"Caoslândia às portas". Artigo de Lucio Caracciolo

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17 Abril 2026

"Enquanto isso, Israel, que colocou os Estados Unidos em sua mesma trilha, continua sua guerra sem fim e sem propósito", escreve Lucio Caracciolo, jornalista e analista geopolítico italiano, em artigo publicado por La Repubblica, 14-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Rezemos por Gibraltar. O último estreito ainda livre que nos liga ao Oceano Mundo deveria converter até o mais cético dos italianos à fé. Porque, visto de Roma, o ataque israelense-estadunidense ao Irã é um assédio à Itália. Corremos o risco de ficar presos no lago salgado do Mediterrâneo semifechado. E há quem o chama de Médioceano entre Itália e rotas marítimas globais: nada poderia sem menos verdadeiro! É isso, estão fechando uma válvula após a outra. De leste a oeste: Ormuz em chamas, Bab el-Mandab sob fogo dos Houthis, como Suez assolado pelas guerras de retaliação do Estado judeu após 7 de outubro. Sem mencionar os estreitos turcos, fronteira entre o Mar Negro, palco da disputa russo-ucraniana, e o Mediterrâneo oriental em turbulência, com epicentro em Chipre. O Estreito da Sicília também não nos tranquiliza: na quarta margem, encontramos em Trípoli a Turquia extrovertida, mais influência russa na Cirenaica e a pressão dos conflitos permanentes entre Sahel e Chifre da África. Dali, até as Colunas de Hércules, as coisas melhoram, mas não muito, dadas as reivindicações da Argélia sobre o Mar da Sardenha — nós hesitamos porque dependemos do seu gás.

Um aumento bíblico migratório do sudeste em direção à Europa é previsível nos próximos meses, o que evocará nos devotos a mosaica travessia do Mar Vermelho. Caoslândia às portas.

O colapso do império marítimo estadunidense repercute sobre nós. A ofensiva desencadeada em 28 de fevereiro por Trump, agindo como vassalo de Israel, contra o Irã marca o crepúsculo da talassocracia EUA. O império em desarmamento não é mais capaz de controlar os gargalos estratégicos, centros obrigatórios de tráfegos comerciais e de internet que outrora definiam o sistema nervoso de sua hegemonia que agora virou fumaça. Humilhação especial para a Marinha dos EUA, outrora soberana dos mares agora ideal estafeta pós-Bretanha. O motim a bordo do maior porta-aviões de todos os tempos, o Gerald Ford, provocado por marinheiros exaustos após quase um ano de missões ininterruptas, ilumina o estado da Armada com a qual Trump contava para obliterar a República Islâmica. Ecos do caos nos aparatos de Washington e, portanto, no próprio governo federal, onde o anárquico monarca engorda o patrimônio da família (alargada) enquanto se diverte colocando todos contra todos. Ao ponto de ameaçar deixar a Otan, "tigre de papel". Não sabemos como ele se sai com a lira, mas nossos pensamentos voam a Nero.

Entre as frases apócrifas atribuídos a Mark Twain, uma parece se encaixar com o autoafundamento do número um: "Deus criou a guerra para que os estadunidenses aprendessem a geografia". E a história, complementaríamos. Missão fracassada. Apenas 23% dos estadunidenses conseguem identificar o Irã em um mapa sem nomes — não apostaríamos sermos melhores, mas não pretendemos governar um império. Muitos apostam que se trata de um país árabe e o confundem com o Iraque; poucos o identificam com a Pérsia.

Ao planejar o envio de tropas terrestres, os tomadores de decisão de Washington talvez estejam ignorando o terreno acidentado de um território maior que Itália, França, Alemanha, Reino Unido e Benelux juntos, habitado por quase cem milhões de pessoas, com uma idade média de trinta e quatro anos, uma identidade orgulhosa e grande cultura, com destaques impressionantes nas áreas técnico-científica e de engenharia, especialmente entre as mulheres. É compreensível que grande parte dos iranianos esteja farta de um regime opressor, corrupto e assassino. É incompreensível como Trump tenha podido pedir que derrubassem aquele governo, e consequentemente o Estado do qual é consubstancial, bombardeando-os implacavelmente.

Enquanto isso, Israel, que colocou os Estados Unidos em sua mesma trilha, continua sua guerra sem fim e sem propósito. O general Udi Dekel, analista do Centro de Estudos Estratégicos de Tel Aviv, afirma: "Desde 7 de outubro, Israel caiu na armadilha da 'segurança absoluta', um conceito que o leva à guerra contínua. Se a segurança é definida como a completa eliminação de qualquer ameaça assim que ela surgir, especialmente quando for clara e tangível — em vez de reduzi-la ou construir uma situação estabilizada — então qualquer outro resultado do conflito será percebido como insuficiente, qualquer acordo como rendição, qualquer sucesso parcial como derrota”.

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