08 Abril 2026
"A perspectiva teológico-pastoral convida a olhar o outro como irmão e não como inimigo, e exorta a superar uma paz exclusivamente fundada na segurança militar para chegar a uma cultura de paz fundada na segurança social. E faz bem!!!"
O artigo é de Pietro Cognato, publicado por Settimanna News, 07-04-2026.
Pietro Cognato, docente de Teologia Moral e Bioética na Pontifícia Faculdade Teológica da Sicília (Palermo), intervém no debate aberto pela provocação do sociólogo Alessandro Castegnaro, ao qual responderam os teólogos Gaia De Vecchi e Simone Morandini.
Eis o artigo.
Fazemos a paz: como?
Quando a paz parece possível, não há motivo para não invocá-la, mas também para imaginá-la, pensá-la, sonhá-la. E a teologia, em sua natureza profetizante, equidistante dos catastrofismos desesperados e do otimismo presunçoso, é o primeiro dos saberes que o faz e faz bem em fazê-lo. E foi isso que inspirou e depois realizou a declaração da ATISM Facciamo la pace. Contudo, não basta fazer o bem, mas fazê-lo bem quando se apresentam ocasiões valiosas como as de não se limitar à Declaração, mas a partir dela avançar e esclarecer que a tarefa dos teólogos morais é múltipla.
Aqui se opta por focalizar a atenção em alguns aspectos que orbitam em torno da possibilidade de rever se e de que maneira hoje é possível voltar a discutir as condições da guerra, os limites morais, os meios proporcionados etc. Portanto, também para a teologia vale o pressuposto de que não basta fazer o bem, mas fazê-lo bem. Ela, em uma de suas declinações ao genitivo mais conhecidas e bem aceitas — teologia da paz — se autoconcebe como naturalmente gerada por aquela paz do theo-loghein, do "dizer(-se de) Deus" por parte de Jesus: "a paz seja convosco" (Jo 20,19-21).
Forma escatológica do discurso teológico apreciável, irrenunciável, porém não a única, quando aquela intuição de que os sinais dos tempos pareciam propícios para sonhar a realização do dom pascal se esvanece nas curvas da história que não deixam margem para os automatismos. Quando isso ocorre, a teologia, que permanece escatologia, pode e deve recorrer à sua tradição para reativar um discurso articulado e bem argumentado sobre as condições de aplicabilidade de princípios morais que parecem ter sido postos de lado.
E o motivo é simples: os contextos mudam e também os sujeitos que fazem a história, e muitas vezes alguns fantasmas do passado retornam, ou nunca se foram completamente. Quando as instituições internacionais desaparecem junto com o direito internacional, os pactos multilaterais entre os Estados, a própria ideia do desarmamento, conquistas que parecem ter perdido hoje a força que como europeus nos deixou orgulhosos após os conflitos mundiais que ensanguentaram o continente, a teologia, especificamente a ética teológica, não pode permanecer apenas escatologia, mas deve voltar a praticar também uma pesquisa ético-normativa rigorosa que implique reflexões específicas sobre a teoria moral geral, que deve sempre, por honestidade intelectual, ser jogada às claras, e que com paciência argumentativa anime uma solicitude para que todos dialoguem a fim de responder à pergunta: o que é justo fazer?
O incondicionado no crivo da história
Uma ética teológica à altura da questão "guerra" hoje não deve desfazer-se de sua tradição, mas perguntar-se se as reflexões desenvolvidas, consolidadas e outrora pacificamente aceitas e partilhadas estão superadas ou em crise e por quais motivos. Pois um princípio ético, portanto também o da "guerra justa", nasce e se desenvolve na história e não fora da história, que nos impõe percorrer o caminho do confronto com a realidade das guerras e com as razões que conduzem a um juízo ético sobre os sujeitos que as desencadeiam.
A questão não se resolve em proclamar novas éticas teológicas, mas em prosseguir na busca do juízo moral em contexto. Portanto, se se quiser pensar em afirmar a paz em detrimento da defesa dos mais fracos, será possível fazê-lo não a golpes de slogan, mas em virtude de um raciocínio que, mesmo afirmando a responsabilidade de defesa dos mais fracos, demonstre que isso não consegue justificar a escolha da guerra.
E daí a pergunta sobre de qual guerra se está falando, e não da guerra em si. Somente assim a legítima defesa pode mostrar-se legitimada pela avaliação proporcionada entre a objetividade de um estado de agressão injusta em ato e a proporção objetiva entre os bens a defender e os males que daí decorrem. Também para a ética teológica apenas a história é o único lugar para dar sustento a raciocínios que, se mudam, não mudam por motivos subjetivos, mas por motivos objetivamente ligados às guerras tal como hoje é possível fazê-las.
