêncio com o qual conta o regime: na bolha que sustenta o culto de Trump, é proibido notar a ausência das roupas do imperador.
Quebrando o encanto do rei nu, do qual o resto do mundo participa mais ou menos passivamente, Leão abriu um espaço vital para imaginar que "a violência não terá a última palavra" — um anátema perigoso para o culto à guerra e ao extermínio criado por Trump e Netanyahu.
No domingo, três cardeais estadunidenses amplificaram a posição do Vaticano, aprofundando a crítica "epistêmica" à propaganda produzida em torno do conflito. No programa 60 Minutes, os arcebispos Joseph Tobin, de Newark, Robert McElroy, de Washington, e Blase Cupich, de Chicago, estenderam o pensamento de Leão especificamente à espetacularização e à banalização do culto da morte. "Estamos desumanizando as vítimas da guerra, instrumentalizando o sofrimento de inocentes e o massacre de crianças e soldados como espetáculo", disse Cupich, bispo da cidade natal de Prevost. "É repugnante combinar imagens de bombardeios reais e mortes de pessoas com clipes de filmes para entretenimento. Somos melhores do que isso."
Quase simultaneamente, a publicação do autorretrato como um Jesus em atitude de cura — posteriormente removida devido à indignação pública — pareceu encarnar precisamente a espetacularização excessiva do momento "apocalíptico-demencial" e a hiper-realidade para a qual o presidente plenipotenciário arrastou um mundo pós-ideológico, pós-legal, pós-diplomático e pós-racional.
A imagem do presidente "ungido pelo Senhor" tem seus precedentes: uma galeria inteira de pinturas de admiradores e imagens de IA retratando o presidente na companhia do Messias cristão. Uma iconografia alegórica e simplificada, em aparência grotesca, porém indicativa da bolha de fanatismo místico-folclórico necessária para compreender o fenômeno que levou o mundo à beira da Terceira Guerra Mundial e que tem muito a ver com o fundamentalismo evangélico, um dos pilares da coalizão de Trump. A identificação do presidente com o Messias é comum nos ambientes fundamentalistas que apoiam as "guerras santas" de Trump e Netanyahu, considerando-as "necessidades proféticas" propedêuticas para o Juízo Final. Com a cooptação dos fundamentalistas que começou com Reagan, continuou com Bush e culminou com Trump, os conceitos antes relegados às franjas esotéricas foram elevados à doutrina oficial, proclamados abertamente, por exemplo, por Paula White-Cain, "conselheira espiritual" com gabinete na Casa Branca. Líderes institucionais como Samuel Alito, o presidente da Câmara, Mike Johnson, e o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, estão impondo orações a seus subordinados e declarando guerra aos "espíritos demoníacos" dos adversários.
A posição clara do Papa Leão indica a necessidade de denunciar essas mutações no coração da superpotência que, com a imprudente guerra ao Irã, deixou evidente o perigo existencial que representa para o mundo.
Faltam hoje 1.011 dias para o fim do mandato de Trump. Os atuais equilíbrios políticos no Congresso não permitem um impeachment, e a destituição por "manifesta incapacidade de exercer as funções do cargo" (a 25ª Emenda) exigiria a assinatura da maioria dos ministros cúmplices. Um sinal crucial poderia vir das eleições parlamentares de novembro.
Enquanto isso, os líderes mundiais poderiam seguir o exemplo do Papa Leão e romper o silêncio que permite essa fase autodestrutiva do império.
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