16 Abril 2026
Após ser destronado do segundo lugar por Roberto Sánchez, o ultraconservador Rafael López Aliaga convoca uma insurreição.
A informação é de Renzo Gómez Vega, publicada por El País, 16-04-2026.
No meio da semana, durante um protesto em frente à Junta Nacional Eleitoral, o político de extrema-direita Rafael López Aliaga exigiu a anulação dos resultados do que chamou de "essa completa porcaria". Ele se referia ao primeiro turno da eleição presidencial no Peru, um processo longo e lento que, com 90% dos votos apurados, deu a vitória à candidata de direita Keiko Fujimori, com 17% dos votos, e o segundo lugar ao esquerdista Roberto Sánchez, com 12%.
López Aliaga, ex-prefeito de Lima e membro do Opus Dei, ocupava o segundo lugar, com direito a enfrentar Fujimori no segundo turno de 7 de junho, até esta quarta-feira, quando viu Sánchez subir da sexta posição para ultrapassá-lo. Sua primeira reação foi denunciar fraude, pedir a anulação dos resultados e lançar um ataque impiedoso contra o presidente da Junta Nacional Eleitoral (JNE), Roberto Burneo, a quem ameaçou de estupro. “Você sabe exatamente onde vou enfiar, então se comporte como um homem”, disse ele.
O candidato já havia demonstrado uma forte tendência a perder a paciência. Durante a campanha, chamou os cidadãos da província de Andahuaylas, no planalto sul, de “gente de merda”. Já havia incitado o assassinato de um jornalista e recomendado a uma mulher que solicitava eutanásia que “se jogasse de um prédio ou cortasse os pulsos”.
Desde a divulgação dos primeiros resultados eleitorais, López Aliaga vem sofrendo uma queda lenta, porém constante, na contagem de votos. O esquerdista Roberto Sánchez, herdeiro político do ex-presidente Pedro Castillo, preso por tentativa de golpe de Estado em 2022, liderava as pesquisas com pouco mais de 30 mil votos na noite de quarta-feira. Essa ascensão se deve principalmente aos votos rurais, os últimos a serem contabilizados pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE).
As eleições foram realizadas com sérios problemas de organização, incluindo atrasos na instalação das seções eleitorais e uma prorrogação sem precedentes até segunda-feira em Lima. Apesar disso, a Missão de Observação Eleitoral da União Europeia descartou qualquer fraude. Tanto o Ministério Público quanto a Ouvidoria chegaram à mesma conclusão. "Não há fundamentos técnicos ou jurídicos para falar em fraude", afirmou o chefe da Ouvidoria, Josué Gutiérrez.
O Conselho Eleitoral Nacional recebeu sete pedidos de anulação total do processo. Um dos autores da denúncia é o oficial militar aposentado Wolfgang Grozo, que concorreu à presidência pelo partido Integridade Democrática. Em determinado momento da campanha, ele surgiu como um possível candidato de fora do sistema, mas sua candidatura perdeu força rapidamente.
Na cruzada para estabelecer uma narrativa de fraude, Rafael López Aliaga junta-se a outros aspirantes que cobiçavam a faixa presidencial: Alex Gonzales (Partido Verde Democrata), Herbert Caller (Partido Patriótico do Peru) e Francisco Diez Canseco (Nação Peruana). Juntos, eles não chegaram nem a 2% nas eleições.
López Aliaga chegou a questionar se os eleitores em áreas rurais têm treinamento suficiente para processar uma cédula de apuração. "Infelizmente, eles não têm os recursos para serem devidamente treinados", afirmou. Enquanto alguns criticaram essas declarações, outros expressaram incredulidade nas redes sociais quanto ao retorno de Roberto Sánchez, dadas as dificuldades de processar votos de vilarejos remotos e o fato de o voto digital ainda não ter sido implementado no Peru.
“Não é coincidência que esses eleitores tenham sido apagados da memória e da vista do resto do país”, diz o escritor Gustavo Faverón. Sua reflexão coincide com uma transmissão ao vivo do influenciador Cristopher Puente, conhecido como “Cristorata”, que proferiu insultos racistas contra aqueles que votaram em Sánchez. “Montanheses, burros, cabeças-duras comedoras de merda. Por causa da altitude, não recebem oxigênio suficiente no cérebro. Deveriam ser bombardeados”, disse ele.
Assim como o voto rural, o voto no exterior é um dos últimos a ser contabilizado. É um grupo de votos que normalmente não é decisivo, mas em uma eleição tão acirrada, pode ser o fator determinante. Nesse quesito, com 45,9% das urnas apuradas, López Aliaga lidera com quase 40 mil votos, enquanto Sánchez está em oitavo lugar, bem atrás, com 3.225 votos. O voto no exterior será, sem dúvida, mais relevante do que nunca no resultado final.
Keiko Fujimori, a única candidata com vaga garantida no segundo turno, questionou as ações de López Aliaga e enfatizou que "a democracia se fortalece com ações, não com retórica". "Não responderei aos insultos do Sr. López Aliaga, aos quais ele infelizmente nos acostumou, mas o que não podemos permitir é a incitação a uma insurgência... Hoje, responsabilidade e maturidade política são necessárias", declarou. Mesmo assim, a filha de Alberto Fujimori anunciou que seu partido, Fuerza Popular, colocaria sua equipe de representantes à disposição de López Aliaga para investigar quaisquer possíveis irregularidades.
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