Uma ética teológica corajosa
Diante de um novo cenário mundial, no qual aquela esperança de construir a paz parece ter perdido o caminho de casa, com coragem e audácia a ética teológica deve saber colocar — eu diria cirurgicamente — uma pergunta na forma de uma provocação capaz de desencadear uma verdadeira e não falsa discussão moral que vá além do imprescindível universo das exortações, encorajamentos, admoestações, recordações e apelos: o emprego da violência pode contribuir para o bem geral da humanidade?
É uma pergunta que já coloquei em outras ocasiões [1], valendo-me de um bem preciso aparato argumentativo útil, em primeiro lugar, para não confundir o discurso da fundação moral com o discurso da fundação das normas morais [2], e para enfrentar, em segundo lugar, a vasta gama de questões que requerem ativar uma função da ética aplicada que tecnicamente chamamos de ética normativa [3].
A convicção de fundo é que o conflito é parte integrante de todo discurso que quer se apresentar como genuinamente moral, tal que não há moral sem conflito. Conflito de quê? Naturalmente, a situação de conflito em moral se traduz na questão espinhosa da realização de certos valores em relação a outros, de modo a prometer alcançar melhores efeitos em relação a outros. O que fazer? Como raciocinar sobre as condutas dos atores em guerra enquanto o mundo é um teatro de guerras? Em virtude da consideração das consequências ou em virtude da simples presença, insistência e declaração de valores?
Quem fomenta dilemas não resolve problemas, e então nunca entrar no beco sem saída da ética dos princípios "ou" da ética do resultado [4], mas ousar formular com mais precisão:
o que fazer agora enquanto está em curso um conflito bélico e há um agressor e um agredido? É sempre evidente quem é o agredido e o agressor?
A legítima defesa — o dizemos sem rodeios — implica a defesa armada e deve contemplar sem subterfúgios retóricos o uso da força. O problema moral de tal uso não está em ser "contra" ou "pró" a violência em si, mas em fazer escolhas suscetíveis de serem justificadas em casos particulares.
É aceitável afirmar que somos todos pela paz; contudo, embora todos sejamos pela paz, o pacifismo nunca foi pacífico, e o motivo de fundo é que somente a partir de uma análise dos valores em jogo que entram em conflito — que são inevitavelmente a não violência, por um lado, e a proteção de si mesmo e dos próprios próximos, por outro — é possível encontrar a quadratura.
Esses valores entram em conflito no momento em que, enquanto se condena universalmente a violência, por causa de uma agressão à comunidade à qual se pertence de maneira estável, é necessário proteger-se e proteger aqueles pelos quais nos sentimos responsáveis. Diante dos dois valores em conflito, não-violência e proteção, é preciso sempre perguntar: o que implicaria para quem não o perseguisse se fôssemos nós as vítimas?
Ou seja: gostaríamos que os outros nos usassem violência e não nos defendessem se nos encontrássemos em uma posição de fraqueza? Então, fora do raio dos proclamas, a identificação do conflito permite configurar o coração pulsante do verdadeiro problema da legítima defesa, que é o seguinte: dado que uma conduta não violenta e a defesa dos mais fracos são ambos valores, qual dos dois deve prevalecer em casos particulares?
A escolha cairá ora num ora noutro dos valores envolvidos, dependendo de quais certezas de natureza empírica temos em relação a questões como a natureza atual da guerra, o uso de armas disponíveis e seu potencial destrutivo, o efeito de uma renúncia sistemática ao uso organizado e controlado da força para repelir o agressor. Isso implica que ninguém tem a verdade no bolso e que a pretensão de que existam alguns tipos de ação — justamente a guerra — que nunca são moralmente justificadas é um equívoco derivado da assunção valorativa dos termos.
Se o termo "guerra" é assumido como termo que possui em si um juízo negativo, resultará automático pensar que se refere a um tipo de ação nunca moralmente justificada. Mas o objeto da discussão deve incluir tudo o que é moralmente relevante, de modo que não é possível dizer que esse tipo de ação é sempre errada. Muito provavelmente os proclamas abundam de maneira diretamente proporcional ao vazio de uma teoria da ação que a ética normativa, ao contrário, coloca no cruzamento de suas reflexões.
Afirmo-o sem reservas: a ética teológica em sua função ético-normativa, se quiser alcançar aquilo para o qual ela existe, ou seja, o que é absolutamente justo nas possibilidades da história, deve refletir e propor ações que modificam "um-estado-de-coisas-no-mundo", na medida em que tais ações produzem valores ou desvalores não morais para todos os sujeitos envolvidos. Em outros termos, é preciso ocupar-se, a depender da situação, não do "bom" do vivido pessoal (valor moral), mas do "correto" da experiência moral (valor não moral).
