16 Abril 2026
Com alta de 74% desde 2010, brasileiros com 60 anos ou mais ampliam influência nas urnas, revelam mudanças demográficas e impõem novos desafios às estratégias políticas e digitais.
O artigo é de Paulo Baía, Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ, publicado por Agenda do Poder, 14-04-2026.
Eis o artigo.
Há uma transformação silenciosa em curso no Brasil. Não se anuncia com estridência, não ocupa manchetes diárias, não se converte em espetáculo. Mas avança com a consistência das marés, com a força inevitável da demografia, com a densidade histórica de quem acumulou décadas de experiência. O país envelheceu. E, mais importante, o eleitorado envelheceu.
A pesquisa que revela esse cenário foi produzida pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, com base em dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral. Trata-se de um levantamento rigorosamente quantitativo, estruturado a partir da base do cadastro eleitoral brasileiro, com coleta realizada em 1º de março de 2026. A própria metodologia registra que os dados de 2026 são parciais, pois o cadastro segue aberto até 6 de maio. Não há aqui opinião, nem intenção de voto, nem projeção subjetiva. Há leitura direta da realidade empírica. Há demografia convertida em política.
Em 2010, o Brasil tinha 135,8 milhões de eleitores. Em 2026, chega a 156,2 milhões. Um crescimento de cerca de 15%. Mas o dado decisivo não está aí. O dado decisivo está no salto do eleitorado com 60 anos ou mais. Eram 20,8 milhões em 2010. São 36,2 milhões em 2026. Um crescimento de 74%. Uma expansão quase cinco vezes maior que a do conjunto do eleitorado.
Não se trata de um detalhe estatístico. Trata-se de uma mutação estrutural. Os idosos deixaram de ser margem. Tornaram-se centro.
Em 2010, representavam 15,3% do eleitorado. Em 2014, 17,0%. Em 2018, 18,8%. Em 2022, 21,0%. Em 2026, alcançam 23,2%. Quase um em cada quatro eleitores brasileiros é idoso. Um quarto do país eleitoral carrega o tempo no corpo, na memória, na linguagem, na forma de perceber o mundo.
Ignorar isso é mais do que um erro. É uma cegueira política.
Mas há algo ainda mais sutil. Não existe um único eleitor idoso. Existem dois mundos dentro dessa mesma categoria. De um lado, 19,7 milhões de pessoas entre 60 e 69 anos, cujo voto é obrigatório. De outro, 16,5 milhões com 70 anos ou mais, cujo voto é facultativo. Isso significa que 45,5% dos idosos já estão fora da obrigação formal de comparecer às urnas.
Dois universos. Duas psicologias. Dois ritmos de participação.
E ainda assim, um mesmo peso simbólico e político.
A estatística revela um paradoxo que exige leitura refinada. Em 2022, a abstenção média do eleitorado brasileiro foi de 20,9%. Entre os idosos, a média foi de 34,5%. Mas essa média esconde um abismo interno. Entre 60 e 69 anos, a abstenção foi de apenas 14,3%. Entre 70 anos ou mais, chegou a 58,9%.
O mesmo grupo social abriga, simultaneamente, a disciplina cívica e o afastamento eleitoral.
O comparecimento reforça essa clivagem. Em 2022, 79,1% do eleitorado geral compareceu às urnas. Entre 60 e 69 anos, o índice foi de 85,7%. Um patamar superior à média nacional em toda a série histórica. Em 2014, 84,2%. Em 2018, 83,8%. Em 2022, 85,7%. Há, nesse segmento, uma ética do voto. Um compromisso que não se dissolve. Um gesto repetido não por hábito mecânico, mas por compreensão do valor da escolha.
Já entre os eleitores com 70 anos ou mais, o comparecimento foi de 41,1%. Em 2014, 36,4%. Em 2018, 37,3%. Em 2022, 41,1%. Cresce, lentamente. Mas permanece baixo.
O Brasil carrega, portanto, uma reserva eleitoral gigantesca. Não no sentido ideológico. No sentido da presença possível. Milhões de idosos que podem votar, mas que nem sempre votam. Que podem decidir eleições, mas que dependem de estímulos concretos para transformar intenção em gesto.
Em números absolutos, a força é incontornável. Em 2022, 21,6 milhões de idosos compareceram às urnas no primeiro turno. Em 2014, eram 15,3 milhões. Em 2018, 17,7 milhões. Um crescimento de mais de 6 milhões de votos em oito anos.
Entre 60 e 69 anos, o número saltou de 11,3 milhões para 15,4 milhões. Entre os com mais de 70 anos, de 3,9 milhões para 6,1 milhões. Mesmo com menor comparecimento proporcional, o crescimento demográfico amplia o peso absoluto.
