“Os sucessivos bombardeios que ceifam inúmeras vidas no Oriente e no Leste Europeu estão distantes das aspirações do Papa João XXIII no documento magisterial publicado 63 anos atrás.”
O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestra em Filosofia pela Unisinos e mestra em Teologia pela PUCRS.
"Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada.” A declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na última terça-feira, 07-04-2026, referindo-se ao povo iraniano, emerge de um mundo atordoado por ambições políticas e financeiras, onde o apelo à paz não passa de uma retórica para ampliação da dominação. No espírito da Carta Encíclica Pacem in Terris, que completa 63 anos neste sábado, 11-04-2026, o Papa Leão XIV respondeu ao pronunciamento: “Hoje, como todos sabemos, houve também esta ameaça contra todo o povo do Irã, e isso verdadeiramente não é aceitável”.
Os sucessivos bombardeios que ceifam inúmeras vidas no Oriente e no Leste Europeu estão distantes das aspirações do Papa João XXIII no documento magisterial publicado 63 anos atrás. Na ocasião, o mundo vivia as tensões entre as duas grandes potências do século XX, Estados Unidos e União Soviética, e os riscos de uma guerra nuclear com a instalação de mísseis soviéticos em Cuba. O pontífice advertia para os sacrifícios que a corrida armamentista impunha ao desenvolvimento dos povos (n. 109), chamava atenção para a “psicose de medo” gerada pelo temor da destruição (n. 111) e exortava as nações a firmarem um acordo “para a gradual diminuição dos armamentos” (n. 112). Convocava ao “desarmamento integral”, que atinge fundamentalmente “o próprio espírito” e conduz a uma mudança de mentalidade (n. 113).
A mesma recomendação foi reiterada pelos padres conciliares no Concílio Vaticano II. A Constituição pastoral Gaudium et Spes, que trata da atuação da Igreja no mundo atual, condena a “desumanidade da guerra” (n. 77) e apela “ardentemente para que os cristãos, com a ajuda de Cristo, autor da paz, colaborem com todos os homens no estabelecimento da paz na justiça e no amor e na preparação dos instrumentos da mesma paz” (n. 77).
A compreensão da Igreja sobre a realidade não é ingênua nem partidária; é evangélica. Na própria Gaudium et Spes, os padres conciliares reconhecem as “discrepâncias”, os “egoísmos coletivos” e “a ambição de propagar a própria ideologia” que se manifestam entre os povos (n. 8). Identificam a paz como um dos problemas mais urgentes da humanidade (n. 46) e, ao definir sua natureza, asseguram que “paz não é ausência de guerra; nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica” (n. 78). Paz, afirmam, é “‘obra da justiça’ (Is 32,7). É um fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana, e que deve ser realizada pelos homens” (n. 78). Em outras palavras, o alcance da paz depende fundamentalmente do cultivo de uma vida pessoal e comunitária segundo o Espírito de Deus, exercitando-se na vontade de respeitar a dignidade das pessoas e dos povos.
A aclamação dos cristãos a líderes políticos e às suas condutas homicidas em nome de Deus ultrapassa a mera filiação ideológica. Mostra, antes, um completo desconhecimento do que significa a vida no Espírito e, consequentemente, a verdadeira paz. Como explicou João XXIII na Constituição Apostólica Humanae Salutis, publicada por ocasião da Convocação do Concílio Ecumênico Vaticano II em 25 de dezembro de 1961, “a paz verdadeira faz parte dos bens do espírito e procede de uma ordem superior, que só se verifica quando as mentes e as consciências humanas se deixam conduzir pela luz que vem de Deus, criador e redentor de todo gênero humano” (n. 9).
Enquanto autoridades políticas e religiosas proclamam guerras em nome de Deus, Leão XIV surpreendeu a muitos com palavras fortes na celebração do Domingo de Ramos: “Este é o nosso Deus: Jesus, rei da paz. Um Deus que rejeita a guerra, que ninguém pode usar para justificar a guerra, que não escuta, mas rejeita a oração de quem faz a guerra, dizendo: ‘podeis multiplicar as vossas preces, que eu não as atendo; é que as vossas mãos estão cheias de sangue’”.
A guerra, como reitera a Gaudium et Spes, “é crime contra Deus e contra a humanidade, que precisa ser absolutamente condenado” (n. 80). A verdadeira paz, por sua vez, como sublinha João XXIII no documento que relembramos hoje, tem o poder de transformar os corações humanos e nos tornar “testemunhas da verdade, da justiça e do amor fraterno” (n. 170).