Todas as perplexidades, as incertezas, também as críticas, as dissensões, os juízos contrastantes sobre os temas eticamente relevantes, nascem, a meu ver, da pouca familiaridade com esse dispositivo de distinção, utilíssimo para oferecer um quadro que corresponda o mais possível à realidade da vida moral.
Destinatários e objetivo da ética teológica
As pessoas racionais e morais a quem espero falar, ao responder a questões de caráter empírico — que mudam de caso a caso, de situação a situação, de período histórico a período histórico —, uma vez identificado o conflito valorativo crucial, não terão medo de falar de "guerra justa" com base em razões. Não invento nada, mas remeto os leitores à história: ou por séculos nos enganamos, ou se sabia distinguir o plano exortativo do plano ético-normativo, o primeiro hoje indolor mas edificante, o segundo árduo mas eficaz, ainda que nem sempre satisfatório.
Refletindo, portanto, seriamente sobre o que preferir, as pessoas não podem senão ansiar por viver todos dentro de uma ordem internacional em que vigore a defesa dos mais fracos, contemplando assim apenas o uso da força por motivos de autodefesa, enquanto fiéis e leais cada um à própria comunidade de pertença.
Aspirar ao desarmamento nuclear é o máximo da realização do que "vale", na medida em que todas as mulheres e homens racionais e morais reconhecem que o uso das armas nucleares causaria uma catástrofe, portanto do ponto de vista das consequências seria algo a impedir; não obstante, enquanto se permanecer apenas na perspectiva teológico-pastoral, como hoje acontece, mover-se-á a partir de um pressuposto hermenêutico de nível paranético (indolor mas edificante). Ao contrário, somente se nos movermos na perspectiva do "mal menor" (árduo mas eficaz) se poderá avançar sobre a crista de um pressuposto hermenêutico de nível ético-normativo. Somente nesse nível é possível perguntar-se se aquela guerra e não outra é legítima defesa, e perguntar-se também se ela pode ser considerada uma forma de violência ou uma forma de resistência ativa.
É preciso para o futuro integrar na reflexão e ação pastoral da comunidade eclesial a perspectiva ético-normativa que pode fazer-se, por um lado, crítica social permanente frente a um poder sempre possível que falsamente pretende defender os ideais de liberdade, justiça e independência mediante a guerra em um contexto de ameaça nuclear, por outro, que não renuncia a reconhecer o direito à defesa armada pelo simples motivo de que é uma categoria crucial da reflexão ético-teológica a respeito da questão "guerra", um dispositivo de critérios avaliativos destinado a discernir sobre o uso da força na defesa dos direitos violados injustamente. E é à luz desse dispositivo que os juízos morais se diversificam a depender se se fala de guerra nuclear ou de guerra convencional, ou de guerra preventiva, ou ainda de deterrência nuclear para fins de superpoder bélico entre superpotências.
A perspectiva teológico-pastoral convida a olhar o outro como irmão e não como inimigo, e exorta a superar uma paz exclusivamente fundada na segurança militar para chegar a uma cultura de paz fundada na segurança social. E faz bem!!!
Todavia, o bem deve ser feito bem, e eis que a ética normativa se aproxima dela e oferece sua contribuição para o mesmo fim.
Notas
[1] Cf. P. Cognato, Sulla guerra: la prospettiva dell'etica teologica, in "ho theológos" 41 (2023) 2-3, 299-313; Id., Per una pace "giusta". Un contributo etico-teologico, in A. Castegnaro (a cura), Il contributo delle religioni alla terza guerra mondiale, Edizioni Messaggero, Pádua 2025, 114-131.
[2] Cf. P. Cognato, Come se Dio (non) ci fosse. Chiarificazioni metaetiche per il teologo moralista, in "ho theológos" 40 (1/2022) 107-115.
[3] Cf. P. Cognato, Male minore (principio del), in E. Sgreccia − A. Tarantino (a cura), Enciclopedia di Bioetica e Scienze giuridiche, vol. VIII, Edizioni Scientifiche Italiane, Nápoles 2015, 172-181. Cf. também G. Trentin, Etica applicata: per aiutare ad affrontare i dilemmi etici, in Etica applicata (dossier de Etica per le professioni) 1/2018, 23-28.
[4] G. Trentin nos adverte, de maneira iluminadora, que quando Max Weber entende a ética do resultado com a ética da responsabilidade induz equivocadamente a crer que a única alternativa válida a uma impostação teleológica seja a ética das boas intenções, ou seja, legitima assim a ética dos princípios como reação a uma mera ética do resultado. Cf. G. Trentin, Per una pace possibile. Nozioni e chiarificazioni preliminari sul rapporto tra religioni e guerre, in A. Castegnaro (a cura), Il contributo delle religioni alla terza guerra mondiale, Edizioni Messaggero, Pádua 2025, 92-113, 102.
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