Ao mesmo tempo, 11,3 milhões de idosos deixaram de votar em 2022. Desses, 2,6 milhões estavam entre 60 e 69 anos. E 8,8 milhões tinham mais de 70 anos.
Há, nesse silêncio eleitoral, uma energia latente. Uma potência que não se realiza automaticamente. Uma ausência que pode se transformar em presença.
Geograficamente, o envelhecimento também redesenha o mapa político. Rio Grande do Sul lidera com 29% de eleitores idosos. Rio de Janeiro aparece com 28%. Minas Gerais, 26%. São Paulo, 25%. Paraná, Espírito Santo e Santa Catarina, todos com 24%.
No outro extremo, Amapá, Amazonas e Roraima têm 15%. Acre, 16%. Pará, 17%.
O país envelhece de forma desigual.
O Sul e o Sudeste concentram não apenas mais idosos, mas também o crescimento mais acelerado. Rio Grande do Sul avançou 11,2 pontos percentuais desde 2010. Espírito Santo, 10,2. Minas Gerais, 9,8. Rio de Janeiro, 9,5. São Paulo, 9,1. Santa Catarina, 9,1.
Nos estados mais populosos, esse fenômeno ganha densidade política. Cerca de 16 milhões de idosos estão concentrados nos três maiores colégios eleitorais do país. Ali, onde eleições se decidem por margens estreitas, o voto idoso deixa de ser apenas relevante. Torna-se decisivo.
E, no entanto, há uma incompreensão persistente no debate público contemporâneo. Uma incompreensão quase arrogante.
Desprezar o Facebook como “rede de velhos” é um erro estratégico. Um erro analítico. Um erro sociológico.
Os idosos estão mais presentes nas redes sociais do que os jovens quando se observa o tempo de permanência diante das telas. Não apenas estão. Permanecem mais tempo. Leem mais. Interagem mais. Compartilham mais. Têm mais disponibilidade temporal para habitar esse espaço.
Enquanto a juventude fragmenta sua atenção em múltiplas plataformas, em estímulos rápidos, em linguagens breves, os idosos ocupam o tempo digital com outra cadência. Com outra respiração. Com outro ritmo cognitivo.
Desprezar textos longos é repetir o mesmo equívoco.
Os idosos leem.
Leem com atenção.
Leem com memória.
Leem com comparação histórica.
Leem não apenas para consumir, mas para compreender.
Há, nesse comportamento, uma dimensão antropológica. O tempo vivido produz outra relação com a palavra. A leitura deixa de ser apenas informação. Torna-se interpretação da experiência, reconstrução da memória, elaboração do vivido.
Do ponto de vista psicológico, o envelhecimento reorganiza a percepção. Não elimina a capacidade crítica. Em muitos casos, a aprofunda. Há mais prudência, mais cautela, mais resistência a simplificações.
Politicamente, isso se traduz em uma relação mais exigente com narrativas. O idoso não responde apenas a slogans. Ele responde a coerência. A trajetória. A consistência.
Sociologicamente, estamos diante de um grupo que acumula capital simbólico. Experiência. Memória. Vivência institucional. Capacidade de comparação entre ciclos históricos.
Esse capital pesa. E pesa cada vez mais.
O erro das campanhas está em subestimar essa densidade. Em tratar o idoso como previsível. Como homogêneo. Como passivo. Nada disso se sustenta diante dos dados.
O eleitor idoso é múltiplo.
É contraditório.
É exigente.
É decisivo.
Há, nesse conjunto, presença contínua no tempo.
O jovem entra e sai do sistema eleitoral. O idoso permanece.
Ele acumula eleições.
Acumula escolhas.
Acumula decepções e aprendizados.
E transforma tudo isso em voto.
Em eleições decididas por menos de 2 milhões de votos, um contingente de 36,2 milhões de eleitores, com 21,6 milhões de votantes efetivos, não pode ser tratado como detalhe.
É eixo.
É estrutura.
É fundamento.
O Brasil de 2026 será atravessado por essa realidade. Os idosos não são apenas uma categoria etária.
São uma força política em expansão.
São uma chave interpretativa.
Ignorá-los é abdicar de entender o país.
Subestimá-los é abrir mão de disputar o futuro.
E há algo mais. Há uma dimensão ética.
Valorizar o voto dos idosos é reconhecer o tempo como elemento político. É reconhecer que a democracia também é construída por quem permanece, por quem insiste, por quem continua.
O voto idoso carrega o tempo.
E o tempo, quando entra na urna, pesa.
Pesa na escolha.
Pesa na decisão.
Pesa no destino coletivo.
O Brasil mudou.
Os números mostram.
A metodologia confirma.
A realidade impõe.
E o tempo, agora, vota.
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